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<title>Thomas V. Conti</title>
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<description>Ensaios sobre economia, direito, história e ciência, publicados desde 2013. Textos novos saem também na [newsletter do Substack](https://thomasvconti.substack.com/).</description>
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  <title>Anvisa sob ataque? Boas intenções nunca bastam</title>
  <link>https://thomasvconti.com.br/2021/anvisa-sob-ataque-boas-intencoes-nunca-bastam/</link>
  <description><![CDATA[ 




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<p><a href="https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/anvisa-sob-ataque-boas-intencoes-nunca-bastam-09022021">Texto publicado pelo autor originalmente no JOTA em 9 de fevereiro de 2021</a></p>
<hr>
<p>O Senado e a Câmara dos Deputados aprovaram a medida provisória MPV 1003/2020 que altera as regras de aprovação emergencial de vacinas pela Anvisa, dentre outras medidas. A intenção alegada por apoiadores e o líder do governo no congresso é agilizar a vinda de vacinas para o Brasil. No entanto, o movimento foi criticado como ataque[1] ou atropelo[2] da agência reguladora por diversos atores e a própria Anvisa ameaçou recorrer na justiça contra a legislação.[3]</p>
<p>Como nós que trabalhamos com análise econômica do direito insistimos, boas intenções estão longe de ser suficientes para criar uma legislação que produza boas consequências. O caso em tela não é exceção. É salutar a intenção de obtermos vacinas mais rápido – eu mesmo escrevi aqui no Jota defendendo duas medidas com este objetivo, uma delas realizada pela Anvisa no dia seguinte.[4] Porém há detalhes da proposição legislativa que podem de fato trazer problemas. Enquanto alguns críticos têm se posicionado mais no sentido de se opor completamente à proposta, meu objetivo neste texto é ser mais preciso na crítica e propor algumas ideias de melhoria.</p>
<p>O ponto mais polêmico da MPV 1003/2020 é seu Art. 5º, que versa sobre a autorização temporária de uso emergencial de vacinas. Destaquei os trechos que considerei mais importantes e para comentá-los um a um. Mas antes, cabe explicar o contexto desse artigo.</p>
<p><a href="art-5-mpv-1003-thomas-conti.jpg" class="lightbox" data-gallery="quarto-lightbox-gallery-1"><img src="https://thomasvconti.com.br/2021/anvisa-sob-ataque-boas-intencoes-nunca-bastam/art-5-mpv-1003-thomas-conti.jpg" class="img-fluid" width="589"></a></p>
<p>Já estava em vigor desde maio a Lei 14.006/2020, que concedia autorização excepcional e temporária para importar e distribuir remédios aprovados por pelo menos uma de quatro agências internacionais. Mas ela não vinha sendo aplicada para vacinas.</p>
<p><a href="lei-14.006-lei-14006-anvisa-thomas-conti.jpg" class="lightbox" data-gallery="quarto-lightbox-gallery-2"><img src="https://thomasvconti.com.br/2021/anvisa-sob-ataque-boas-intencoes-nunca-bastam/lei-14.006-lei-14006-anvisa-thomas-conti.jpg" class="img-fluid" width="589"></a></p>
<p>No entanto, solução avançada pelo Congresso e Senado vai além da Lei 14.006. Bastante além. Não sei dizer se a intenção é mesmo atropelar a Anvisa, mas há dispositivos na lei que na prática removem processos da agência acima do que a urgência necessita. Arriscam até serem contraproducentes.</p>
<p>Isso porque campanha de vacinação é altamente afetada pela confiança que a população tem na vacina.[5] Sim, precisamos trazer vacinas o mais rápido possível. Mas o Brasil construiu para si um histórico de alta confiança em vacinas, não podemos ser negligentes e arriscar perder confiança à toa. Países como a França[6] e o próprio Estados Unidos[7] sofrem com estes problemas.</p>
<p>Enquanto a Lei 14.006 fala em autorização excepcional – que ao menos no meu entendimento poderia ter regras próprias e menos abrangentes conforme Anvisa entender necessárias –, a MPV 1003 iguala o regime de aprovação automática à aprovação emergencial da Anvisa, que permite não só importar e distribuir, mas também usar as vacinas.</p>
<p><a href="mpv-1003-lei-14006-lei-14.006-thomas-conti.png" class="lightbox" data-gallery="quarto-lightbox-gallery-3"><img src="https://thomasvconti.com.br/2021/anvisa-sob-ataque-boas-intencoes-nunca-bastam/mpv-1003-lei-14006-lei-14.006-thomas-conti.png" class="img-fluid" width="589"></a></p>
<p>Embora talvez não seja a intenção, na prática o órgão legislador é tirado de cena, pois o regime dessa aprovação automática acaba sendo o mesmo regime emergencial de aprovação analisada com mais tempo e cuidado pela Anvisa. Permite inclusive usar as vacinas antes de tempo hábil de analisar pontos práticos, como se as fábricas que produzem a vacina para fornecimento brasileiro são adequadas à produção e a qualidade do produto. Embora a tecnologia da vacina seja a mesma, a fábrica na qual será feita à produção para um país estrangeiro pode ser diferente da fábrica que fornecerá para o Brasil, cabendo no mínimo uma inspeção.</p>
<p>Como melhorar? A autorização poderia ser menos abrangente que a autorização emergencial da Anvisa. Poderia, por exemplo, permitir importar e distribuir, mas o uso aguardaria aprovação emergencial. Assim, facilitaria a compra, negociação e produção das vacinas, mas sem comprometer confiança e segurança na vacina antes de ter a qualidade inspecionada devidamente.</p>
<p>A MPV 1003 também expande o rol de agências que levariam à aprovação expressa no Brasil de 4 para 9. A inclusão de agências do Canadá, Reino Unido e Coreia do Sul entendo como pouco controversas, afinal são democracias com forte controle regulatório que é razoável servir de base para auxiliar decisão mais rápida no Brasil. No entanto, não é claro se a agência reguladora da Rússia tem independência política suficiente para servir de base a uma aprovação automática do tipo. A agência reguladora da Argentina também aprovou recentemente a Sputnik-V antes de qualquer resultado de estudo clínico Fase 3 da vacina, evidência que pode adotar critérios mais frouxos dos utilizados aqui no Brasil. Difícil dizer que sua inclusão tem como objetivo agilizar a vinda de vacinas sem prejuízo aos critérios de segurança e eficácia, dado que outras agências inegavelmente mais rigorosas e transparentes como a agência australiana não constam nas adições.</p>
<p><a href="lei-14006-mpv-1003-lei-14.006-thomas-conti.png" class="lightbox" data-gallery="quarto-lightbox-gallery-4"><img src="https://thomasvconti.com.br/2021/anvisa-sob-ataque-boas-intencoes-nunca-bastam/lei-14006-mpv-1003-lei-14.006-thomas-conti.png" class="img-fluid" width="921"></a></p>
<p>Além da lista, a lei também define que basta ser aprovado por <em>uma</em> dessas agências para agilizar a aprovação no Brasil. Na prática, isso torna nosso processo regulatório tão bom quanto <em>a menos rigorosa</em> das agências da lista. É uma regra que faz a corrente quebrar pelo elo mais fraco. No caso, provavelmente a agência argentina. Ou russa ou chinesa.</p>
<p>Como melhorar?</p>
<p>Alteração 1. Argentina não deveria ser inclusa na lista. No máximo, ela tem a mesma qualidade regulatória que nós e não deve receber interesses de laboratórios em velocidade mais rápida que o Brasil. Rússia não sei avaliar.</p>
<p>Alteração 2. Restringir a regra de aprovação de “pelo menos <em>uma</em>” agência para “pelo menos <em>duas</em>” das agências.</p>
<p>A alteração 2 é especialmente importante. Se a regra é “pelo menos uma” agência, nossa aprovação excepcional se torna tão frágil quanto o elo mais frágil da lista. Porém, se a regra é “pelo menos duas”, nossa aprovação excepcional se torna na prática <em>mais robusta</em> que <em>qualquer</em> agência individual dessa lista.</p>
<p>Isso porque nós só concederíamos essa aprovação ágil se duas agências diferentes e independentes aprovarem. Para esta decisão levar a um erro de eficácia ou segurança da vacina, seria preciso que as duas agências errassem <em>ao mesmo tempo</em>, o que por serem independentes é muito mais improvável do que estarem erradas individualmente.</p>
<p>Dessa forma, a meu ver não estaríamos atropelando precauções necessárias de segurança. Teríamos processo ágil e seguro de contratar, importar e distribuir vacinas, aguardando apenas o uso. A Anvisa poderia avaliar as condições de produção e outros critérios e, com ok da Anvisa para uso, as vacinas já estariam em solo nacional para pronta aplicação.</p>
<p>A parte da MPV 1003 que considero acertada é o entendimento de que aprovações emergenciais no exterior fornecem uma informação muito importante e que merecem ser também consideradas na medida que ajudam os esforços do Brasil de combater a pandemia. Da forma que se estava interpretando Lei 14.006, com apenas registro definitivo contando para vacinas, a lei deixava de servir seu propósito de facilitar e agilizar a vinda de vacinas para o combate da pandemia.</p>
<p>Dois últimos pontos questionáveis, mas que não sei qual seria o melhor direcionamento: 1) Cinco dias são ou não suficientes para alguma avaliação preliminar da Anvisa? E 2) Deveríamos começar a contar os dias a partir da submissão do pedido ou a partir da decisão regulatória estrangeira?</p>
<p>Estes pontos ficam em aberto pois, se a vacina já tiver sido aprovada por pelo menos duas agências independentes como sugeri aqui, e a autorização excepcional não envolver liberação para uso, poderíamos já partir da aprovação estrangeira e não aguardar submissão em português para facilitar negociação e importação de vacinas. A submissão emergencial em si mesma é um processo um tanto moroso e que pode estar sujeito a bloqueios políticos como vimos com a Pfizer-BioNTech.[8] É apenas uma ideia, mas achei importante listar aqui.</p>
<p>Resumo minha opinião geral sobre aprovação da MPV 1003/2020 na imagem a seguir. Em verde, pontos positivos. Amarelo pontos questionáveis se são adequados ou não. Laranja pontos ruins e em vermelho pontos que a meu ver não deveriam constar na lei. A intenção geral da lei de agilizar vinda de vacinas é sim boa, mas em temas complexos só intenção não basta.</p>
<p><a href="mpv-1003-thomas-conti.jpg" class="lightbox" data-gallery="quarto-lightbox-gallery-5"><img src="https://thomasvconti.com.br/2021/anvisa-sob-ataque-boas-intencoes-nunca-bastam/mpv-1003-thomas-conti.jpg" class="img-fluid" width="589"></a></p>
<p>Aproveito para deixar também uma sugestão de como ficaria a redação da lei seguindo algumas ideias deste artigo. 1) Autorização excepcional no lugar do regime emergencial; 2) Para importar e distribuir, mas uso aguarda decisão da Anvisa; 3) Pelo menos duas agências internacionais ao invés de apenas uma; 4) Sai pelo menos a agência da Argentina e entra a agência da Austrália. 5) Em aberto, quantos dias são precisos para avaliação de produção e qualidade pela Anvisa e a partir de quando deveríamos iniciar a contagem de dias.</p>
<p><a href="mpv-1003-thomas-conti-alterada.png" class="lightbox" data-gallery="quarto-lightbox-gallery-6"><img src="https://thomasvconti.com.br/2021/anvisa-sob-ataque-boas-intencoes-nunca-bastam/mpv-1003-thomas-conti-alterada.png" class="img-fluid" width="921"></a></p>
<p>Como último comentário, deixo um alerta. Independentemente do formato final desta peça legislativa e o que acontecerá em uma disputa judicial sobre a sua legalidade, este tipo de legislação não deveria ser construída como guerra entre Legislativo e Anvisa. Pelo contrário, as partes interessadas deveriam conversar e achar pontos comuns para dentro do possível (1) agilizar vinda de vacinas e (2) manter confiança social nas vacinas e no processo regulatório.</p>
<p>Espero que nos próximos dias ocorra este tipo de diálogo, pois as consequências dessa legislação serão de máxima importância par ao país em 2021 no combate à pandemia, e para a próxima década se a confiança social nas vacinas for colocada em risco em decisões de curto prazo.</p>
<hr>
<p><strong>Referências</strong></p>
<p>[1] VARELLA, Drauzio, <strong>O ataque à Anvisa</strong>, Drauzio Varella, disponível em: &lt;https://drauziovarella.uol.com.br/drauzio/artigos/o-ataque-a-anvisa-artigo/&gt;, acesso em: 8 fev. 2021.</p>
<p>[2] <strong>Anvisa quer recorrer contra MP que obriga aprovação de vacinas em até cinco dias</strong>, Exame, disponível em: &lt;https://exame.com/brasil/anvisa-quer-recorrer-contra-mp-que-obriga-aprovacao-de-vacinas-em-ate-5-dias/&gt;, acesso em: 8 fev. 2021.</p>
<p>[3] <strong>Anvisa deve recorrer à Justiça contra MP que obriga aprovação de vacinas em até 5 dias</strong>, disponível em: &lt;https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/reuters/2021/02/05/anvisa-deve-recorrer-a-justica-contra-mp-que-obriga-aprovacao-de-vacinas-em-ate-5-dias.htm&gt;, acesso em: 8 fev. 2021.</p>
<p>[4] G1, <strong>Estudo de fase 3 no Brasil deixa de ser obrigatório para uso emergencial de vacinas contra Covid, diz Anvisa</strong>, G1, disponível em: &lt;https://g1.globo.com/bemestar/vacina/noticia/2021/02/03/estudo-de-fase-3-deixa-de-ser-obrigatorio-para-aprovacao-de-uso-emergencial-de-vacinas-contra-covid-pela-anvisa.ghtml&gt;, acesso em: 3 fev. 2021, p.&nbsp;3.</p>
<p>[5] LARSON, Heidi J. <em>et al</em>, Measuring trust in vaccination: A systematic review, <strong>Human Vaccines &amp; Immunotherapeutics</strong>, v. 14, n.&nbsp;7, p.&nbsp;1599–1609, 2018.</p>
<p>[6] CHADWICK, Lauren, <strong>Why do so few people in France want to take the COVID-19 vaccine?</strong>, euronews, disponível em: &lt;https://www.euronews.com/2021/01/18/why-do-so-few-people-in-france-want-to-take-the-covid-19-vaccine&gt;, acesso em: 26 jan. 2021.</p>
<p>[7] FERNANDEZ, Manny, Anti-Vaccine Activists Emboldened in California, <strong>The New York Times</strong>, 2021.</p>
<p>[8] BETIM, Felipe, <strong>Pfizer avisa que não solicitará uso emergencial de vacina no Brasil e critica protocolo da Anvisa</strong>, EL PAÍS, disponível em: &lt;https://brasil.elpais.com/brasil/2020-12-29/pfizer-avisa-que-nao-solicitara-uso-emergencial-de-vacina-no-brasil-e-critica-protocolo-da-anvisa.html&gt;, acesso em: 2 jan. 2021.</p>



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  <category>Direito e Economia</category>
  <category>Opinião</category>
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  <pubDate>Wed, 10 Feb 2021 03:00:00 GMT</pubDate>
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  <title>Duas canetadas, milhares de vidas</title>
  <link>https://thomasvconti.com.br/2021/duas-canetadas-milhares-de-vidas/</link>
  <description><![CDATA[ 




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<p><a href="https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/duas-canetadas-milhares-de-vidas-02022021">Texto publicado pelo autor originalmente no JOTA em 2 de fevereiro de 2021</a></p>
<hr>
<p>Em tempos normais, insistimos na importância de avaliar as consequências das nossas leis e regulações. Durante uma emergência de saúde pública, tal importância é tanto maior quanto mais grave a emergência.</p>
<p>No entanto, destaco que pelo há neste momento uma regra e uma interpretação da lei relativas ao uso emergencial de vacinas contra a Covid-19 que já ceifaram vidas no Brasil e que se nada for feito nos custarão mais alguns milhares ou dezenas de milhares de vidas ao longo de 2021.</p>
<p><em>A regra</em>. A regra que me refiro é a exigência pela Anvisa de que os laboratórios interessados em obter autorização de uso emergencial de vacinas contra a Covid-19 precisem no mínimo ter iniciado estudos clínicos de Fase 3 sobre eficácia e segurança da vacina <em>em solo nacional</em>.[1]</p>
<p>Essa exigência é cientificamente inútil e pragmaticamente danosa. É inútil do ponto de vista científico porque a princípio não há razão especial para acreditarmos que a segurança ou eficácia de uma vacina seria substancialmente diferente na população brasileira ou em outro país. E se tivéssemos razões para acreditar nesta possibilidade, seria preciso exigir não só um estudo Fase 3, mas um estudo Fase 3 com número muito grande de voluntários para que o teste clínico tivesse poder estatístico suficiente para mensurar a diferença.</p>
<p>Pragmaticamente, a regra é danosa pois impõe a todos os laboratórios uma burocracia muito grande em tempo e dinheiro que eles não precisam enfrentar em outros países. A Fase 3 exige envolvimento de instituições parceiras, cadastramento do teste clínico, pelo menos 1.000 voluntários que toma tempo recrutar e custa acompanhar. Isto é, aumenta os custos de transação, como diríamos em análise econômica do Direito.</p>
<p>Como consequência, notícias excelentes como o recente resultado do estudo clínico Fase 3 da vacina da Novavax demonstrando segurança e 89% de eficácia[2] não repercutem diretamente em ações concretas no Brasil. Apesar do estudo da vacina ter envolvido mais de 30 mil pessoas, o laboratório não iniciou um braço do estudo em solo nacional brasileiro com pelo menos mil pessoas, então teria seu pedido de uso emergencial barrado pela Anvisa. Quantas vidas essa burocracia pode nos custar? Facilmente milhares de vidas. Falando apenas da vacina da Novavax, inclusive ela demonstrou eficácia de 85,6% contra a variante B.1.1.7 do Reino Unido e 60% eficaz contra a variante B.1.351 da África do Sul,[3] que têm mutação na proteína spike similar à variante P.1 de Manaus que bate aqui na nossa porta.[4] E nós vamos esperar início de estudo clínico no Brasil para usar uma ferramenta poderosa como essa? Por quê? É urgente revisar esta regra. Mas não é a única.</p>
<p>Há também um problema de <em>interpretação da Lei 14.006/2020</em> que alterou a Lei 13.979/2020. A Lei 14.006/2020 foi uma medida emergencial que estabeleceu prazo de 72 horas para que a Anvisa autoriza a importação de “quaisquer materiais, medicamentos, equipamentos e insumos da área da saúde registrado por autoridade sanitária estrangeira e autorizados à distribuição comercial em seus respectivos países.” As agências estrangeiras a que a lei se refere são quatros: 1. Estados Unidos (FDA), 2. União Europeia (EMA), 3. Japão (PMDA) e 4. China (NMPA).</p>
<p>A Lei 14.006 não menciona explicitamente vacinas, porém é razoável dada a emergência de saúde pública elas estejam inclusas nas categorias de “quaisquer medicamentos” ou “quaisquer insumos da área da saúde”. Para remédios ou outros insumos, a identificação que o remédio é eficaz contra o coronavírus – como ocorreu com a Dexametasona – permitiria uso imediato para este fim no Brasil, pois o remédio tem uso comercial aprovado pra outros fins tanto no exterior quanto no Brasil.</p>
<p>O problema específico com relação às vacinas são dois: que a autoridade sanitária pode interpretar que a lei 14.006 só conta para registros definitivos no exterior e não para registro emergencial; e que a autorização de uso emergencial de vacinas pelas agências nomeadas não está sendo acompanhada de autorização de uso comercial.</p>
<p>Isto é, temos uma lei cujo objetivo é agilizar a resposta do país à emergência de saúde pública que, no entanto, está sendo interpretada como exigindo uma certificação definitiva quando aplicada em vacinas. Como consequência, chegamos em situação vergonha que está literalmente matando brasileiros. Por exemplo, a vacina da Pfizer-BioNTech aprovada em dezembro pelo FDA e EMA já foi aplicada com segurança e eficácia em mais de 30 milhões de pessoas mundo afora, mas ainda não está aprovada para uso emergencial no Brasil.[5] A vacina da Moderna também foi aprovada pelas agências em dezembro e aplicada em milhões de pessoas, mas segue não aprovada para uso no Brasil.</p>
<p>Não estão aprovadas apesar do mundo inteiro saber que são seguras e eficazes. Não estão aprovadas por conta de burocracias e por interpretação contraproducente da Lei 14.006/2020, e não para garantir maior segurança aos brasileiros do que usufrui hoje um americano ou europeu. Pelo contrário, cada dia que demoramos para trazer vacinas aprovadas, mais brasileiros são expostos ao vírus, internados e sufocados pela Covid-19. No Reino Unido, estima-se que com tão poucas quanto 20 pessoas vacinadas com vacinas da Pfizer-BioNTech (altamente eficaz) seriam suficientes para salvar vidas em grupo prioritário.[6]</p>
<p>Por estas razões, na minha opinião a Anvisa deveria revogar por completo a exigência de condução em solo brasileiro de braços do estudo clínico Fase 3 para autorização emergencial de vacinas contra a Covid-19. Além disso, deveríamos mudar a interpretação da Lei 14.006/2020 quando aplicada no tema vacinas para que autorização emergencial pelas agências nomeadas já seja suficiente para permitir a vinda destas vacinas ao Brasil em 72 horas. Esta autorização pode ser mais restritiva que a autorização emergencial atual, conforme a Anvisa considerar necessário. Mas que se permita que a lei cujo objetivo é facilitar o uso de produtos que salvem vidas seja usada para rapidamente salvar vidas também com vacinas.</p>
<p>Caso para este fim não se queira acionar a Lei 14.006/2020 como sugiro aqui, dado o problema concreto que está atrasando a vinda de vacinas deveria ser matéria urgente no Congresso Nacional editar nova lei que estabeleça regras para facilitar a vinda imediata para o Brasil de vacinas aprovadas emergencialmente por órgãos reguladores estrangeiros de alta reputação. Facilitaria as negociações dos laboratórios com o governo federal e caso ele continue não demonstrando interesse em trazer vacinas, facilitaria também os esforços dos vários governadores que estão tentando trazê-las.</p>
<p>Não podemos devolver as vidas perdidas pela burocracia desta aprovação entre dezembro e janeiro, mas podemos impedir que mais mortes evitáveis como essas aconteçam no resto do ano. Diante das consequências conhecidas, é o que deveria ser feito.</p>
<hr>
<p><strong>Referências</strong></p>
<p>[1] ANVISA, Guia sobre os requisitos mínimos para submissão de solicitação de autorização temporária de uso emergencial, em caráter experimental, de vacinas Covid-19, 2020.</p>
<p>[2] G1, <strong>Vacina contra a Covid-19 da Novavax tem eficácia de 89%, aponta análise inicial</strong>, G1, disponível em: &lt;https://g1.globo.com/bemestar/vacina/noticia/2021/01/28/vacina-contra-a-covid-19-da-novavax-tem-eficacia-de-89percent-apontam-estudos.ghtml&gt;, acesso em: 28 jan. 2021.</p>
<p>[3] HOWARD, Jacqueline <em>et al</em>, <strong>Novavax vaccine is 89% effective in UK trial, but less so in South Africa</strong>, CNN, disponível em: &lt;https://www.cnn.com/2021/01/29/europe/novavax-covid-vaccine-uk-sa-trials-gbr-intl/index.html&gt;, acesso em: 29 jan. 2021.</p>
<p>[4] CDC, <strong>Emerging SARS-CoV-2 Variants</strong>, Centers for Disease Control and Prevention, disponível em: &lt;https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/more/science-and-research/scientific-brief-emerging-variants.html&gt;, acesso em: 31 jan. 2021.</p>
<p>[5] <strong>More Than 94.4 Million Shots Given: Covid-19 Vaccine Tracker</strong>, disponível em: &lt;https://www.bloomberg.com/graphics/covid-vaccine-tracker-global-distribution/&gt;, acesso em: 31 jan. 2021.</p>
<p>[6] JOINT COMMITTEE ON VACCINATION AND IMMUNISATION, <strong>Joint Committee on Vaccination and Immunisation: advice on priority groups for COVID-19 vaccination, 30 December 2020</strong>, GOV.UK, disponível em: &lt;https://www.gov.uk/government/publications/priority-groups-for-coronavirus-covid-19-vaccination-advice-from-the-jcvi-30-december-2020/joint-committee-on-vaccination-and-immunisation-advice-on-priority-groups-for-covid-19-vaccination-30-december-2020&gt;, acesso em: 31 jan. 2021; MCDONALD, Stuart, <strong>Vaccine Priorities</strong>, COVID-19 Actuaries Response Group, disponível em: &lt;https://www.covid-arg.com/post/vaccine-priorities&gt;, acesso em: 31 jan. 2021.</p>



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  <category>Direito e Economia</category>
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  <pubDate>Wed, 10 Feb 2021 03:00:00 GMT</pubDate>
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  <title>Governo deu Pedalada das Vacinas?</title>
  <link>https://thomasvconti.com.br/2021/governo-deu-pedalada-das-vacinas/</link>
  <description><![CDATA[ 




<p>Há um elefante na sala das notícias sobre a negociação entre governo brasileiro, AstraZeneca, e um grupo desconhecido de empresas brasileiras interessadas em adquirir vacinas. Neste texto organizo as informações públicas sobre o tema e levanto a hipótese de que o Governo Federal pode ter aplicado uma “Pedalada das Vacinas” com desvio de finalidade de 16,5 milhões a 33 milhões de doses de vacinas e movimentando até R$4,3 bilhões de reais. Ao final do texto deixo três perguntas que estão em aberto e precisam de explicação urgente do governo e no meu entendimento tanto a imprensa quanto os parlamentares precisam cobrar explicações.</p>
<p>O raciocínio aqui levantado está dividido em três partes. Primeiro explico o contexto das negociações por doses de vacinas contra a Covid-19 no mundo, em seguida organizo as informações que temos sobre essa negociação do setor privado brasileiro para compra de vacinas, e na parte final sintetizo as lacunas dessa história que não parece parar de pé. Vamos começar pelo contexto.</p>
<hr>
<section id="o-contexto-da-pedalada" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="o-contexto-da-pedalada"><strong>O Contexto da “Pedalada”</strong></h2>
<p>O contexto da “pedalada” é o de intensa demanda internacional por vacinas. Todos os grandes laboratórios já estão com doses alocadas para governos pelo mundo todo. A compra ser feita por governos - em geral nacionais - é exigida também pelos próprios laboratórios, que nessa fase inicial de distribuição de doses não estão negociando diretamente com o setor privado.</p>
<p>O preço de cada dose de vacina teve margem de variação quando da negociação inicial de vacinas. Alguns países que contribuíram com recursos para a pesquisa das vacinas conseguirão comprar antes e/ou mais barato. Outros países se dispuseram a pagar com antecedência ou comprar doses adiantadas, também obtendo valores diferenciados. Há variação de preço conforme a distância e dificuldades de distribuição em cada local.</p>
<p>Mas, salvo esses casos, em sua vasta maioria os preços das vacinas estão sendo fixados pelos laboratórios para impedir que disputas por quem paga o maior preço por vacinas acabem drenando todas as vacinas dos países pobres e em desenvolvimento em favor dos países ricos. A maioria dos laboratórios também se dispôs a vender as vacinas pelo seus custos de reposição, então não há muita margem de negociação e lucro para haver forte diferença de preço.</p>
<p>Foi nesse contexto que o governo brasileiro firmou em julho acordo com o laboratório AstraZeneca para o <a href="https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2020/07/31/governo-assina-documento-que-viabiliza-100-milhoes-de-vacinas-contra-covid.htm">fornecimento de 100 milhões de doses</a>. O preço de cada uma dessas doses pode ser inferido como em torno de 2 a 4 dólares.</p>
<p>A vacina da AstraZeneca é de longe a mais barata entre os grandes laboratórios produtores de vacina hoje. Semana passada foi <a href="https://www.theguardian.com/world/2021/jan/22/south-africa-paying-more-than-double-eu-price-for-oxford-astrazeneca-vaccine">notícia internacional tensa</a> a informação que o laboratório estaria cobrando US$5,25 por cada dose na venda para a África do Sul, 2,5 vezes mais cara por dose que a maioria dos países europeus está pagando. A diferença de preço é justificada na base que o bloco europeu investiu 2,7€ bilhões de euros (R$13 bilhões) para financiar a etapa de pesquisa e desenvolvimento da vacina.</p>
<p>Apesar do investimento massivo europeu, desde dezembro a AstraZeneca vem sendo <a href="https://www.youtube.com/watch?v=OZAbg8WVLMQ">cada vez mais cobrada pela União Europeia</a> por conta dos atrasos que estão se acumulando na entrega das doses contratadas. “Furioso” com a AstraZeneca, esta semana o bloco iniciou <a href="https://fortune.com/2021/01/26/astrazeneca-covid-vaccine-dispute-eu-covid19-export-controls/">ameaças de controle de exportações</a> das vacinas produzidas em seu território para garantir a entrega de doses. No Reino Unido, local sede da Universidade de Oxford que ajudou na pesquisa da vacina AstraZeneca e onde o laboratório tem plantas de produção, a estimativa do laboratório era de entregar <a href="https://www.reuters.com/article/uk-health-coronavirus-britain-astrazenec/astrazeneca-expects-to-supply-two-million-doses-of-covid-19-vaccine-every-week-in-uk-the-times-idUKKBN2962NI">2 milhões de doses por semana</a>.</p>
<p>Nesse contexto, como empresas brasileiras teriam poder de barganha para comprar 33 milhões de doses na frente de países inteiros? Esse volume de vacinas seria suficiente para imunizar com 2 doses toda a população da Holanda, ou toda a população de 8 países menores da União Europeia.</p>
<p><strong>Resumo:</strong> O contexto mundial é de grandes laboratórios com lotes de doses já vendidos para praticamente o ano todo a preços pré-acordados e que estão atrasados até em países muito ricos que conseguem produzir nacionalmente as vacinas. <strong>Dúvida:</strong> Como empresas brasileiras teriam poder de barganha para passar na frente de outros países?</p>
<hr>
</section>
<section id="a-compra-privada-de-vacinas-da-astrazeneca" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="a-compra-privada-de-vacinas-da-astrazeneca"><strong>A “Compra Privada” de vacinas da AstraZeneca</strong></h2>
<p>No dia 25 de janeiro, a Folha de São Paulo publicou a notícia <a href="https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/01/governo-da-aval-a-compra-de-vacinas-privadas-contra-covid-e-envolve-fundo-de-investimento.shtml">“Governo dá aval a compra de vacinas privadas contra Covid e envolve fundo de investimento”</a>. Nela, informam que tiveram acesso a uma carta (não disponibilizada publicamente pelo jornal) na qual o governo brasileiro informa ao laboratório AstraZeneca que autoriza um consórcio de empresas privadas brasileiras a comprar 33 milhões de doses de vacinas contra a Covid-19. A carta também é endereçada ao <a href="https://www.blackrock.com/br">fundo de investimentos BlackRock</a> que é um dos acionistas da AstraZeneca com 8% da propriedade acionária, a e uma empresa exportadora chamada BRZ.</p>
<p>Importante que as empresas brasileiras interessadas na compra <strong>não são nomeadas</strong> e não aparece nenhuma assinatura de responsável pela negociação do grupo. A carta do governo é assinada pelos ministros Wagner Rosário (Controladoria-Geral da União) , José Levi (Advocacia-Geral da União) e Élcio Franco, secretário-executivo do Ministério da Saúde. O presidente Bolsonaro também autorizou a aquisição desse lote de vacinas pelo setor privado.</p>
<p>A carta estabelece no entanto algumas condições: 1) as empresas compradoras não podem comercializar as vacinas, aplicando de graça em seus funcionários; 2) as vacinas devem ser rastreáveis; 3) a Anvisa precisa autorizar a compra e importação do lote. 4) a matéria na Folha alega que há expectativa de que metade das doses adquiridas seriam doadas ao SUS, já a <a href="https://oglobo.globo.com/sociedade/governo-diz-astrazeneca-nao-ter-objecao-compra-de-33-milhoes-de-doses-de-vacina-pelo-setor-privado-24854511">matéria sobre a mesma carta n’O Globo</a> afirma que doar metade das doses para o SUS é uma condição para o aval do governo à compra de doses.</p>
<p><strong>Preço:</strong> O preço de cada dose adquirida pelo setor privado brasileiro seria de US$23,79, quase 5 vezes o preço sendo pago pela África do Sul e 10 vezes o preço que a União Europeia está pagando. Supondo que metade das doses seriam doadas para o SUS, na verdade para o setor privado ficariam 16,5 milhões de doses ao preço de US$47,58 (ou R$255,00). No entanto, de acordo com as próprias empresas negociando que a Folha relata, elas só precisariam de 1% desse volume de doses para imunizar seus funcionários. Caso elas não possam usar essas doses para outros fins como diz o aval do governo, na prática estariam pagando R$25.500,00 para cada dose aplicada em um funcionário - as outras 99% teriam que ser doadas para o governo ou oferecidas gratuitamente. A conta não fecha.</p>
<p><strong>Prazo:</strong> O Ministério da Saúde e Fábio Espina, diretor jurídico da Gerdau, disseram que sendo oficializada a compra do lote a expectativa é que <a href="https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/01/governo-da-aval-a-compra-de-vacinas-privadas-contra-covid-e-envolve-fundo-de-investimento.shtml">as vacinas chegariam no Brasil em 10 dias</a>. Como um volume tão grande de doses de uma vacina que nenhum outro país teve acesso rápido até agora chegariam aqui de repente? Uma vacina que a União Europeia que investiu na pesquisa e desenvolvimento está pressionando para que <a href="https://apnews.com/article/europe-ursula-von-der-leyen-coronavirus-pandemic-coronavirus-vaccine-90aa79556ad57469f12baa108df91a57">seja entregue no prazo combinado</a>? A conta não fecha.</p>
<p><strong>Origem:</strong> De onde viria quantidade tão grande de vacinas em tão pouco tempo? Não sabemos. Em <a href="https://g1.globo.com/politica/blog/julia-duailibi/noticia/2021/01/26/governo-federal-racha-nas-discussoes-sobre-compra-de-vacinas-da-astrazeneca-pelo-setor-privado.ghtml">outra reportagem n’O Globo</a> sobre a negociação, “Empresários relataram que teriam acesso aos milhões de doses por meio de um investidor que aplicou recursos no desenvolvimento da vacina e que portanto teria a opção de adquirir as doses por um preço acima do que é vendido aos governos”. Não há nenhum registro público de um fundo ou empresa privada com direito de aquisição de doses ante os laboratórios. No Reino Unido, país sede da AstraZeneca, não é esperado que vacinas estejam disponíveis ao setor privado <a href="https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2021/01/no-reino-unido-vacina-particular-contra-covid-so-e-esperada-no-fim-da-pandemia.shtml">até o fim da pandemia</a>. Como falei no “Contexto”, os próprios laboratórios estão priorizando vender para os governos. Quem é esse investidor intermediando? A conta não fecha.</p>
<p><strong>Contradições, Parte 1:</strong> Logo após a notícia repercutir, a AstraZeneca negou que na etapa atual de produção e distribuição de vacinas ela esteja negociando com qualquer agente privado. A informação contradiz a carta oficial do governo que dizia que o setor privado estaria comprando da AstraZeneca. E contradiz <em>também</em> a informação dada por alguém do setor privado brasileiro envolvido nessas negociações que disse existir algum investidor (quem?) que teria direito de comprar essas doses da AstraZeneca. Se não é a AstraZeneca e nem um investidor privado vendendo, então quem está vendendo 33 milhões de doses por US$23,79 cada?</p>
<p><strong>Contradições, Parte 2:</strong> Não só a AstraZeneca negou que esteja vendendo para <em>qualquer</em> agente privado nessa etapa da vacinação, como <a href="https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,astrazeneca-afirma-que-nao-vai-vender-vacinas-para-o-setor-privado,70003594517">o fundo BlackRock também negou</a> que teria acesso a esse direito de comprar 33 milhões de doses da vacina. Apesar disso, o grupo de empresários Coalizão da Indústria diz que as negociações pelo lote de doses da AstraZeneca <a href="https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,astrazeneca-afirma-que-nao-vai-vender-vacinas-para-o-setor-privado,70003594517">ainda estão de pé</a>. O Ministério da Saúde ainda não se pronunciou sobre o caso, mas o presidente e a equipe econômica já se mostraram entusiastas da aquisição pelo setor privado. Com quem o setor privado brasileiro está negociando, se o laboratório e o fundo BlackRock negam que existe essa possibilidade?</p>
<p><strong>Resumo:</strong> Com base nas informações disponíveis, o setor privado brasileiro estaria disposto a pagar um preço desproporcional por muito mais doses de vacinas do que ele precisa. As doses não seriam compradas nem do laboratório fornecedor, nem do fundo de investimento que o governo comunicou oficialmente dando o aval de compra. As doses seriam compradas de um vendedor anônimo e desconhecido, não informado nem pelas empresas nem pelo laboratório, governo ou fundo, mas esse anônimo teria acesso a 33 milhões de doses de vacinas a pronta entrega, antes de países inteiros incluindo a União Europeia. Mas, ao invés de vender para países ricos ou empresas de países ricos, apareceu no Brasil para vender para nossas empresas. Oi? Que?</p>
<p>Pois é. A conta não fecha.</p>
<p>Diante do Contexto e das informações sobre essa “compra privada”, vamos para as perguntas que precisam ser explicadas <em>urgentemente</em>.</p>
<hr>
</section>
<section id="perguntas-e-informações-faltando-sobre-a-compra-de-vacinas" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="perguntas-e-informações-faltando-sobre-a-compra-de-vacinas"><strong>Perguntas e informações faltando sobre a compra de vacinas</strong></h2>
<ol type="1">
<li>De onde viriam as 33 milhões de doses de vacinas da AstraZeneca? Se não viriam do lote do governo brasileiro, que outro comprador estaria ficando para trás na fila para facilitar esse acesso?</li>
<li>Se nem a AstraZeneca nem o fundo BlackRock estão vendendo essas doses de vacinas, quem é o vendedor que estaria recebendo US$23,79 por dose de vacina ao invés dos 3-5 dólares usuais dessa vacina?</li>
<li>Quem é o investidor anônimo que teria atuado nessas negociações?</li>
</ol>
<p>Enquanto não temos as respostas para essas perguntas, levanto aqui a hipótese de como fazer essa história fechar. A Pedalada das Vacinas: o vendedor dessas doses ao setor privado é o próprio governo brasileiro.</p>
<hr>
</section>
<section id="a-pedalada-das-vacinas" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="a-pedalada-das-vacinas"><strong>A Pedalada das Vacinas</strong></h2>
<p>Considerando que:</p>
<ol type="1">
<li>Que há falta geral de vacinas e os lotes de produção desse ano da AstraZeneca e outros laboratórios já estão vendidos;</li>
<li>Que países muito mais ricos que nós não estão conseguindo disponibilizar essas doses na velocidade que pagaram para receber;</li>
<li>Que tanto o laboratório AstraZeneca quanto o fundo BlackRock negam qualquer envolvimento com a venda de 33 milhões de doses ao setor privado brasileiro;</li>
</ol>
<p>Nós precisamos avaliar quais são as chances de um outro investidor privado e anônimo desconhecido ter acesso a 33 milhões de doses antes de países inteiros, vir parar no Brasil triangulando uma transação entre o governo brasileiro e um punhado de empresas nacionais, ao invés de negociar essas doses com outro país mais rico ou grupo de empresas com mais recursos. E esse investidor anônimo precisaria estar disposto a causar uma série de problemas diplomáticos e de relações públicas com a AstraZeneca devido ao fato de estar furando uma fila internacional por vacinas vendendo para o Brasil.</p>
<p>Parece convincente? Também não acho.</p>
<p>A hipótese alternativa que consigo levantar com base nessas informações disponíveis é a da Pedalada das Vacinas. Na verdade o investidor anônimo com direito de comprar 33 milhões de doses seria <strong><em>o próprio governo brasileiro</em></strong>. O governo já tem acordo com a AstraZeneca para comprar 100 milhões de doses, então isso está dentro dos números que um país e governo grande o nosso consegue de fato obter. O governo venderia o direito dele de adquirir 16,5 milhões ou 33 milhões de doses para o setor privado, que receberia <strong><em>doses desviadas desse lote destinado originalmente ao Brasil</em></strong>. Quem embolsaria os US$24,79 nessa transação não está claro. Ficaria para o governo? Há outros intermediários? Considerando que sobrariam doses após imunizar os funcionários das empresas, haveria expectativa de ganho em cima de doses excedentes ou de preços cobrados? Não sabemos. Alguém precisa perguntar e investigar. Enquanto isso ocorre nos fundos, no discurso para o público o governo diria que é o setor privado que trouxe essas vacinas e está doando metade. Mas na prática seriam vacinas do governo desviadas do PNI para serem vendidas ao setor privado. É a Pedalada das Vacinas.</p>
<p>Por que considero pelo menos plausível a Pedalada das Vacinas? Porque ela faz encaixar algumas das peças soltas dessa história tão estranha:</p>
<ol type="1">
<li>Por que a AstraZeneca e o fundo BlackRock não foram avisados antes, apenas receberam a carta sem assinar e negaram envolvimento assim que o fato veio à público? <strong>R:</strong> Porque o governo pode ter imaginado que ao dar o aval para o setor privado comprar <em>doses do próprio governo</em> não haveria motivo para recusa.
<ul>
<li>No entanto, a recusa era óbvia diante do contexto internacional de tensa diplomacia das vacinas. Se o laboratório liberasse para o setor privado brasileiro comprar, teria que liberar para o setor privado de outros países comprar também - o que geraria inúmeras tensões com governos que já pagaram e aguardam lotes, além do que com certeza conseguiriam vender por um valor mais alto que esse para países mais ricos e empresas maiores.</li>
<li>O governo pode simplesmente não ter considerado isso. Estaria longe de ser a primeira vez que há demonstração cabal de incompetência do governo federal na negociação de vacinas e também nas relações exteriores.</li>
</ul></li>
<li>Por que as negociações para compra de 33 milhões de doses continuam mesmo com o laboratório e o fundo acionista não estarem vendendo? <strong>R:</strong> Porque o vendedor do direito de compra de doses é o próprio governo, o único que assinou a carta dando o aval de compra.</li>
<li>Por que não sabemos qual seria a origem desse lote imenso de vacinas que o setor privado receberia? <strong>R:</strong> Porque a origem do lote é parte do direito de compra de 100 milhões de doses do próprio governo brasileiro.</li>
<li>Por que o valor de cada dose é tão mais alto no comparativo internacional? Porque o cálculo não estaria passando por nenhum comparativo internacional, mas apenas uma avaliação do próprio governo brasileiro do quanto pode cobrar e quanto as empresas interessadas estão dispostas a pagar por dose.</li>
<li>Seriam informações falsas: a pronta entrega em 10 dias (totalmente impossível), o lote ser distinto do negociado pelo governo, não existe o investidor internacional anônimo.</li>
<li>Ainda ficaria faltando explicar:
<ol type="1">
<li>Quem exatamente receberia os US$23,79 e como seria pago;</li>
<li>O que aconteceria com as doses excedentes após a imunização dos funcionários das empresas;</li>
</ol></li>
</ol>
<hr>
</section>
<section id="o-que-o-governo-teria-a-ganhar-com-a-pedalada-das-vacinas" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="o-que-o-governo-teria-a-ganhar-com-a-pedalada-das-vacinas"><strong>O que o governo teria a ganhar com a Pedalada das Vacinas?</strong></h2>
<p>Com números do mundo real em uma <a href="https://twitter.com/ThomasVConti/status/1353942455872352256">avaliação econômica séria</a>, nada. Porém, o governo já demonstrou que no tema vacinas ele não é muito bom de conta. Afinal, recusou o acordo com a Pfizer e não buscou trazer doses por outras vias no Brasil. Em uma visão míope de que vacinas são caras e/ou desnecessárias ou que não trazem retorno grande ao país, nessa transação com o setor privado o governo estaria economizando dinheiro da aquisição de vacinas. É um alívio ínfimo e temporário de um gasto pequeno. Não podemos descartar a possibilidade de que parte desse volume imenso de recursos “vazaria” para terceiros no caminho, claro.</p>
<p>Tenho mais uma evidência que o governo pode ser ruim de conta a esse ponto. Quando o presidente propagandeia que estaria “trazendo vacinas a custo zero” nessa transação, ele está ignorando o custo de oportunidade existente para o Brasil quando um trabalhador jovem de 25 anos com baixa exposição é vacinado antes de um idoso de 65 anos com alto risco de internação hospitalar e óbito de covid. Renunciar a cobertura mais rápida possível dos grupos prioritários tem um custo de oportunidade muito mais alto do que 5 ou 25 dólares que custa uma vacina (<a href="https://twitter.com/ThomasVConti/status/1353942455872352256">expliquei essa conta em outro texto</a>). Mas como o governo não parece reconhecer essa realidade, pode ser que esteja considerando a troca da saúde da população e abrir mão de diminuir gastos hospitalares por alguns trocos de padaria em cada vacina como algo vantajoso para ele ou para o país.</p>
<p>Em resumo, o que pode ser a Pedalada das Vacinas? É ou foi a tentativa do governo de vender direitos de compra de doses da vacina AstraZeneca que pertenciam ao PNI para um grupo pequeno de empresas do setor privado, a um preço muito mais alto do que o próprio governo pagou. Quem embolsaria essa diferença de preço, não sabemos. O governo economizaria alguns trocados e anunciaria que as doses não rivalizam com o PNI, quando na verdade são as doses dele próprio. Um punhado de grandes empresas podem retomar suas atividades mais rápido, mas enquanto o estagiário é imunizado o avô de alguém estará na UTI tentando não sufocar - porque essas doses foram desviadas de onde eram para chegar primeiro. O que aconteceria com as doses excedentes e quem ganharia com isso, não sabemos.</p>
<p>Levanto essa hipótese para tentar envolver a imprensa e os parlamentares na investigação das minúcias desse acordo muito estranho e mal explicado, que tem assinatura de vários Ministros e aval presidencial. O laboratório e o fundo não vendem, mas o setor privado ainda está negociando. Com quem? Peço, por favor, que alguém investigue e não deixem esse assunto passar batido. Mesmo se nenhum acordo do tipo foi firmado, pode ter ocorrido uma organização explícita nesse sentido o que já seria um gravíssimo atentado contra a saúde pública nacional. Alguém ajude a investigar, por favor.</p>
<hr>
</section>
<section id="explicações-adicionais---venda-de-vacinas-versus-venda-de-direito-de-comprar-vacinas" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="explicações-adicionais---venda-de-vacinas-versus-venda-de-direito-de-comprar-vacinas"><strong>Explicações adicionais - venda de vacinas versus venda de direito de comprar vacinas</strong></h2>
<p>Há uma diferença entre <em>vender as vacinas</em> e vender <em>direitos de comprar vacinas</em>. Para vender a vacina, é preciso tê-la em mãos e ter a propriedade do bem. Assim, por exemplo, o laboratório AstraZeneca vende vacinas. No entanto, nos vários acordos firmados com governos do mundo todo ao longo de 2020, cada governo adquiriu um <em>direito de comprar</em> determinado conjunto de doses a um preço pré-estabelecido quando elas estiverem disponíveis. Alguns governos pagaram parte adiantado, outros não.</p>
<p>Assim, o Brasil tem um acordo para compra de 100 milhões de doses de vacinas da AstraZeneca. A carta dando “aval de compra” para o setor privado poderia ser uma <em>venda de direitos de comprar vacinas</em>. Isso explicaria por que o governo brasileiro assina a carta sozinho, sem consultar o próprio laboratório. <em>As vacinas</em> são do laboratório, mas o <em>direito de comprar vacinas</em> seria do governo brasileiro devido ao acordo firmado com a AstraZeneca ano passado. Assim, é possível que o governo brasileiro tenha entendido que não precisava da concordância do laboratório para negociar esse direito de compra. Uma trapalhada, sem dúvida. Mas é <em>plausível</em>. A gravidade desse ato é tão grande que a mera plausibilidade de ter de fato ocorrido a meu ver já justificaria a abertura de uma CPI para averiguar o que ocorreu. Mas esta é só minha opinião pessoal. Espero que jornalistas investigativos e parlamentares busquem esclarecer</p>


</section>

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  <category>Opinião</category>
  <guid>https://thomasvconti.com.br/2021/governo-deu-pedalada-das-vacinas/</guid>
  <pubDate>Wed, 27 Jan 2021 03:00:00 GMT</pubDate>
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</item>
<item>
  <title>Direito e Economia da responsabilização por vacinas</title>
  <link>https://thomasvconti.com.br/2021/direito-e-economia-da-responsabilizacao-por-vacinas/</link>
  <description><![CDATA[ 




<p>O início das campanhas de vacinação em massa contra o COVID-19 é o tema do momento no Brasil e no mundo. A excelente notícia bem-vinda da segurança e eficácia das vacinas da Pfizer e Moderna aprovadas por órgãos regulatórios competentes no Reino Unido, Estados Unidos, Canadá e Suíça ajudam a olharmos para 2021 com mais otimismo.</p>
<p>No entanto, como tudo que é muito novo, também suscita medos, dúvidas e informações desencontradas. Um desses medos que têm repercutido em redes sociais e grupos é a dita cláusula que exime as farmacêuticas produtoras de vacinas de responsabilização por danos da vacina contra o Covid-19. Porém, o que a maioria das pessoas não sabe é que essa não é uma cláusula nova. Pelo contrário, é uma cláusula padrão para vacinas nos países desenvolvidos.</p>
<p>À primeira vista parece algo contraintuitivo ou até absurdo, porém há boas razões para ela existir. Meu objetivo neste texto é explicar as razões para essa cláusula. Para isso precisaremos de um pouco de direito, economia, estatística e também de história.</p>
<p><strong>Breve histórico</strong></p>
<p>A responsabilidade limitada de fabricantes de vacinas diante de litígios alegando efeito adverso grave decorrente da aplicação não veio com o novo coronavírus. Pelo contrário, o marco histórico desse regime de responsabilização é bastante antigo. Data do ano de 1986, quando foi assinado nos Estados Unidos o <em>National Childhood Vaccine Injury Act</em> (doravante referenciado apenas como <em>VICP</em>). O objetivo principal do ato era dar estabilidade ao fornecimento de vacinas nos Estados Unidos e para isso a responsabilidade limitada foi determinante. Vamos entender melhor isso com a história das vacinas e das pesquisas sobre seus efeitos. Alguns fundamentos de Análise Econômica do Direito também facilitam bastante.</p>
<p>O VICP buscava responder problemas que ocorreram ao longo da década de 1970 e início dos anos 80 nos Estados Unidos, em torno principalmente da vacina DTP (contra difteria, tétano e coqueluche). Rumores da época colocavam suspeitas sobre a segurança dessa vacina, alegando que ela poderia causar danos cerebrais permanentes tal como a própria coqueluche pode causar em casos raros (encefalopatia de coqueluche). Esses rumores fomentaram anedotas e com elas vieram medos exagerados e injustificados em parte da população.</p>
<p>Com o passar dos anos, tomou forma um movimento organizado “Anti-DPT”.[1] O receio disseminado aumentou a chance de que diante de qualquer problema identificado em dias próximos de quando uma criança recebia a vacina DPT, a família entrasse com um processo na justiça contra a fornecedora – mesmo se o problema não tivesse qualquer relação com a vacina.</p>
<p>Como milhões de pessoas tomam vacinas anualmente, qualquer pequena probabilidade de se entrar com um processo leva imediatamente a milhares de casos entrando na justiça. O sistema era ineficiente para todos os envolvidos: produtores de vacinas, famílias reclamantes, o judiciário e o governo como um todo.</p>
<p>Da parte das famílias que dentro de um grupo minoritário e extremamente raro em que a demanda era legítima, o sistema não era eficiente. Para responsabilizar a empresa pelos danos, precisavam demonstrar a existência de uma relação de causa e efeito entre a vacina e quaisquer problemas que originaram a entrada na justiça. O que era muito difícil, pois em geral os componentes da vacina eram conhecidos, testados, seguros, utilizados em baixas quantidades e não duravam muito tempo no organismo. Sem evidências de erro de fabricação ou contaminação, demonstrar diante de uma corte judicial que algum problema grave observado de fato tinha associação com a vacina era por vezes mais um ato de retórica e compaixão do que de medicina.</p>
<p>Como explica um boletim da Organização Mundial de Saúde sobre o tema:</p>
<blockquote class="blockquote">
<p><em>“[quando] a única fonte de compensação é pelas cortes… exige-se usualmente que o reclamante prove que ele sofreu um dano devido à negligência ou dano deliberado de outra pessoa. O problema desse processo, no caso da vacinação, é que na grande maioria das vezes nenhuma das partes foi negligente – a produção de vacinas é altamente regulada e supervisionada para evitar erros industriais e contaminações. Uma abordagem baseada nas cortes para obter compensações pode ser desigual e imprevisível, resultando em grandes somas de dinheiro para alguns, enquanto outros que buscam recursos legais não recebem nada.”<strong>[2]</strong></em></p>
</blockquote>
<p>Da parte das empresas, o custo judicial de responder a tantos processos simultâneos cada um envolvendo uma demanda mais inusitada que a outra tornou-se uma imensa dor de cabeça. Mesmo se o objeto do litígio fosse infundado, havia o risco jurídico de que eventualmente uma causa infundada ganhasse. Com o potencial de se gerar precedentes, outras milhares de pessoas que não tiveram qualquer problema relacionado à vacina poderiam pegar carona (<em>free-riders</em>) entrando na justiça exigindo reparações por riscos que não correram.</p>
<p>Da parte do judiciário, havia uma imensa dificuldade de se julgar esses casos relacionados com vacinas. O conhecimento médico e farmacológico apontava na direção que as vacinas DPT eram seguras e inspeções nas unidades produtivas mostravam que elas eram produzidas dentro das normas sanitárias (hoje e desde os anos 90 já se sabe que não havia nenhum problema nas vacinas DPT).[3] No entanto, na época a coincidência temporal entre alguns casos de administração da vacina e algum outro problema dificultava desmerecer os casos – mesmo que fora das cortes milhões não tiveram problema algum. A falta de conhecimento especializado também era um empecilho e a diversidade de associações entre as vacinas e praticamente qualquer coisa aumentava as chances de casos únicos.</p>
<p>Como consequência desse sistema mal desenhado, farmacêuticas que produziam a vacina DPT de fato migraram para outros medicamentos ou para outras vacinas. Investimentos para pesquisar novas vacinas também caíram. Ano a ano o número de empresas produzindo a vacina DPT nos Estados Unidos diminuía, ao ponto de que em 1985 restava apenas uma única empresa produzindo a vacina contra coqueluche, que entrou em falta.[4] Como consequência, os preços subiram muito, as filas aumentaram e passou a não haver vacina suficiente para o calendário de vacinação das crianças. Sem a vacina, a vida de milhares de crianças – e adultos – ficaria em risco.</p>
<p>Foi nesse contexto que em 1986 o Congresso dos Estados Unidos promulgou o <em>National Childhood Vaccine Injury Act</em> (VICP). Para entender como o VICP melhorou o sistema antigo, precisamos de um pouco de Análise Econômica do Direito.</p>
<p><strong>Direito, Economia e Estatística</strong></p>
<p>O VICP trouxe uma mudança na atribuição de direitos e responsabilidades por efeitos adversos raros de vacinas, e também uma mudança na forma com que pessoas e famílias que se considerassem lesadas por uma vacina poderiam reivindicar reparações. Com o novo sistema, cada uma das partes envolvidas poderia se ver em uma situação melhor que no sistema anterior.</p>
<p>Ao invés do reclamante entrar com um processo contra a empresa produtora, a ação era movida para o novo <em>National Vaccine Injury Compensation Trust Fund</em> (Fundo Nacional de Compensação por Danos de Vacinação). O fundo é gerido por órgãos de saúde e do judiciário dos Estados Unidos e financiado por um imposto de baixo valor que incide sobre todas as vacinas em circulação no país. Ele se responsabiliza por analisar as demandas de indivíduos e famílias e, caso caiba reparação, o pagamento é feito pelo fundo comum.</p>
<p>Para o judiciário, o sistema é mais eficiente pois centraliza o conhecimento especializado necessário para lidar com as alegações médicas envolvidas. As ações são respondidas mais rápido e a não-participação das empresas facilita o julgamento do mérito de cada uma delas.</p>
<p>Para as famílias, o sistema também trouxe benefícios. Ao invés de processos longos, custosos e incertos contra algum grande grupo empresarial, pelo novo sistema foram estabelecidas uma série de rotinas e procedimentos-padrão para avaliar o mérito dos casos. O sistema é leniente, admitindo reparações até por alguns problemas raros que cientificamente não tem qualquer relação com as vacinas.[5] Porém, as exigências mínimas de que a pessoa esteja sofrendo de determinado problema já são suficientes para dissuadir a vasta maioria dos litigantes de má fé que pegavam carona nos casos judiciais pelo sistema anterior.</p>
<p>Os números mostram isso. Esse arranjo jurídico está em vigor nos Estados Unidos há 32 anos. Mesmo admitindo algumas reparações por casos raros sem relação de causa e efeito com as vacinas, entre 2006 e 2018 foram apenas 7.565 indenizações – um número irrisório diante das 3.761.744.351 (3,7 bilhões) doses de vacinas administradas nos Estados Unidos no mesmo período.[6]</p>
<p>A relação risco-benefício é o critério decisivo de aprovação regulatório de qualquer fármaco (não só vacinas). Pelo lado do risco, as vacinas tiveram em média nos Estados Unidos 1 indenização a cada 500.000 doses administradas. Esse risco é muitas ordens de magnitude menor do que basicamente qualquer outro tipo de remédio aprovado e disponível no mercado. Já em termos de benefícios, a eficácia protetiva e redução da gravidade das doenças pelas vacinas costumam superar os de outros fármacos.</p>
<p>Não é esperado que nenhum fármaco tenha risco zero – basta ler lista de reações adversas na bula de qualquer remédio de balcão das farmácias. O médico brasileiro e doutorando em neurociência clínica em Oxford, Ricardo Parolin, listou recentemente bulas de remédios da moda na pandemia falsamente divulgados como se não tivessem efeitos colaterais ou restrições.[7] Em bulas, para um evento adverso ser considerado muito raro, basta ocorrer 1 evento adverso a cada 10.000 usos. Uma proporção que é claramente baixa, porém é até comum se comparada com a verificada em vacinas.</p>
<p>Se por um lado já vimos que do ponto de vista regulatório não há interesse em deixar a oferta de vacinas ser destruída por risco jurídico injustificado, o mesmo vale para o cidadão e o consumidor final, que com o uso das vacinas tem um risco menor e benefício muito maior do que outros fármacos que já consome usualmente.</p>
<p>Por fim, para as empresas produtoras de vacinas, na prática o fundo passou a atuar de forma análoga a um sistema de seguro obrigatório e ilimitado (<em>No-Fault Insurance</em>). O imposto sobre todas as vacinas aumentava o preço das vacinas, mas retirava o risco jurídico da litigância de má-fé e os custos elevados de se responder processos judiciais sem cabimento. Trouxe segurança jurídica para a atuação no setor. Com a segurança jurídica de volta, os investimentos e pesquisas sobre vacinas voltaram, a oferta de vacinas aumentou e o equilíbrio de longo prazo do mercado foi normalizado em poucos anos.</p>
<p>Infelizmente, a litigância exagerada e de má-fé no tema de vacinas é um risco esperado da aplicação de qualquer vacina ou qualquer fármaco que fosse utilizado na mesma escala que elas – mesmo se forem perfeitamente seguros. É esperado por mero efeito estatístico.</p>
<p>A título de exemplo, uso os números das campanhas anuais de vacinação contra a gripe no Brasil. Em um ano normal, por volta de 60 milhões de brasileiros são vacinados contra a gripe entre os meses de março e maio. Durante três meses entre as 8 da manhã e 18 horas da tarde, são em média 65 mil vacinas contra a gripe sendo aplicadas a cada hora do dia. Com números tão grandes assim, por puro acaso é inevitável que <em>alguma</em> dessas pessoas vacinadas terá um problema inusitado pouco depois de se vacinar. Cada um desses acasos é um potencial novo caso judicial.</p>
<p>Um fator mediador entre esse acaso e a judicialização são as normas sociais e a confiança social. Na presença de confiança social e normas sociais que reforçam a importância e segurança das vacinas tal como as pesquisas científicas demonstram, a litigiosidade pelo acaso dos grandes números é freada.[8] Mas se houver desconfiança ou mesmo campanhas anti-vacinação influentes tal como as campanhas anti-DFT que ocorreram nos anos 70-80 nos Estados Unidos, a matéria bruta para gerar anedotas e casos judiciais vazios, porém custosos, estará amplamente disponível.</p>
<p>Como esses efeitos estatísticos são esperados e já se sabe há décadas das ineficiências da via judicial para obter reparações por efeitos adversos de vacinas, muitos países mudaram para o sistema de compensação similar ao que descrevi aqui para os Estados Unidos. Alguns deles inclusive são muito anteriores, como Alemanha (1961), França (1963), Japão (1970) e Áustria (1973). Até 2018, a Organização Mundial de Saúde identificou que 25 países já adotam o sistema de compensação por danos sem responsabilização, [9] sendo quase todos eles (23) países ricos e desenvolvidos.[10] Não identificaram nenhum país da África, América Latina e Oriente Médio que adotassem esse regime regulatório.</p>
<p>O que nos leva aos problemas atuais na discussão das vacinas contra o Sars-Cov-2, o novo coronavírus.</p>
<p><strong>Responsabilização e as vacinas contra o Covid-19 no Brasil</strong></p>
<p>Diante de todo o contexto exposto acima, espero que o leitor consiga situar melhor as razões históricas e precedentes internacionais mais amplos da responsabilização por efeitos adversos raros de vacinas.</p>
<p>À luz desse quadro, fica mais fácil entender, por exemplo, por que a Ministra dos Serviços Públicos e Aquisições do Canadá, Anita Anand, ao ser questionada sobre as produtoras de vacinas estarem buscando um contrato de não-responsabilização no Canadá, respondeu com tranquilidade que “Essas cláusulas são padrão em contratos de vacinas… e sim, [farão parte dos contratos] no Canadá, não somos diferentes de nenhum outro país do mundo.”[11]</p>
<p>No entanto, nem todos os países têm a mesma tranquilidade e conhecimento do problema de fundo. O Brasil infelizmente está nesse outro grupo. Junto com os demais países da América Latina, África e Oriente Médio, ainda tratamos a atribuição de responsabilidade e indenizações por efeitos adversos muito raros de vacinas pelo sistema antigo, individualizado, lento e desigual que países desenvolvidos abandonaram há décadas.</p>
<p>Provavelmente, a adesão forte que o país criou em torno das campanhas de vacinação e confiança nas vacinas ajudaram a fazer com que o problema jurídico não transbordasse nas mesmas consequências indesejadas de falta de oferta de vacinas. Como os problemas de fundo são os mesmos, nada garante que se essa confiança for minada[12] as coisas continuarão caminhando sem maiores consequências.</p>
<p>Distante das melhores práticas internacionais, no Brasil a sugestão de laboratórios farmacêuticos de que o governo deveria criar um fundo para pagar indenizações decorrentes de reações adversas muito raras foi mal-recebida pela população leiga. Evidente que o governo deveria ter cumprido seu papel de informar adequadamente a população sobre a forma padrão de se lidar com essas cláusulas, como fizeram governos de países desenvolvidos.</p>
<p>Porém, ainda mais preocupante, membros do próprio governo federal parecem desconhecer essas cláusulas e os problemas subjacentes que elas buscam evitar.[13] Prato cheio para o irresponsável e inconsequente movimento anti-vacinação, não surpreendendo a queda acentuada na propensão voluntária a se vacinar que pesquisas de opinião têm apontado.</p>
<p>Entendo que a inadequação regulatória e falta de tratamento mais moderno do tema no Brasil nos coloca diante de pelo menos quatro riscos significativos e graves, do mais urgente ao mais de médio-prazo:</p>
<p>(1) Possíveis dificuldades adicionais de firmar acordos com alguns laboratórios fornecedores de vacinas contra o coronavírus;</p>
<p>(2) Queda na confiança nas vacinas contra o coronavírus devido à falsa associação entre a cláusula contratual e a segurança efetiva das vacinas, levando à cobertura vacinal deficiente;</p>
<p>(3) Judicialização excessiva de casos aleatórios incontroláveis, podendo levar aos mesmos problemas que ocorreram nos Estados Unidos nos anos 80 de falta de laboratórios ofertando a vacina;</p>
<p>(4) Transbordamento da desconfiança e judicialização das vacinas contra o coronavírus para vacinas tradicionais usadas contra outras doenças e que previamente não sofriam muito com esses problemas jurídicos, agravando o quadro atual gravíssimo de queda de cobertura vacinal contra outras doenças.[14]</p>
<p><strong>Considerações Finais</strong></p>
<p>A pandemia do novo coronavírus encontrou o Brasil em posição frágil, historicamente atrasada, no tratamento da responsabilização e indenizações no tema das vacinas. Não temos um fundo de indenização constituído, nem regime especializado para responder a essas demandas.</p>
<p>Garantir a existência de ampla oferta de vacinas seguras, o tratamento célere, equânime e técnico dos raríssimos casos de alegação de efeitos adversos, enquanto mantém elevada a confiança da população nas vacinas em geral e nas capacidades dos órgãos fiscalizadores é um grande desafio que exigiria resposta rápida e inteligente dos três poderes. Essa resposta precisaria ainda ser acompanhada de boa comunicação, transparente e informativa, voltada para criar e manter a confiança social.[15] Não vejo uma resposta sendo organizada, nem na velocidade nem na qualidade necessárias. Fica no ar a incerteza do que nos aguarda nas negociações de vacinas e quão capaz será nosso programa de vacinação em 2021.</p>
<p>Espero que este texto seja de alguma ajuda para o público leigo ter menos receios quanto a eventuais cláusulas de responsabilização e a criação de um fundo de indenizações, e quem sabe ajude lideranças responsáveis a tomarem medidas cabíveis.</p>
<p><strong>Citações:</strong></p>
<p>[1] PARK, Jinae, <strong>Anatomy of a Public Health Scare: Fear and Accountability in the Creation of Vaccine Courts</strong>, Senior Thesis, Barnard College Department of History, Columbia University, New York, NY, 2020.</p>
<p>[2] LOOKER, Clare; KELLY, Heath, <strong>No-fault compensation following adverse events attributed to vaccination: a review of international programmes</strong>, Genebra, Switzerland: World Health Organization, 2011.</p>
<p>[3] JEFFERSON, Tom; RUDIN, Melanie; DIPIETRANTONJ, Carlo, Systematic review of the effects of pertussis vaccines in children, <strong>Vaccine</strong>, v. 21, n.&nbsp;17, p.&nbsp;2003–2014, 2003.</p>
<p>[4] CDC, <strong>Diphtheria-Tetanus-Pertussis Vaccine Shortage – United States</strong>, Centers for Disease Control and Prevention, disponível em: &lt;https://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/00000452.htm&gt;, acesso em: 25 dez. 2020.</p>
<p>[5] CDC, National Childhood Vaccine Injury Act: Vaccine Injury Table, 2017.</p>
<p>[6] HRSA, <strong>Vaccine Injury Compensation Data</strong>, Official web site of the U.S. Health Resources &amp; Services Administration, disponível em: &lt;https://www.hrsa.gov/vaccine-compensation/data/index.html&gt;, acesso em: 30 dez. 2020.</p>
<p>[7] SCHNEKENBERG, Ricardo Parolin, <strong>Vários comentários questionando as vacinas de COVID pq as bulas citam que efeitos são incertos para gestantes. Deixa eu lhes mostrar a bula de alguns medicamentos comumente utilizados</strong>, Twitter @parolin_ricardo, disponível em: &lt;https://twitter.com/parolin_ricardo/status/1345861728156971008&gt;, acesso em: 4 jan. 2021.</p>
<p>[8] BRANSWELL, Helen, Incidental illnesses threaten to give Covid-19 vaccines a bad rap.</p>
<p>[9] LOOKER; KELLY, <strong>WHO | No-fault compensation following adverse events attributed to vaccination</strong>.</p>
<p>[10] As exceções são o Nepal e o Vietnã. Ver HALABI, Sam; HEINRICH, Andrew; OMER, Saad B., No-Fault Compensation for Vaccine Injury — The Other Side of Equitable Access to Covid-19 Vaccines, <strong>New England Journal of Medicine</strong>, v. 383, n.&nbsp;23, p.&nbsp;e125, 2020.</p>
<p>[11] O fundo de compensação e a cláusula relacionada a eventos raros existem no Canadá desde 1985. GILMORE, Rachel, <strong>Coronavirus vaccine makers are shielded from liability. Here’s why officials say that’s normal</strong>, Global News Canada, disponível em: &lt;https://globalnews.ca/news/7521148/coronavirus-vaccine-safety-liability-government-anand-pfizer/&gt;, acesso em: 16 dez. 2020.</p>
<p>[12] BARBOSA, Rafael, <strong>Rejeição à vacina contra covid-19 cresce de 19% para 28% em um mês, mostra PoderData</strong>, Poder360, disponível em: &lt;https://www.poder360.com.br/poderdata/rejeicao-a-vacina-contra-covid-vai-de-19-para-28-em-1-mes-mostra-poderdata/&gt;, acesso em: 27 dez. 2020, p.&nbsp;360.</p>
<p>[13] GADELHA, Igor, <strong>Farmacêuticas sugerem ao governo fundo para bancar ações judiciais contra vacina</strong>, CNN Brasil, disponível em: &lt;https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2020/12/16/farmaceuticas-sugerem-ao-governo-fundo-para-bancar-acoes-judiciais-contra-vacina&gt;, acesso em: 18 dez. 2020; ADORNO, Luís, <strong>Para juristas, termo de responsabilidade para tomar vacina é contra lei</strong>, UOL, disponível em: &lt;https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/12/16/termo-vacina-coronavirus-bolsonaro.htm&gt;, acesso em: 27 dez. 2020.</p>
<p>[14] LISBOA, Vinícius, <strong>Em queda há 5 anos, coberturas vacinais preocupam Ministério da Saúde</strong>, Agência Brasil, disponível em: &lt;https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-10/em-queda-ha-5-anos-coberturas-vacinais-preocupam-ministerio-da-saude&gt;, acesso em: 23 dez. 2020.</p>
<p>[15] A OMS disponibilizou desde outubro um guia de boas práticas baseadas nas ciências comportamentais para auxiliar governos nessa tarefa. Ver WHO, <strong>Behavioural considerations for acceptance and uptake of COVID-19 vaccines: WHO technical advisory group on behavioural insights and sciences for health</strong>, Geneva, Switzerland: World Health Organization, 2020; Um texto excelente sobre o mesmo problema, mas mais curto e didático, pode ser encontrado em LAXMINARAYAN, Ramanan; FITZPATRICK, Susan; LEVIN, &amp; Simon, <strong>How to Build Trust in Covid-19 Vaccines</strong>, Nautilus, disponível em: &lt;http://nautil.us/issue/93/forerunners/how-to-build-trust-in-covid_19-vaccines&gt;, acesso em: 22 dez. 2020.</p>
<p><strong>Referências</strong></p>
<p>ADORNO, Luís. <strong>Para juristas, termo de responsabilidade para tomar vacina é contra lei</strong>. UOL. Disponível em: &lt;https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2020/12/16/termo-vacina-coronavirus-bolsonaro.htm&gt;. Acesso em: 27 dez. 2020.</p>
<p>BARBOSA, Rafael. <strong>Rejeição à vacina contra covid-19 cresce de 19% para 28% em um mês, mostra PoderData</strong>. Poder360. Disponível em: &lt;https://www.poder360.com.br/poderdata/rejeicao-a-vacina-contra-covid-vai-de-19-para-28-em-1-mes-mostra-poderdata/&gt;. Acesso em: 27 dez. 2020.</p>
<p>BRANSWELL, Helen. Incidental illnesses threaten to give Covid-19 vaccines a bad rap. Disponível em: &lt;https://www.statnews.com/2020/12/28/chance-illnesses-after-covid-19-vaccinations-could-test-public-confidence-even-if-the-problems-are-unrelated/&gt;. Acesso em: 28 dez. 2020.</p>
<p>CDC. <strong>Diphtheria-Tetanus-Pertussis Vaccine Shortage – United States</strong>. Centers for Disease Control and Prevention. Disponível em: &lt;https://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/00000452.htm&gt;. Acesso em: 25 dez. 2020.</p>
<p>CDC. National Childhood Vaccine Injury Act: Vaccine Injury Table. 2017. Disponível em: &lt;https://www.cdc.gov/vaccines/pubs/pinkbook/downloads/appendices/d/injury-table.pdf&gt;. Acesso em: 20 dez. 2020.</p>
<p>GADELHA, Igor. <strong>Farmacêuticas sugerem ao governo fundo para bancar ações judiciais contra vacina</strong>. CNN Brasil. Disponível em: &lt;https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2020/12/16/farmaceuticas-sugerem-ao-governo-fundo-para-bancar-acoes-judiciais-contra-vacina&gt;. Acesso em: 18 dez. 2020.</p>
<p>GILMORE, Rachel. <strong>Coronavirus vaccine makers are shielded from liability. Here’s why officials say that’s normal</strong>. Global News Canada. Disponível em: &lt;https://globalnews.ca/news/7521148/coronavirus-vaccine-safety-liability-government-anand-pfizer/&gt;. Acesso em: 16 dez. 2020.</p>
<p>HALABI, Sam; HEINRICH, Andrew; OMER, Saad B. No-Fault Compensation for Vaccine Injury — The Other Side of Equitable Access to Covid-19 Vaccines. <strong>New England Journal of Medicine</strong>, v. 383, n.&nbsp;23, p.&nbsp;e125, 2020.</p>
<p>HRSA. <strong>Vaccine Injury Compensation Data</strong>. Official web site of the U.S. Health Resources &amp; Services Administration. Disponível em: &lt;https://www.hrsa.gov/vaccine-compensation/data/index.html&gt;. Acesso em: 30 dez. 2020.</p>
<p>JEFFERSON, Tom; RUDIN, Melanie; DIPIETRANTONJ, Carlo. Systematic review of the effects of pertussis vaccines in children. <strong>Vaccine</strong>, v. 21, n.&nbsp;17, p.&nbsp;2003–2014, 2003.</p>
<p>LAXMINARAYAN, Ramanan; FITZPATRICK, Susan; LEVIN, &amp; Simon. <strong>How to Build Trust in Covid-19 Vaccines</strong>. Nautilus. Disponível em: &lt;http://nautil.us/issue/93/forerunners/how-to-build-trust-in-covid_19-vaccines&gt;. Acesso em: 22 dez. 2020.</p>
<p>LISBOA, Vinícius. <strong>Em queda há 5 anos, coberturas vacinais preocupam Ministério da Saúde</strong>. Agência Brasil. Disponível em: &lt;https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2020-10/em-queda-ha-5-anos-coberturas-vacinais-preocupam-ministerio-da-saude&gt;. Acesso em: 23 dez. 2020.</p>
<p>LOOKER, Clare; KELLY, Heath. <strong>No-fault compensation following adverse events attributed to vaccination: a review of international programmes</strong>. Genebra, Switzerland: World Health Organization, 2011. Disponível em: &lt;https://www.who.int/bulletin/volumes/89/5/10-081901/en/&gt;. Acesso em: 30 dez. 2020.</p>
<p>PARK, Jinae. <strong>Anatomy of a Public Health Scare: Fear and Accountability in the Creation of Vaccine Courts</strong>. Senior Thesis, Barnard College Department of History, Columbia University, New York, NY, 2020. Disponível em: &lt;https://history.barnard.edu/sites/default/files/inline-files/Jinae%20Park_Final%20Senior%20Thesis.pdf&gt;.</p>
<p>SCHNEKENBERG, Ricardo Parolin. <strong>Vários comentários questionando as vacinas de COVID pq as bulas citam que efeitos são incertos para gestantes. Deixa eu lhes mostrar a bula de alguns medicamentos comumente utilizados</strong>. Twitter @parolin_ricardo. Disponível em: &lt;https://twitter.com/parolin_ricardo/status/1345861728156971008&gt;. Acesso em: 4 jan. 2021.</p>
<p>WHO. <strong>Behavioural considerations for acceptance and uptake of COVID-19 vaccines: WHO technical advisory group on behavioural insights and sciences for health</strong>. Geneva, Switzerland: World Health Organization, 2020.</p>



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  <category>Direito e Economia</category>
  <category>Economia</category>
  <category>História</category>
  <guid>https://thomasvconti.com.br/2021/direito-e-economia-da-responsabilizacao-por-vacinas/</guid>
  <pubDate>Sun, 10 Jan 2021 03:00:00 GMT</pubDate>
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  <title>‘Levando a sério’ o parágrafo único do art. 40 da Lei de Propriedade Industrial</title>
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  <description><![CDATA[ 




<section id="levando-a-sério-o-parágrafo-único-do-art.-40-da-lei-de-propriedade-industrial-e-a-divergência-a-respeito-dele" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="levando-a-sério-o-parágrafo-único-do-art.-40-da-lei-de-propriedade-industrial-e-a-divergência-a-respeito-dele"><strong>‘Levando a sério’ o parágrafo único do art. 40 da Lei de Propriedade Industrial e</strong> <strong>a divergência a respeito dele</strong></h2>
<hr>
<p>LUCIANO BENETTI TIMM – Doutor em Direito, professor da FGVSP, ex-presidente da Associação Brasileira de Direito e Economia.<br>
THOMAS CONTI – Professor de Economia do Insper. Mestre e doutor em Economia. Foi diretor da Associação Brasileira de Direito e Economia.</p>
<hr>
<p>Em recente artigo intitulado “Levando a sério a literatura: verdadeira Law and Economics do art. 40, da LPI”, os professores Mariana Pargendler e Carlos Portugal Gouvêa criticam artigo escrito por nós nesse mesmo espaço.</p>
<p>Embora o objetivo declarado dos autores seja o de “estabelecer um debate acadêmico”, valem-se de reconhecidas estratégias da boa e velha retórica jurídica para descontruir ou mesmo desacreditar uma “teoria rival” (ou mesmo seus defensores). Mas reconhecendo o conhecimento da matéria da professora Mariana Pargendler na área Análise Econômica do Direito (AED), entendemos que ela, seu coautor e os leitores mereceriam uma tréplica.</p>
<p>Nesse sentido, os ilustres articulistas assumem um tom professoral, como se corrigissem um TCC de aluno de graduação, pretendendo estabelecer “verdades” e “levar a sério” a ciência. Pois, a primeira coisa a ser feita para um debate acadêmico sadio, como propõem os autores, é “levar a sério” os interlocutores e a divergência.</p>
<p>A ciência tem verdades contingentes que não são “reveladas” por ninguém; são fruto da livre manifestação de pensamento em um “mercado de ideias”, como diria Posner em linguagem de AED.</p>
<p>Para começar, os articulistas deveriam começar lendo o que já escrevemos e publicamos academicamente em revista especializada sobre o tema.[1] Um debate acadêmico sério começaria por uma resposta em publicação acadêmica em periódico científico de mesmo prestígio.</p>
<p>A leitura do artigo corrigiria algumas inverdades atribuídas a nós. Pois nesse artigo, com ampla revisão bibliográfica, explicamos os fundamentos de AED da propriedade intelectual, inclusive, obviamente, seus limites (pois somos injustamente acusados de não conhecê-los ou escondê-los).</p>
<p>A forma utilizada no artigo também não passou despercebida. Revela sentimentos fortes em relação ao tema, algo absolutamente comum em debates sobre políticas públicas.</p>
<p>Como já explicamos em outra oportunidade aqui no JOTA[2], os vieses cognitivos encontráveis no nosso subsistema cerebral rápido ou 1: acabam condicionando a leitura de opiniões divergentes; e o tema das patentes é “campo minado”, pois é tomado pelas paixões de todos os lados. Mas nosso sistema lento ou 2: deve ajudar na correção desses vieses e conseguirmos ter um debate “verdadeiramente” racional dentro de premissas do “pragmatismo profundo” e não puramente retórico.</p>
<p>Dito isso, debate público em jornais, ainda que não seja ciência, tem seu valor e todos temos a ganhar ao nos expormos a argumentos mais rigorosos. Agradecemos, assim, a oportunidade que os articulistas nos deram.</p>
<p>Assim, vamos contextualizar o leitor sobre o que tratava o artigo original e o porquê o mesmo artigo ficou sem resposta na “resposta” dos ilustres professores. Com efeito, não houve uma única palavra sobre o ponto central acerca da ausência de argumentos de AED para decretação de inconstitucionalidade do parágrafo único do artigo 40 da LPI, que vige há mais de 20 anos.</p>
<p>Mas comecemos pelo que não tratamos no artigo original para evitar as paixões. Não tratamos de aspectos de justiça social, justiça distributiva da legislação em vigor. Também não focamos em problemas de um setor específico (como da indústria farmacêutica).</p>
<p>Muito menos negamos a possibilidade de que Lei de Propriedade Intelectual possa ser modificada pelo parlamento em razão de evidências científicas (inclusive as de AED), não se excluindo a possibilidade de eventual tratamento especial de algum setor econômico em razão dessas peculiaridades.</p>
<p>O que dissemos? Que não há bons argumentos de AED para decretação de inconstitucionalidade do parágrafo único do artigo 40 da LPI, que vige há mais de 20 anos. Entendemos que uma mudança das regras do jogo, na “canetada judicial”, pode ser prejudicial para vários setores de inovação e tecnologia.</p>
<p>Nessa esteira, é verdade que existem diferenças substantivas entre o método da análise econômica do direito e outras teorias jurídicas.</p>
<p>No entanto, um ponto certamente comum entre todas elas é que para analisar um instituto legal é necessário… partir da regra legal em questão. O ponto pode parecer trivial, mas na resposta enfática de Portugal Gouvêa e Mariana Pargendler o próprio texto do dispositivo em questão acabou ficando de fora. Partir do texto da lei não é “paranoia” ou “mito”; é elementar mesmo e é o centro da discussão.</p>
<p>Ora, o art. 40 da LPI estabelece que no Brasil patentes de invenção vigoram por 20 anos e patentes de modelo de utilidade vigoram por 15 anos, ambos os prazos contados a partir da data de depósito da patente.</p>
<p>Devido ao prazo ser contado a partir da data de depósito e não de concessão da patente, o tempo que o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) levará para analisar o pedido pode alterar substancialmente o tempo que o inventor terá uma patente em vigor em mãos. Em um extremo, se o INPI levar mais de 15 ou 20 anos para analisar o pedido, poderia acontecer do inventor em nenhum momento poder contar com uma patente ativa em mãos.</p>
<p>O parágrafo único do art. 40 tem uma função de garantia ao depositante, inventor, quando há uma ineficiência na análise do INPI, garantindo um período de vigência pleno de ao menos 10 anos para patentes de invenção e 7 anos para patente de modelo de utilidade, contando a partir da data que a patente foi concedida – e não da data de depósito.</p>
<p>Gouvêa e Pargendler pressupõem, sem justificativa, que o tema em debate é o art. 40 e, sobretudo, se o tempo de duração das patentes deveria ser maior ou menor. Porém este não é o objeto do parágrafo único do Art. 40. Nem é o que está em discussão no STF.</p>
<p>A saber, se o INPI for capaz de analisar os depósitos de patentes dentro de 7-10 anos, o dispositivo deixa de ser aplicado; ou seja, se o INPI for capaz de analisar os depósitos de patentes dentro de 7-10 anos, o par. único deixa de ser aplicado. Isto é, não se trata nem de um instituto jurídico que necessariamente aumenta o tempo de duração das patentes, muito menos que o faria de forma excessiva.</p>
<p>O objetivo deste instituto é pragmático, ou seja, de assegurar ao inventor de uma nova tecnologia que, mesmo na ocasião de excessiva morosidade do órgão governamental responsável pela análise, ele terá algum direito de propriedade em vigor sobre sua invenção caso a patente seja concedida.</p>
<p>Por isso, em nosso texto, ressaltamos a centralidade e importância da segurança jurídica ao ecossistema da inovação – assim como reconhecem diversos órgãos governamentais ao analisar o backlog do INPI. Os incentivos ao investimento em pesquisa e inovação são marginalmente diferentes se há perspectiva de usufruir por algum tempo do direito à patente em vigor, ou se pode ocorrer desse direito só existir judicializando violações antigas.</p>
<p>Como simples precaução, faz sentido haver dispositivos de segurança para a eventualidade do INPI não ter analisado uma patente em prazo razoável, afinal há outros setores econômicos envolvidos pelos atrasos do INPI que não o farmacêutico, especialmente na área de tecnologia.</p>
<p>A título de exemplo, 91,60% das patentes de telecomunicações vigentes no Brasil foram concedidas com base no art. 40, par. único, LPI. Isso representa 2.967 patentes, conforme dados abertos do INPI de 16 de novembro de 2020. Um dos setores mais estratégicos para o país, em termos de desenvolvimento econômico, de infraestrutura de rede e digital, cujo papel na inovação é crucial, seria diretamente impactado com a perda da garantia do art. 40, par. único.</p>
<p>Não por outro motivo, dispositivos legais similares existem em outros países, inclusive países que inovam muito mais que o Brasil. Nos Estados Unidos, há previsões no Patent Term Adjustment (PTA) de quatro tipos de atrasos diferentes que podem adicionar algum tempo à previsão de duração de 20 anos contados a partir da data de depósito.</p>
<p>Pela European Patent Convention, os mesmos 20 anos da data de depósito podem ser ampliados para compensar pela demora em aprovação regulatória ou outras condições que podem variar de país para país. Em nenhum momento nosso artigo defendeu que mecanismos assim não pudessem ser discutidos no parlamento brasileiro e com bons argumentos de AED.</p>
<p>Caso o leitor estranhe esses 20 anos da data de depósito ser comum a Brasil, Estados Unidos e União Europeia, isso se deve aos países fazerem parte do tratado internacional do Acordo TRIPS de 1994. Os 20 anos da data de depósito é o tempo mínimo de duração de uma patente de invenção segundo o acordo e os países tendem a optar pelo tempo mínimo, Brasil incluso.</p>
<p>Isso não impede a criação de outras modalidades de patentes em nível nacional que durem menos, como as de modelo de utilidade no Brasil com duração prevista de 14 anos da data de depósito.</p>
<p>Gouvêa e Pargendler dizem haver “numerosos” argumentos em favor da inconstitucionalidade do art. 40. Notem que tratam explicitamente do art. 40, caput e não do seu parágrafo único como nós fizemos em nosso artigo original. Inclusive chegam ao ponto de fazer uma citação com aspas atribuída a nós, porém com texto adulterado, retirando palavras importantes que escrevemos.</p>
<p>Enquanto nós dizemos “não há argumentos de Análise Econômica do Direito (AED) que justifiquem a decretação de inconstitucionalidade do parágrafo único do art. 40 da Lei de Propriedade Industrial (LPI)”, Gouvêa e Pardengler usam aspas para representar nossa posição omitindo o trecho que ela versa sobre o parágrafo único do Art. 40.</p>
<p>Resta saber quais seriam, afinal, estes numerosos argumentos de AED para dizer que o art. 40 (no texto de Gouvêa e Pardengler) ou seu parágrafo único seja inconstitucional. O texto de Gouvêa e Pardengler aponta um ou outro estudo sobre possibilidade de desenvolvimento com menos proteções à invenção.</p>
<p>E desde quando isso basta para dizer que um dispositivo legal é inconstitucional? Se nós ou a sociedade aceitássemos um nível tão baixo de evidências para declarar um dispositivo legal inconstitucional, sobraria muito pouco da Constituição, quem dirá de leis inferiores que seriam criticadas com base em evidências ainda mais frágeis.</p>
<p>Em AED, não há uniformidade metodológica sobre qual o nível de evidências e de consenso quanto às consequências de um dispositivo jurídico que permitam dizer categoricamente se ele deve ser considerado constitucional ou inconstitucional. A análise empírica e o cálculo custo-benefício das consequências de uma lei são contributos fundamentais da AED para o Direito.</p>
<p>Já a parte normativa – o que deve ser feito a partir da identificação que uma lei tem mais consequências negativas que positivas, ou que uma mudança na lei teria consequências positivas – está sujeita a todo tipo de considerações adicionais e na maioria dos casos não há prescrição estritamente necessária. Dizer como as coisas são não nos permite deduzir o que deve ser feito.</p>
<p>Gouvêa e Pardengler citam Moser como afirmando que “a grande maioria das inovações históricas ocorreram fora do sistema de patentes” e mencionam que Holanda e Suíça foram tão inovadoras quanto países que tinham patentes. O leitor que desconhece o tema e ler a citação pode ser levado a pensar que ela veio de um amplo estudo sobre todas as inovações até os dias de hoje, porém o contexto no capítulo de livro citado é outro.</p>
<p>Na frase anterior à citação escolhida por Gouvêa e Pardengler, Moser diz: “Exibições em feiras de inovação no século 19 oferecem uma rara alternativa de como mensurar a inovação (sem usar registros de patentes) para examinar os efeitos de leis de patentes em um tempo em que muitos países ainda não tinham leis de patentes ou as aboliram por razões políticas. Esses dados indicam que a grande maioria das inovações históricas ocorreram fora do sistema de patentes. Também mostram que países sem leis de patentes, como Suíça e Holanda, foram pelo menos tão inovadores quanto países com leis de patentes.”</p>
<p>Devemos entender então que, de acordo com “a verdadeira” Law &amp; Economics revelada pelos ilustres professores, é possível dizer que um artigo da constituição brasileira é inconstitucional em 2020 com base nas feiras de invenção do Século 19? Não há uma única verdade em AED sobre quais são os critérios mínimos necessários para se recomendar que um artigo seja declarado inconstitucional, mas se um dia existir esse critério esperamos que ele seja mais rigoroso que esse.</p>
<p>Podemos, no entanto, tentar nos aproximar de alguns critérios mínimos. Eles não são suficientes para uma declaração de inconstitucionalidade, ou pelo menos haverá grande debate se serão suficientes ou não, mas se nem eles forem superados dificilmente um argumento de inconstitucionalidade via AED seria levado a sério. No mínimo, esperaríamos uma demonstração de que o par. único do art. 40 gera consequências negativas graves, desproporcionalmente maiores que seus potenciais benefícios.</p>
<p>Dentro do nosso conhecimento da literatura acadêmica, ainda não foi feita qualquer avaliação de impacto rigorosa sobre esse dispositivo. Inclusive, talvez seja impossível realizar essa avaliação por falta de dados e todas as dificuldades inerentes de se mensurar o impacto de patentes – envolvem o longo prazo, risco, e cada patente ser um objeto com características únicas importantes que dificultam falarmos em termos agregados.</p>
<p>Nesse sentido, uma análise essencial seria a própria percepção dos inventores, investidores e desenvolvedores de P&amp;D no Brasil, nas áreas-chave para a inovação no Brasil.</p>
<p>Se uma avaliação de impacto rigorosa é impossível, um critério mínimo mais frouxo que poderíamos colocar é o de se demonstrar que o comportamento do sistema de patentes no Brasil está destoando substancialmente do de outros países, e para pior. O nexo causal com o par. único ficaria faltando, mas seria algum sinal de que temos problemas.</p>
<p>Não temos evidências fortes sobre isso, tampouco. Entre 2010 e 2018, o número de patentes que cada examinador do INPI precisa avaliar todos os anos é menor no Brasil que na mediana dos outros países do mundo com maior registro de patentes.[3] Porém, há um estoque (backlog) grande de patentes antigas aguardando avaliação, estoque acumulado em tempos anteriores aos esforços atuais do INPI para reduzir o prazo que leva para avaliar patentes.</p>
<p>No ritmo atual de redução do backlog,[4] dentro de poucos anos o tempo médio de espera para uma decisão sobre um pedido de patente pode ser reduzido ao ponto do par. único do art. 40 se tornar irrelevante.</p>
<p>Em suma, não temos sequer evidências fracas, correlacionais, para afirmar que haveria algo de especialmente destrutivo neste dispositivo legal ao ponto de justificar uma recomendação de declaração de inconstitucionalidade.</p>
<p>Mas, em deferência à “verdadeira” Law &amp; Economics portada apenas por Gouvêa e Pardengler, vamos supor que existissem evidências de que o par. único do art. 40 gera custos substancialmente maiores que benefícios. Por que a melhor resposta normativa seria a de declaração de inconstitucionalidade em uma corte? Em AED não existe boa recomendação sem análise dos cenários alternativos, sem consideração quanto aos custos de oportunidade envolvidos.</p>
<p>Uma lista não-exaustiva de alternativas à declaração de inconstitucionalidade incluiria: (1) alterar o tempo mínimo de vigência previsto em casos de atraso do INPI, reduzindo-o; (2) recomendar investimentos adicionais no INPI para que o tempo médio de análise fique abaixo dos 7-10 anos e se aproxime dos 3-5 anos dos EUA e UE; (3) recomendar que o Congresso proponha uma mudança na lei de patentes, alterando seu funcionamento; (4) colocar custos crescentes a cada ano para o inventor que tiver acesso ao par. único do art. 40 por ineficiência do INPI ou multas crescentes para quem adiar propositalmente o processo decisório; dentre outras alternativas.</p>
<p>Isto é, além de não terem apontado evidências mínimas dos prejuízos desproporcionais do par. único do art. 40, os autores também não deram nenhuma argumentação de porque o melhor caminho de resolução seria uma declaração de inconstitucionalidade. O fato de haver uma ADI sobre este dispositivo em tramitação está longe de significar que não existem outras alternativas para alterar o dispositivo jurídico ou suas consequências.</p>
<p>Terminamos retomando nossa argumentação. Não vemos evidências significativas que permitam avançar uma defesa, via argumentos de AED, de uma declaração de inconstitucionalidade, a começar porque ela vai afetar indistintamente diversos setores econômicos[5] – não apenas o de medicamentos que é tão sensível; sem falar que a via judicial da ADI não permite modular efeitos nesse nível de distinção entre setores.</p>
<p>O dispositivo do par. único do art. 40 dá uma segurança mínima ao inventor de uma nova tecnologia na eventualidade de excessiva morosidade do INPI e não destoa substancialmente de dispositivos similares em outros países.</p>
<p>Caso, como dito anteriormente, o entendimento da sociedade brasileira acerca da proteção patentária tenha mudado – por exemplo, em razão do gastos em um setor estratégico –, a via legislativa permite alterar os dispositivos legais e constitucionais sobre o tema sem uma mudança abrupta pela via judicial das instituições de direito de propriedade intelectual no país, que prejudicaria a segurança jurídica.</p>
<p>Se esse entendimento não mudou, mas se queira colocar anteparos adicionais para não haver abuso do par. único, há formas mais fáceis, administrativas, de colocar custos crescentes ou multas para quem haja de má fé ou esteja se beneficiando indevidamente.</p>
<p>E por fim, caso a sociedade queira ter um sistema de incentivos à inovação tecnológica mais eficaz e eficiente, isso nunca acontecerá enquanto o INPI não tiver a infraestrutura e pessoal suficiente para responder aos pedidos de patente com agilidade.</p>
<p>Inclusive, à luz da possibilidade de que os atrasos na avaliação de patentes pelo INPI poderiam onerar o SUS, um Estado vigilante com seus limites e deveres constitucionais e também preocupado com o bem-estar geral da população já teria reconhecido desde o começo esse trade-off e que investir na eficiência do INPI geraria externalidades positivas para a saúde.</p>
<p>Se o Século 21 será o século da “indústria 4.0”, da inovação e da ciência como tanto se alega, caberia ansiarmos por uma análise de inovações que seja competitiva com os países líderes em tecnologia do mundo.</p>
<p>Mas cá estamos ainda lidando com a ilusão brasileira de que ganharemos maior ou menor acesso à tecnologia e desenvolvimento na base de canetadas dos tribunais. E a isso a AED não deve se prestar, apesar de cada vez mais novatos se apresentarem como especialistas no tema.</p>
<p>Uma dica aos professores de um debate “verdadeiramente” acadêmico de AED: comecem pelo tema dos custos em um setor específico e proponham, com base em evidências e se for o caso, ajustes à legislação patentária mediante amplo debate parlamentar. O país ganhará com essa discussão.</p>
<hr>
<p><strong>Bibliografia:</strong></p>
<p>[1] Timm, L. B., &amp; Caovilla, R. (2010). As teorias rivais sobre a propriedade intelectual no Brasil. Economic Analysis of Law Review, 1(1), 49-77.</p>
<p>[2] Disponível em: &lt;https://www.jota.info/paywall?redirect_to=//www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/coluna-da-abde/direito-e-neurociencia-por-que-uma-opcao-pelo-pragmatismo-profundo-15052020&gt;.</p>
<p>[3] Fonte: WIPO – World Intellectual Property Organization.</p>
<p>[4] MINISTÉRIO DA ECONOMIA. Decisões de patentes crescem e backlog cai no primeiro semestre de 2020. Instituto Nacional da Propriedade Industrial. Disponível em: &lt;https://www.gov.br/inpi/pt-br/central-de-conteudo/noticias/decisoes-de-patentes-crescem-e-backlog-cai-no-primeiro-semestre-de-2020&gt;.</p>
<p>[5] Ayub, N. Í., &amp; Bacic, M. J. (2019). Patentes: justificativas econômicas e seus efeitos sobre a inovação. Economic Analysis of Law Review, 10(2), 153-172.</p>


</section>

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  <category>Direito e Economia</category>
  <category>Opinião</category>
  <guid>https://thomasvconti.com.br/2020/levando-a-serio-o-paragrafo-unico-do-art-40-da-lei-de-propriedade-industrial/</guid>
  <pubDate>Thu, 26 Nov 2020 03:00:00 GMT</pubDate>
  <media:content url="https://thomasvconti.com.br/2020/levando-a-serio-o-paragrafo-unico-do-art-40-da-lei-de-propriedade-industrial/inpi-par-unico-art-40-lpi-thomas-conti-luciano-timm.jpg" medium="image" type="image/jpeg"/>
</item>
<item>
  <title>Máscaras funcionam? Sim! Aqui as evidências</title>
  <link>https://thomasvconti.com.br/2020/mascaras-funcionam-sim-aqui-as-evidencias/</link>
  <description><![CDATA[ 




<p>Essas máscaras caseiras que a gente tem que usar servem para alguma coisa?</p>
<p>Sim, é praticamente certo que sim! Segue texto com um pouco do estado atual da ciência sobre máscaras. O texto inteiro é uma tradução, o autor original é <a href="https://twitter.com/jeremyphoward/status/1274036544387477504">@jeremyphoward</a>. Está disponível também <a href="https://twitter.com/ThomasVConti/status/1274207305324773376">no meu twitter</a>. <a href="https://twitter.com/jeremyphoward/status/1274358764489961477">Obrigado, Jeremy</a>!</p>
<p>Começamos com essa foto incrível de pesquisador falando em câmara com lasers 👇</p>
<p><a href="mascara-coronavirus-funciona-evidencias-covid-19.png" class="lightbox" data-gallery="quarto-lightbox-gallery-1"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/mascaras-funcionam-sim-aqui-as-evidencias/mascara-coronavirus-funciona-evidencias-covid-19.png" class="img-fluid" width="600"></a></p>
<p>A foto acima mostra gotículas de fala, que acreditamos ser um vetor chave de transmissão do #COVID19. Duas situações, com e sem cobrir o rosto com mero papel-toalha. É nítido que a maior parte das gotículas são bloqueadas.</p>
<p>Aqui vídeo de <a href="https://t.co/OELHN7rmua?amp=1">artigo científico</a>:</p>
<p>A razão para olharmos para a fala é porque hoje sabemos que o #COVID19 resulta de excreção viral no trato respiratório superior, onde a fala pode levar a formação de gotículas.</p>
<p>Poucos pacientes assintomáticos têm excreção no <a href="https://www.nature.com/articles/s41586-020-2196-x">trato respiratório inferior</a>. Gotículas da respiração seriam problema maior se excreção viral fosse no trato respiratório inferior, o que parece ser mais raro em quem não tem sintomas.</p>
<p>Mesmo se respiração causar infecção, máscaras de pano podem bloquear <a href="https://t.co/zhdnIb6now?amp=1">gotículas da respiração também</a>!</p>
<p><a href="https://arxiv.org/abs/2005.10720"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/mascaras-funcionam-sim-aqui-as-evidencias/mascara-eficacia.jpg" class="img-fluid" width="600"></a></p>
<p>Então se máscaras parecem tão boas na teoria, elas funcionam na prática? Parece que sim! Em países com uso universal de máscaras, a mortalidade do coronavírus aumentou <a href="https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.05.22.20109231v3">5,4% por semana versus 48% por semana nos outros países</a>.</p>
<p><a href="https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.05.22.20109231v3"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/mascaras-funcionam-sim-aqui-as-evidencias/paises-uso-de-mascara-universal-obrigatorio.png" class="img-fluid" width="600"></a></p>
<p>Outro artigo investigou leis de uso obrigatório de máscaras nos EUA. Encontraram que os dados “sugerem que as leis de uso obrigatório de máscaras podem ter <a href="https://www.healthaffairs.org/doi/10.1377/hlthaff.2020.00818">prevenido de 230.000 a 450.000 novas infecções</a> de #COVID19 até 22 de maio.”</p>
<p>Um artigo no American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine usou uma técnica engenhosa para analisar o Google Trends, E-commerce e novos casos de COVID19. Encontraram <a href="https://www.atsjournals.org/doi/abs/10.1164/rccm.202004-1188LE">forte associação entre máscaras e menos casos de COVID19</a>.</p>
<p><a href="https://www.atsjournals.org/doi/abs/10.1164/rccm.202004-1188LE"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/mascaras-funcionam-sim-aqui-as-evidencias/paises-uso-de-mascaras-coronavirus.jpg" class="img-fluid" width="600"></a></p>
<p>Esses resultados estão em linha com um modelo apresentado no Proceedings of the Royal Society, que encontrou que “quando períodos de lockdown são adotados com 100% de uso de máscaras, <a href="https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rspa.2020.0376">há muito menos transmissão da doença e a epidemia é controlada</a>.”</p>
<p><a href="https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rspa.2020.0376"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/mascaras-funcionam-sim-aqui-as-evidencias/populacao-usando-mascara-efeito-coronavirus-covid-19.gif" class="img-fluid" width="500"></a></p>
<p>Muitos outros modelos <a href="https://www.vanityfair.com/news/2020/05/masks-covid-19-infections-would-plummet-new-study-says">chegaram a resultados semelhantes</a>, incluindo tanto modelos SEIR e Modelos Baseados em Agentes desenvolvidos por De Kai et al.</p>
<p>Máscaras podem <a href="https://gh.bmj.com/content/5/5/e002794">inclusive proteger familiares dentro de uma mesma casa</a>, temos evidências observacionais fortes disso. Estudou encontrou que “uso de máscaras pelo primeiro caso infectado e seus contatos familiares antes do aparecimento de sintomas do primeiro caso teve eficácia de 79% em evitar a transmissão de COVID-19”</p>
<p>Máscaras funcionam ainda melhor somadas ao distanciamento social. Um novo dispositivo de “cinturão de distanciamento social” foi usado para mostrar que as <a href="https://arxiv.org/abs/2005.12446">pessoas mantém maior distância de quem usa máscara do que de quem não usa</a>, aumentando a segurança.</p>
<p><a href="https://arxiv.org/abs/2005.12446"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/mascaras-funcionam-sim-aqui-as-evidencias/diferenca-distanciamento-social-uso-de-mascaras-coro-df77ba.png" class="img-fluid" width="600"></a></p>
<p>Mais ainda, máscaras reduzem o raio da nuvem de gotículas ao falar. Achado é baseado tanto no estudo de imagens de Schlieren citado no começo do fio quanto em <a href="https://arxiv.org/abs/2005.03444">simulações de dinâmica de fluídos</a>.</p>
<p><a href="https://arxiv.org/abs/2005.03444"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/mascaras-funcionam-sim-aqui-as-evidencias/mascara-goticulas-fala-reduz.png" class="img-fluid" width="600"></a></p>
<p><a href="https://twitter.com/jeremyphoward">Jeremy Howard</a> mapeou <a href="https://www.preprints.org/manuscript/202004.0203/v2">mais 106 referências na revisão de evidências</a> que fez sobre “Uso de Máscaras Contra o #COVID19”, incluindo fatores sociológicos e outros.</p>
<p>Então aí está, uma pequena amostra da ciência por trás do uso de máscaras.</p>
<p>Da próxima vez que você ouvir alguém dizer que “essas máscaras não servem para nada”, compartilhe este texto e mostre para eles que funcionam, sim! Nunca foi tão barato salvar uma vida. Use máscara, salve vidas!</p>



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  <category>Ciência</category>
  <category>Tradução</category>
  <guid>https://thomasvconti.com.br/2020/mascaras-funcionam-sim-aqui-as-evidencias/</guid>
  <pubDate>Sat, 04 Jul 2020 03:00:00 GMT</pubDate>
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</item>
<item>
  <title>Considerações sobre a reabertura de São Paulo</title>
  <link>https://thomasvconti.com.br/2020/consideracoes-sobre-a-reabertura-de-sao-paulo/</link>
  <description><![CDATA[ 




<p>São Paulo planeja reabrir a partir da semana que vem e divulgou o plano de ação. Acho importante um diagnóstico realista da situação, pesar custos, benefícios e riscos à luz da experiência internacional.</p>
<section id="a-situação-de-são-paulo" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="a-situação-de-são-paulo"><strong>A situação de São Paulo</strong></h2>
<p>Nos últimos 2 meses, apesar de uma série de esforços para tentar aumentar a força do isolamento, os <a href="https://www.google.com/covid19/mobility/">seis indicadores de mobilidade do Google</a> praticamente não mudaram. É possível que o governo <strong>não saiba</strong> como reduzir mais a mobilidade.</p>
<p><a href="https://www.google.com/covid19/mobility/"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/consideracoes-sobre-a-reabertura-de-sao-paulo/mobilidade-google-sao-paulo-lockdown-reabertura.png" class="img-fluid" width="600"></a></p>
<p>Mais importante que a mobilidade é a estimativa do número reprodutivo efetivo da epidemia (<em>Rt</em>). A epidemia só está sob controle se o <em>Rt</em> estimado for menor que 1. São Paulo nunca conseguiu chegar nesse ponto, embora tenha chegado perto.</p>
<p><a href="https://perone.github.io/covid19analysis/brazil_r0.html"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/consideracoes-sobre-a-reabertura-de-sao-paulo/rt-numero-efetivo-reprodutivo-coronavirus-sao-paulo-d39bcb.png" class="img-fluid" width="600"></a></p>
<p>A consequência do <em>Rt</em> estar maior que 1 é que o número de casos novos por dia continua crescendo em relação ao mesmo dia da semana anterior. Isso significa que há sempre um número grande de infecções ativas circulando na população.</p>
<p><a href="https://perone.github.io/covid19analysis/brazil_r0.html"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/consideracoes-sobre-a-reabertura-de-sao-paulo/novas-infeccoes-dia-sao-paulo-coronavirus-thomas-conti.png" class="img-fluid" width="600"></a></p>
<p>O Brasil soma hoje (29/05) <a href="https://worldometers.info/coronavirus">440 mil infectados e aproximadamente 220 mil infecções ativas</a>. São Paulo tem <a href="https://covid.saude.gov.br">~100 mil infectados</a>. Aproximando pela mesma proporção, teríamos pelo menos ~50 mil infecções ativas. Mais que isso em não-notificadas. Essas infecções ativas não detectadas circulando tornam a situação muito mais perigosa e arriscada do que era em fins de março. Houve aumento da capacidade de saúde, mas as infecções ativas cresceram mais. A chance de ser exposto ao coronavírus é maior hoje do que em março quando começamos a quarentena, tudo porque não conseguimos levar o número reprodutivo efetivo da epidemia para menos que 1.</p>
</section>
<section id="o-protocolo-de-reabertura" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="o-protocolo-de-reabertura"><strong>O protocolo de reabertura</strong></h2>
<p>No <a href="https://www.saopaulo.sp.gov.br/wp-content/uploads/2020/05/PlanoSP_vf5.pdf">protocolo de reabertura de SP</a> é colocado como condição necessária indicadores estáveis de número de casos, o que não é claro se alguma região está atingindo dada a falta de testes. Capacidade de UTI é mais fácil de medir e parece que alguns municípios estão estáveis. Há um impasse também quanto a isso dado que muito municípios não têm UTIs e dependem da infraestrutura de saúde de municípios vizinhos.</p>
<p><a href="https://www.saopaulo.sp.gov.br/wp-content/uploads/2020/05/PlanoSP_vf5.pdf"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/consideracoes-sobre-a-reabertura-de-sao-paulo/protocolo-reabertura-fases-sao-paulo-coronavirus-tho-ffbea6.jpg" class="img-fluid" width="600"></a></p>
<p>Dado o número maior de infecções ativas hoje do que em março, como controlar a epidemia? Só existem duas barreiras entre esse número imenso de infecções ativas e um contágio acelerado por covid: isolamento social e regras sanitárias mais rigorosas. O distanciamento social será relaxado gradualmente, mas as regras sanitárias são mais rigorosas hoje do que em março. Serão elas suficientes?</p>
<p>Nos moldes atuais, provavelmente não. Porque o que estamos observando hoje <em>já é</em> o efeito combinado de isolamento social <strong>mais</strong> novas regras sanitárias. Para que a reabertura não seja uma catástrofe, precisamos de regras sanitárias e de distanciamento voluntário criativas para compensar. Vamos a alguns exemplos internacionais.</p>
</section>
<section id="ideias-para-auxiliar-uma-reabertura" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="ideias-para-auxiliar-uma-reabertura"><strong>Ideias para auxiliar uma reabertura</strong></h2>
<p>Prioridade número um precisa ser evitar oportunidades de eventos “super-espalhadores”. São situações nas quais uma única pessoa consegue infectar dezenas de outras. Pesquisas em um <a href="https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/69/wr/mm6919e6.htm">coral nos Estados Unidos</a> e <a href="https://wwwnc.cdc.gov/eid/article/26/8/20-0633_article">aulas de dança na Coreia do Sul</a> sugerem que falar alto, cantar e respiração pesada em espaços fechados aumentam risco.</p>
<p><strong>1.</strong> Como todas as grandes cidades do Brasil, a capital de São Paulo tem problemas com transporte público lotado. <strong>Ideia: Recomendação ampla de silêncio no transporte público</strong>. O <a href="https://www.sciencemag.org/news/2020/05/japan-ends-its-covid-19-state-emergency">caso do Japão</a> mostra que é possível não ter clusters no transporte público. Por lá o silêncio no transporte é regra cultural.</p>
<p><strong>2.</strong> O Plano de Reabertura em fases coloca escritórios entre os primeiros a poderem reabrir. Porém muitos deles são locais fechados, com ar condicionado, pessoas falando dia todo, e que ao responderem por boa parte dos empregos afetam também no deslocamento das pessoas e lotação do transporte público. <strong>Ideia: recomendação pública de manter teletrabalho até o fim do ano</strong>. Não necessariamente precisamos tornar obrigatório, uma campanha de conscientização coerente e bem comunicada pode ser bastante eficaz. Muitas empresas já farão isso mesmo que não for obrigatório, uma indicação da prefeitura e do governo estadual serviriam para direcionar mais empresas para essa decisão. E os escritórios que reabrirem seria importante direcionar para que mantenham janelas abertas e que as pessoas usem máscaras. <a href="https://www.saopaulo.sp.gov.br/wp-content/uploads/2020/05/PlanoSP_vf5.pdf"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/consideracoes-sobre-a-reabertura-de-sao-paulo/protocolo-reabertura-fases-setores-sao-paulo-coronav-429229.jpg" class="img-fluid" width="600"></a></p>
<p><strong>3.</strong> Bares e restaurantes estão na Fase 3. Com base nas experiências bem-sucedidas da <a href="https://www.theguardian.com/world/2020/may/15/coronavirus-in-europe-states-take-small-steps-towards-normality">Áustria e da Alemanha</a>, uma <strong>ideia é diferenciar bares e restaurantes que conseguem servir mesas em lugares abertos</strong>, onde o risco é muito menor. É possível recomendar que sirvam clientes do lado de fora. Dando um passo além, muitas cidades conseguiriam facilitar que bares e restaurantes possam colocar mesas na calçada sem grandes problemas, principalmente no interior.</p>
<p><strong>4.</strong> A estratégia que se mostrou mais eficiente a nível mundial foi o teste-rastreio-isolamento. Nela, são buscados os contatos próximos das pessoas que testam positivo para alertar que elas podem ter sido infectadas e recomendar que se quarentenem por 14 dias. O Brasil e o estado de SP descartaram isso desde março sob o argumento de ter poucos testes. <a href="https://www.sciencemag.org/news/2020/05/japan-ends-its-covid-19-state-emergency">Mas o Japão mostrou que mesmo com poucos testes, ter <strong>algum</strong> nível de teste e rastreio já pode ser muito eficaz</a>. Permite identificar clusters maiores de contágio e agir pontualmente com boas consequências. Ou seja, <strong>já passou da hora de nos organizarmos para implementar algum nível de teste e rastreio em São Paulo e no Brasil</strong>.</p>
<p><strong>5.</strong> A Alemanha conseguiu manter a <a href="https://www.wsj.com/articles/how-germany-kept-its-factories-open-during-the-pandemic-11588774844">maior parte das suas fábricas funcionando</a> mesmo durante medidas de isolamento mais rígidas próximas de um lockdown. Menor número de funcionários, disponibilização de testes PCR na própria fábrica, medição recorrente de temperatura, intervalos para lavar a mão, uso de máscaras o tempo todo, jornada reduzida, dentre outras medidas e combinações de medidas foram avisadas com muita antecedência para que as fábricas se adaptassem e não precisassem parar.</p>
<p><strong>6.</strong> Há evidências de que talvez crianças e adolescentes <a href="https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/apa.15371">não sejam grandes transmissores do coronavírus</a>. Mas há também ideias criativas de como limitar contágio em escolas e sobrecarga de transporte. Na Áustria, que é um dos países mais bem-sucedidos do ocidente na contenção da pandemia, por precaução <a href="https://www.swissinfo.ch/eng/reuters/austria-will-reopen-schools-with-split-classes-next-month/45714214">foram adotadas turmas divididas em dias alternados para ter salas mais vazias</a> e menor sobrelotação nos transportes. Ideias similares podem ser úteis para São Paulo e o Brasil. Reduções de jornada também podem ser úteis em diminuir o tempo de exposição ou intercalar horários para diminuir o peso na hora do rush.</p>
<p><strong>7.</strong> Também no <a href="https://mainichi.jp/english/articles/20200422/p2a/00m/0na/013000c">Japão foram distribuídas máscaras</a> para mais de 50 milhões de domicílios. Na Coreia do Sul, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=TBpyLt_fT1o">máscaras são distribuídas gratuitamente</a> toda semana. São países muito mais ricos que o Brasil nos quais a população poderia facilmente comprar máscaras por si mesma. Porém o governo distribui gratuitamente para garantir que elas serão utilizadas. <a href="https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7191274/"><strong>Máscaras funcionam</strong></a>. Martelar isso no discurso público com amplas campanhas de conscientização para que todos usem sempre que possível fará mais por São Paulo e pelo Brasil do que quase qualquer outra medida que possamos adotar. <strong>Usem máscaras!</strong></p>
</section>
<section id="colaboração-popular-e-saúde-mental" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="colaboração-popular-e-saúde-mental"><strong>Colaboração popular e saúde mental</strong></h2>
<p>Boa parte da população está praticando o isolamento há mais de 2 meses. É preciso atualizá-las quanto a riscos que hoje sabemos que são menores para aliviar a pressão psicológica sobre elas e diminuir o trabalho de distanciamento voluntário e novas práticas de higiene. Trazer boas notícias é importante para a saúde mental e pode aumentar a adesão a outros esforços.</p>
<p>Por exemplo, <a href="https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/daily-life-coping/visitors.html">não tendo sintomas de covid, caminhadas e corridas sozinho ao ar livre mantendo metros de distância são muito seguras</a>. Fazem bem para a saúde física e mental e não colocam outros em risco. Muita gente está neurótica com parques e corridas sem necessidade. Esforços policiais inúteis foram <a href="https://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2020/04/13/mulher-morde-guarda-municipal-ao-ser-detida-por-caminhar-em-praca-de-araraquara.ghtml">direcionados para coibir pessoas sozinhas em locais abertos</a>, o que não faz o menor sentido.</p>
<p>Cada vez mais parece que o contágio ocorre mesmo na interação com outras pessoas e <a href="https://www.nytimes.com/2020/05/28/well/live/whats-the-risk-of-catching-coronavirus-from-a-surface.html">pouco por contato com superfícies</a>. Independente da exposição física ao vírus por superfícies, a infecção de fato só acontecerá se a pessoa levar a mão infectada até a boca, olho ou rosto que são as portas de entrada do vírus. Enfatizar muito para lavar mãos e que não se deve levar mãos ao rosto, olhos e boca pode fazer mais sentido que a desinfecção excessiva de superfícies. Muitas pessoas estão também neuróticas com esse tipo de contato, sem tanta necessidade.</p>
</section>
<section id="lockdown-e-seus-riscos" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="lockdown-e-seus-riscos"><strong>Lockdown e seus riscos</strong></h2>
<p>Apesar de eu ter mencionado que a chance de ser infectado agora é muito maior, só falei de estratégias para uma reabertura mais segura e mais eficiente e não falei de lockdown. Por que? Porque (1) o isolamento está perdendo apoio e (2) não sabemos se haverá adesão ao lockdown.</p>
<p>Vejam o caso do Pará. Foi decretado Lockdown em Belém e várias outras cidades no começo de maio e encerrado nesta semana. Conseguem ver o impacto do lockdown nos gráficos de mobilidade abaixo?</p>
<p><a href="https://www.google.com/covid19/mobility/"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/consideracoes-sobre-a-reabertura-de-sao-paulo/mobilidade-google-para-lockdown-reabertura.png" class="img-fluid" width="600"></a></p>
<p>Pois é, praticamente não teve.</p>
<p>Embora o lockdown seja uma medida legal/coercitiva, é impossível garantir que ele será cumprido na base da polícia e multa. O efetivo policial não tem escala para isso. A população precisa fazer por si mesma 90% ou mais do esforço para que a fiscalização garanta a adesão dos poucos % que faltarem e sinalize para os demais que a medida está valendo. Sem colaboração, a polícia não dá conta de manter o lockdown e acaba sinalizando a incapacidade do estado e a não-seriedade das medidas.</p>
<p>No fim de março e começo de abril certamente seria muito mais fácil implementar o lockdown, não por outro motivo <a href="../../pubs/coronavirus/index.html">insisti que nossos esforços não estavam reduzindo a mobilidade o suficiente e que era melhor fazê-lo àquela época</a>. A população estava mais descansada, havia maior apoio popular e mais reservas econômicas. A situação agora é de mais desgaste, menos apoio e situação econômica pior.</p>
<p>Ou seja, mesmo se o lockdown for necessário, há um risco significativo dele simplesmente não funcionar. Precisamos pensar um passo a frente. Se não funcionar, o que fazemos? Por isso destaquei as ideias acima. São só algumas, há muitas outras na experiência internacional. Destaquei as que considerei menos controversas e mais fáceis de implementar. Não dá para supor que Lockdown será suficiente. Não hoje.</p>
<p><strong>Por fim, destaco que nossa situação é MUITO crítica. Isso é o que mais queria ver autoridades dizendo. Povo tem direito de saber. Essa reabertura é por falta de opção, não por segurança. Avisem para cidadão se comportar de acordo. Copiem experiências de sucesso. Distribuam máscaras! E população, use!</strong></p>


</section>

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  <category>Economia</category>
  <category>Política</category>
  <guid>https://thomasvconti.com.br/2020/consideracoes-sobre-a-reabertura-de-sao-paulo/</guid>
  <pubDate>Fri, 29 May 2020 03:00:00 GMT</pubDate>
</item>
<item>
  <title>Quando a epidemia estiver controlada, como saberemos?</title>
  <link>https://thomasvconti.com.br/2020/quando-a-epidemia-estiver-controlada-como-saberemos/</link>
  <description><![CDATA[ 




<p>O primeiro critério recomendado no <a href="https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/covid-strategy-update-14april2020.pdf?sfvrsn=29da3ba0_19">guia estratégico da OMS para reabertura segura</a> de quarentenas é o número de novos casos de coronavírus se mantiver estável ou em queda nos últimos 14 dias. Mas é muito difícil de acompanhar no Brasil. Seguem alguns problemas e minha tentativa de mostrar graficamente a posição aproximada de cada estado.</p>
<p>Primeiro problema é a subnotificação. Nossos 3 principais indicadores têm problemas grandes - testes positivos, internações por SRAG e declarações de óbito em cartório. Até termos dados melhores ou pesquisas com testes aleatórios na população, esse problema é insolúvel.</p>
<p>Precisamos então trabalhar com dados sub-ótimos. Internações por SRAG o dado é semanal e muito revisado. Declarações de óbito o registro online está muito estranho. Restam os testes positivos de novos casos e novos óbitos.</p>
<p>Dois problemas com esses números: todo fim de semana e feriado diminui o pessoal que atualiza os números e os casos caem, o atraso é tirado 2 dias depois. Além disso, há uma fila de testes e muitos lugares parecem despejar casos “de baciada” no dia que a fila diminui.</p>
<p>Como acompanhar a tendência de casos dia-a-dia em uma situação dessas? Apliquei dois tratamentos na série de tempo:</p>
<ul>
<li>Para suavizar o preenchimento errático, ao invés do número bruto do dia, uso uma média geométrica móvel dos novos casos nos últimos 7 dias. Por exemplo, o nº de novos casos hoje passa a ser a média geométrica dos novos casos de terça passada até hoje.</li>
<li>Para corrigir efeito de fins de semana com menos casos e terças com muitos casos, subtraio dessa média móvel de novos casos no dia a média móvel do mesmo dia na semana passada. Quero saber se *hoje* há *mais novos casos* que no mesmo dia da semana anterior - tendência de alta.</li>
</ul>
<p>A combinação desses dois ajustes deve servir para que erros pontuais de mensuração não tenham peso tão grande, ficando a tendência geral dos casos. Abaixo os resultados com dados até este domingo para cada estado e região brasileira. Nesses gráficos o critério da OMS apareceria como 14 barras azuis consecutivas no cenário mais seguro, ou 14 barras muito pequenas, próximas do zero, em sequência.</p>
<section id="tendência-centro-oeste" class="level3">
<h3 class="anchored" data-anchor-id="tendência-centro-oeste">Tendência Centro-Oeste</h3>
<p><a href="tendencia_casos_covid-Centro-Oeste_autor_Thomas-Cont-36277c.png"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/quando-a-epidemia-estiver-controlada-como-saberemos/tendencia_casos_covid-Centro-Oeste_autor_Thomas-Cont-36277c.png" class="img-fluid" width="900"></a></p>
</section>
<section id="tendência-nordeste" class="level3">
<h3 class="anchored" data-anchor-id="tendência-nordeste">Tendência Nordeste</h3>
<p><a href="tendencia_casos_covid-Nordeste_autor_Thomas-Conti_2020-04-27.png" class="lightbox" data-gallery="quarto-lightbox-gallery-1"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/quando-a-epidemia-estiver-controlada-como-saberemos/tendencia_casos_covid-Nordeste_autor_Thomas-Conti_2020-04-27.png" class="img-fluid" width="900"></a></p>
</section>
<section id="tendência-norte" class="level3">
<h3 class="anchored" data-anchor-id="tendência-norte">Tendência Norte</h3>
<p><a href="tendencia_casos_covid-Norte_autor_Thomas-Conti_2020-04-27.png" class="lightbox" data-gallery="quarto-lightbox-gallery-2"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/quando-a-epidemia-estiver-controlada-como-saberemos/tendencia_casos_covid-Norte_autor_Thomas-Conti_2020-04-27.png" class="img-fluid" width="900"></a></p>
</section>
<section id="tendência-sudeste" class="level3">
<h3 class="anchored" data-anchor-id="tendência-sudeste">Tendência Sudeste</h3>
<p><a href="tendencia_casos_covid-Sudeste_autor_Thomas-Conti_2020-04-27.png" class="lightbox" data-gallery="quarto-lightbox-gallery-3"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/quando-a-epidemia-estiver-controlada-como-saberemos/tendencia_casos_covid-Sudeste_autor_Thomas-Conti_2020-04-27.png" class="img-fluid" width="900"></a></p>
</section>
<section id="tendência-sul" class="level3">
<h3 class="anchored" data-anchor-id="tendência-sul">Tendência Sul</h3>
<p><a href="tendencia_casos_covid-Sul_autor_Thomas-Conti_2020-04-27.png" class="lightbox" data-gallery="quarto-lightbox-gallery-4"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/quando-a-epidemia-estiver-controlada-como-saberemos/tendencia_casos_covid-Sul_autor_Thomas-Conti_2020-04-27.png" class="img-fluid" width="900"></a></p>
<p>Vemos que talvez com exceção do Mato Grosso e Paraná, nenhum estado está próximo dessa situação. Mas é preciso algum cuidado para interpretar esses números. Não temos informações públicas claras sobre a capacidade de teste de cada estado, quantos estão aplicando e quantos % dos testes dão positivo. Número de óbitos confirmados também com dados instável para a conta acima.</p>
<p>Mas, como o que importa aqui é menos a precisão exata do número e mais a tendência geral, se assumirmos que os testes positivos variam aproximadamente como os casos reais variam, a interpretação da tendência é razoável. Esse mesmo indicador e forma de apresentação poderia ser usado com interpretação muito mais robusta se existisse uma série de dados de mortes totais por dia no Brasil. Assim, deixaríamos de depender de testes de coronavírus. Em países desenvolvidos o impacto do vírus têm sido grande suficiente para mudar abruptamente o comportamento das mortes totais.</p>
<p>Um dado que governos estaduais e municipais podem conseguir disponibilizar de forma mais fácil e combinar com uma tendência como a calculada acima é o dado de variações na disponibilidade de leitos em UTI. Com os dois em mãos, seria possível calibrar uma avaliação de qual cenário que estamos, tendência de alta, baixa, ou estável.</p>


</section>

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  <category>Ciência</category>
  <guid>https://thomasvconti.com.br/2020/quando-a-epidemia-estiver-controlada-como-saberemos/</guid>
  <pubDate>Mon, 27 Apr 2020 03:00:00 GMT</pubDate>
  <media:content url="https://thomasvconti.com.br/2020/quando-a-epidemia-estiver-controlada-como-saberemos/tendencia_casos_covid-Sul_autor_Thomas-Conti_2020-04-27.png" medium="image" type="image/png" height="81" width="144"/>
</item>
<item>
  <title>Imunidade de Rebanho não é esperança para o Brasil</title>
  <link>https://thomasvconti.com.br/2020/imunidade-de-rebanho-nao-e-esperanca-para-o-brasil/</link>
  <description><![CDATA[ 




<p>O presidente tem defendido que a pandemia só vai parar quando atingirmos a imunidade de rebanho e que “<a href="https://apublica.org/2020/04/a-alternativa-ao-isolamento-e-muito-mais-gente-morrer-nao-tem-outra/">70% da população será infectada de toda forma</a>”. Segue explicação do que é <a href="https://www.bloomberg.com/news/articles/2020-04-14/how-herd-immunity-works-offering-key-to-pandemic-s-end-graphic">imunidade de rebanho</a> e por que essa segunda afirmação é errada e muito perigosa.</p>
<p>O contágio do vírus ocorre quando uma pessoa contagiosa encontra uma vulnerável. Quanto menos pessoas ela encontrar, menor a velocidade. Conforme população é infectada e se cura, parte adquire imunidade e com isso se tornam um freio natural ao contágio, como ilustra a imagem abaixo:</p>
<p><a href="imunidade-de-rebanho-bloomberg-thomas-conti-crise-tr-cc5a0c.png" class="lightbox" data-gallery="quarto-lightbox-gallery-1"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/imunidade-de-rebanho-nao-e-esperanca-para-o-brasil/imunidade-de-rebanho-bloomberg-thomas-conti-crise-tr-cc5a0c.png" class="img-fluid" width="600"></a></p>
<p>No entanto, é preciso que percentual muito grande da população seja infectado para que essa imunidade seja relevante. Uma aproximação é a fórmula <a href="https://twitter.com/CT_Bergstrom/status/1252075528711860224">1-1/R0</a>. No caso do Covid, isso significa entre <a href="https://wwwnc.cdc.gov/eid/article/26/7/20-0282_article">55% e 82% da população total</a>.</p>
<p>Se supusermos uma taxa de letalidade real muito otimista de 0,3% e imunidade de rebanho muito otimista a partir de 55% da população infectada, estaríamos falando de pelo menos 346 mil mortos. Não parece um número que trará alguma tranquilidade para a população brasileira.</p>
<p>Mas a imunidade de rebanho é apenas um % da população que a epidemia naturalmente começa a frear. Ela NÃO para de imediato. Há um “overshoot”: infecções que continuam após o ponto de imunidade, apenas o fazem mais lentamente. Por exemplo, com imunidade de rebanho começando em 60% da população total, <a href="https://twitter.com/CT_Bergstrom/status/1252008428542681088">outros 30% da população seriam infectados</a>, como ilustra a figura abaixo.</p>
<p><a href="https://twitter.com/CT_Bergstrom/status/1252008428542681088"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/imunidade-de-rebanho-nao-e-esperanca-para-o-brasil/overshoot-imunidade-de-rebanho-carl-bergstrom-thomas-conti.jpg" class="img-fluid" width="600"></a></p>
<p>Ou seja, se assumirmos essa imunidade de rebanho de 70% que fala o presidente e o overshoot que começará a partir dela, praticamente 100% da população seria infectada. O que ele está defendendo é o mesmo que não fazermos nada e aceitarmos a letalidade cheia do coronavírus.</p>
<p>A situação se torna ainda mais grave dado que o mundo ainda não tem conhecimento pleno sobre como funciona a imunidade ao coronavírus, quão forte ela é e por quanto tempo dura. Na Coreia do Sul, <a href="https://www.wsj.com/articles/south-koreas-new-coronavirus-twist-recovered-patients-test-positive-again-11587145248">160 pessoas que já tiveram o vírus testaram positivo de novo</a>.</p>
<p>É possível que essas reinfecções sejam casos do vírus dormente no corpo, sem se recuperarem por completo, e depois de um tempo com alta o vírus voltou a criar uma infecção generalizada. Mas ainda não sabemos ao certo e esse desconhecimento precisa ser levado em conta em uma eventual decisão de não fazer nada.</p>
<p>Outro ponto que faz o mundo preferir não arriscar o coronavírus infectar todos é que não sabemos a extensão do dano que ele causa nos pacientes recuperados. Há pesquisas sobre <a href="https://www.hopkinsmedicine.org/health/conditions-and-diseases/coronavirus/what-coronavirus-does-to-the-lungs">perda de capacidade pulmonar</a>, <a href="https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.04.05.20053819v1">dano ao coração e rins em pacientes recuperados</a>.</p>
<p>Por fim, essa fala ignora que todo o esforço de contenção da pandemia é no limite uma gestão do tempo. 70% ser infectado em 2 meses de forma descontrolada é muito diferente de ocorrer em 2 anos de forma controlada. É a diferença entre a saúde colapsar ou não e salvar muitas vidas.</p>
<p>É possível conter o contágio para que ele não atinja 70% da população ou só avance tanto após termos remédios e tratamentos eficazes. É possível suprimir a primeira onda. Para um apanhado mais longo do que epidemiologistas, economistas e outros pesquisadores do mundo estão propondo, vale a pena dar uma olhada no meu estudo sobre a <a href="../../pubs/coronavirus/index.html">Crise Tripla do Covid-19</a>.</p>



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  <category>Ciência</category>
  <guid>https://thomasvconti.com.br/2020/imunidade-de-rebanho-nao-e-esperanca-para-o-brasil/</guid>
  <pubDate>Mon, 20 Apr 2020 03:00:00 GMT</pubDate>
  <media:content url="https://thomasvconti.com.br/2020/imunidade-de-rebanho-nao-e-esperanca-para-o-brasil/imunidade-de-rebanho-bloomberg-thomas-conti-crise-tr-cc5a0c.png" medium="image" type="image/png" height="70" width="144"/>
</item>
<item>
  <title>O imenso prejuízo do Lockdown Endógeno</title>
  <link>https://thomasvconti.com.br/2020/o-imenso-prejuizo-do-lockdown-endogeno/</link>
  <description><![CDATA[ 




<p>Entendo que há um erro grave de construção de cenários econômicos para o Brasil de 2020 que está efetivamente impedindo empresas - ou pior, governos - de mensurar os custos econômicos reais das alternativas que nos aguardam em um futuro próximo. O erro está escondido no gráfico abaixo, retirado de um informativo do Banco Central disponibilizado em 20 de março de 2020:</p>
<p><a href="https://bit.ly/2yfUOmq"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/o-imenso-prejuizo-do-lockdown-endogeno/curva-epidemiologica-e-de-recessao-banco-central-2020-03-20.jpeg" class="img-fluid" width="600"></a></p>
<p>Este é um gráfico conceitual do comportamento esperado da economia (quadrante inferior do gráfico) e dos novos casos de hospitalizados por Covid-19 (quadrante superior do gráfico).</p>
<p>Esta parte superior é uma representação incompleta do comportamento da curva epidemiológica do coronavírus, algo esperado dado o conhecimento que temos a partir de estudos da área com modelos SEIR (<strong>S</strong>usceptíveis, <strong>E</strong>xpostos, <strong>I</strong>nfectados e <strong>R</strong>ecuperados).</p>
<p>Já a parte inferior é uma representação do comportamento da economia segundo o modelo econômico de… modelo? Que modelo? Pois é, não tem modelo.</p>
<p>Se crises econômicas em geral já são eventos raros e únicos o suficiente para impedir a construção de uma teoria econômica de aplicação geral sobre eles, pandemias como esta do coronavírus são ainda mais raras. Economistas foram pegos desprevenidos e com muito pouco já pronto para oferecer em uma situação dramática como essa. Modelos mais sofisticados têm sido criados no último mês, porém nenhum deles está por trás da curva mais suave de recessão no cenário de pandemia descontrolada acima.</p>
<p>Assim, as curvas de recessão com e sem políticas de contenção esboçadas acima são desprovidas de qualquer fundamento científico. Também não têm nenhuma criatividade. Se por um golpe de sorte elas estiverem corretas, elas sugerem que as medidas de contenção são eficazes para achatar a curva de novos casos do coronavírus, mas por outro lado aumentam o efeito recessivo da crise.</p>
<p>A intuição por trás do raciocínio é que isolar as pessoas em casa, fechar atividades produtivas ou reduzir o ritmo usual delas têm um dano econômico muito grande. Não só muito grande. Ela sugere também que o dano é grande <strong>e maior</strong> que o dano econômico esperado de um cenário da pandemia do coronavírus se expandindo sem nenhuma contenção. Isso faz sentido?</p>
<p>À luz da experiência internacional até o momento, parece que não.</p>
<p>O que vimos na Itália, depois na Espanha, em seguida no Reino Unido, depois nos Estados Unidos, é que tudo indica que a grande maioria das pessoas <strong>não aguenta</strong> ver a quantidade de mortos por dia que a pandemia tende a criar na sua velocidade máxima e seguir uma “vida normal”. Conforme o número de mortos e hospitalizados aumenta a cada dia, a aversão ao risco da população também aumenta a cada dia.</p>
<p>E a partir de um certo nível de óbitos por dia e de uma dada velocidade de crescimento desse número, a resiliência social à tragédia simplesmente quebra. Pode ser a imagem de <a href="https://www.businessinsider.com/coronavirus-italy-army-transport-coffins-bergamo-morgue-crisis-video-2020-3">comboios funerários</a> como na Itália; médicos de um dos melhores sistemas de saúde do mundo <a href="https://www.bloomberg.com/news/articles/2020-03-21/europe-s-desperate-doctors-are-shielded-by-trash-bags">usando sacos de lixo como proteção</a> como na Espanha; um <a href="https://www.bbc.com/news/uk-england-birmingham-52067885">aeroporto sendo convertido em necrotério</a> como no Reino Unido; <a href="https://www.theguardian.com/global/video/2020/apr/10/aerial-video-shows-mass-grave-on-new-york-citys-hart-island-amid-coronavirus-surge-video">valas comuns</a> e <a href="https://www.nytimes.com/2020/04/10/nyregion/new-york-coronavirus-death-count.html">800 corpos jogados dentro de casas</a> para serem retirados em um dia em Nova York… as pessoas não aguentam. Se fosse um dia disso, seria mais fácil. Mas depois de ver isso uma vez e imaginar que amanhã será pior, e depois de amanhã ainda pior, dia após dia durante semanas é avassalador. A demanda social se torna clara: alguém só faça isso parar, por favor.</p>
<p>Entra o que estou chamando de <strong>Lockdown Endógeno</strong>.</p>
<p>O <strong>Lockdown Endógeno</strong> é uma medida de isolamento social fortíssima, de supressão, que vem em função do medo crescente da sociedade diante da aceleração do número de mortos da curva não-controlada da pandemia. Esse medo torna a população mais disposta a aceitar, na verdade faz a população demandar, uma política de isolamento de supressão mais forte. Vimos isso acontecer na Itália, Espanha, Reino Unido e agora cada vez mais nos EUA. O objetivo dessa política de supressão é reduzir o fator R0 da pandemia para menos que 1, fazendo com que dentro de 15-20 dias o número de novos casos passe a efetivamente diminuir, ao invés de aumentar mais lentamente.</p>
<p>Por oposição, o <strong>Lockdown Exógeno</strong> seria a mesma medida de isolamento de supressão, porém adotada não em função do medo crescente e trauma social, mas como política pública deliberada de prevenção da curva de contágio mais danosa para a saúde pública. Outras medidas menos fortes seriam também exógenas nesse sentido, se adotadas como forma de prevenção ao invés de em reação a um quadro descontrolado.</p>
<p>Em posse desses conceitos, podemos voltar ao gráfico conceitual das curvas da pandemia e de recessão que iniciam este texto. <strong>Minha hipótese é que o cenário econômico mais provável de ocorrer diante da curva epidêmica sem medidas de prevenção é um cenário em que ocorre um</strong> Lockdown Endógeno <strong>em algum ponto da curva ascendente de novos casos da pandemia.</strong> Esse lockdown ocorreria porque a sociedade percebe apenas durante o aumento do número de casos que a situação de risco à saúde pública, colapso hospitalar e colapso funerário é insustentável e passa a preferir o isolamento mais forte do que continuar assistindo à tragédia.</p>
<p>A evidência que tenho a favor dessa hipótese é que até agora nenhum país conseguiu permanecer muitos dias no caminho da curva de contágio não-controlada sem ter que recorrer ao Lockdown muito antes de atingir o pico de contágio descontrolado.</p>
<p>Países como Singapura, Japão, Vietnã, Taiwan e Hong Kong não são contra-evidências, pois apesar de não terem precisado até o momento de um isolamento de supressão, eles adotaram medidas preventivas e nunca chegaram a experimentar a curva de contágio descontrolada por tempo suficiente para vermos se a sociedade aguentaria ou não passar por isso mantendo uma “vida normal”.</p>
<p>Levando em conta a hipótese de que o Lockdown Endógeno é o mais provável de ocorrer em reação à curva de contágio descontrolada, as opções de curva epidemiológica se tornam:</p>
<p><a href="Curva-epidemiologica-com-lockdown-endogeno-thomas-co-6b19e2.jpg" class="lightbox" data-gallery="quarto-lightbox-gallery-1"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/o-imenso-prejuizo-do-lockdown-endogeno/Curva-epidemiologica-com-lockdown-endogeno-thomas-co-6b19e2.jpg" class="img-fluid" width="600"></a></p>
<p>Essa medida de isolamento que estou chamando de Lockdown Endógeno seria mais forte que a atualmente vigente na maior parte dos estados brasileiros. Seria forte como o que vimos Em Wuhan na China, Itália, França e Espanha. Os modelos epidemiológicos são unânimes que quanto maior o número de infectados quando da adoção de um isolamento mais forte, menos eficaz é o isolamento. Isso significa que esse isolamento forte não conseguiria conter o colapso do sistema e retornar a um padrão sustentável rapidamente.</p>
<p>O que aconteceria com a economia nesse quadro? Sofreria um impacto muito maior que com medidas moderadas de contenção. O fechamento seria próximo de total e a população ficaria isolada assistindo a cenas terríveis por pelo menos um mês. A figura abaixo representa conceitualmente esse cenário:</p>
<p><a href="Curva-de-recessao-com-lockdown-endogeno-thomas-conti-cc2094.jpg" class="lightbox" data-gallery="quarto-lightbox-gallery-2"><img src="https://thomasvconti.com.br/2020/o-imenso-prejuizo-do-lockdown-endogeno/Curva-de-recessao-com-lockdown-endogeno-thomas-conti-cc2094.jpg" class="img-fluid" width="600"></a></p>
<p>Temos evidências que o Lockdown Endógeno é tanto mais provável quanto pior fica o quadro da pandemia descontrolada? Evidências limitadas, mas temos sim. Por exemplo, a iniciativa <em>Coronavirus Government Response Tracker</em> da Universidade de Oxford criou um indicador para medir a força do isolamento adotado em cada país e quando foi adotado. Abaixo vemos alguns exemplos. Note como na maioria dos casos as medidas de isolamento mais fortes aparecem depois do aumento expressivo do número de casos, e não antes deles.</p>
<p><a href="https://www.bsg.ox.ac.uk/research/research-projects/coronavirus-government-response-tracker"><img src="https://www.bsg.ox.ac.uk/sites/default/files/inline-images/OxCGRT_six_countries.png" class="img-fluid" width="920"></a></p>
<p>Se o Lockdown Endógeno realmente for o cenário mais provável após relaxarmos restrições e o vírus voltar à sua velocidade normal, então o custo de oportunidade do relaxamento das últimas duas semanas está sendo terrivelmente subestimado.</p>
<p>Ao invés de chegarmos em maio com uma economia com novas regras sanitárias e completa adesão de comprometimento da população com essas novas regras, até o fim de maio e junho estaremos assistindo a um colapso acelerado da saúde e do sistema funerário que mudará a opinião pública no sentido de ser favorável a mais medidas de isolamento. Elas serão adotadas, e a essa altura terão perdido muito da sua eficiência, com custos econômicos e em vidas altíssimo e que seriam evitáveis se o risco do Lockdown Endógeno já estivesse incorporado nas análises de cenários alternativos hoje.</p>
<p>Este post é direcionado para chamar a atenção principalmente dos meus colegas economistas sobre isso. Mas uma descrição mais detalhada desse problema e de caminhos que podemos tomar está disponível no meu estudo <a href="../../pubs/coronavirus/index.html">Crise Tripla do Covid-19: um olhar econômico sobre as políticas públicas de combate à pandemia</a>.</p>



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  <category>Direito e Economia</category>
  <category>Economia</category>
  <category>Ensaios</category>
  <category>Política</category>
  <guid>https://thomasvconti.com.br/2020/o-imenso-prejuizo-do-lockdown-endogeno/</guid>
  <pubDate>Wed, 15 Apr 2020 03:00:00 GMT</pubDate>
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</item>
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  <title>Não é possível prever uma crise econômica. Mas por que?</title>
  <link>https://thomasvconti.com.br/2020/nao-e-possivel-prever-uma-crise-economica-mas-por-que/</link>
  <description><![CDATA[ 




<p>A principal razão para não conseguirmos prever uma crise econômica é que temos pouco conhecimento causal e preditivo sobre elas. Em dias incertos como essa semana que estamos, é importante saber disso para não cair em falsas promessas de gurus na mídia. Pois bem, mas vamos ao nosso problema. O que “não ter conhecimento causal e preditivo” quer dizer?</p>
<p>Considere por exemplo um historiador especialista no tema da Segunda Guerra Mundial. Ele domina toda a sequência de eventos políticos que levou à guerra. Se perguntado sobre a situação da Polônia, sabe responder como ela estava inserida no conflito, os antecedentes diplomáticos com a França, Alemanha, Rússia, enfim, nos mais sutis detalhes. Agora pergunte-o sobre o papel da Polônia em um possível conflito futuro com a Alemanha de hoje ou a Rússia de hoje e é evidente que ele não terá como dar uma resposta satisfatória. Isso não é uma falha dele. O ponto é que não foi isso que ele estudou, não é sobre isso que ele tem conhecimento.</p>
<p>O conhecimento que esse historiador tem é o que podemos chamar de descritivo e explicativo. É descritivo porque tem como objetivo descrever acuradamente os fatos envolvidos, está apoiado em documentos históricos e foram verificados por outros especialistas da área. E é explicativo porque suas interpretações de causas e efeitos procuram fornecer a melhor explicação possível para a sucessão de eventos que descreve, ante explicações alternativas. No debate entre historiadores, podem aparecer novos documentos que alterem a base de fatos relevantes ou novas teorias que alterem qual é a melhor explicação para os eventos. Porém, prever resultados não faz parte do desafio e não há como testar empiricamente uma série de interpretações históricas importantes para a narrativa.</p>
<p>A maior parte do conhecimento científico que temos sobre grandes crises econômicas é como esse conhecimento do historiador profissional, descritivo e explicativo.</p>
<p>Conhecimento do tipo causal e/ou preditivo é diferente. Considere por exemplo um conhecimento preditivo leigo, como “quanto mais o céu está cheio de nuvens escuras, maior a chance de chover”. Qualquer pessoa poderá facilmente concordar com a previsão acima. Porém a previsão é completamente genérica, não chega nem a arranhar a superfície de quão complexo são os fenômenos do clima. Mas isso não chega a ser um problema, porque ela não quer descrever o fenômeno com detalhe, ela só quer prever. Ela também não tem a ambição de estabelecer nenhuma relação de causa e efeito. Basta que seja mais provável que chova onde houver muitas nuvens escuras do que quando não houver, e terá servido ao seu propósito.</p>
<p>Temos algo análogo a “nuvens escuras” para prever grandes crises econômicas? Nada provado. Há quem destaque uma curva de juros invertida no mercado de títulos do tesouro dos EUA como preditiva de uma crise. Mas há casos em que isso não foi necessário e de toda forma só serviria para crises internacionais ou nos EUA. Há autores que defendem outros indicadores como preditores de crises, mas não espere algo que consiga dizer em que mês vão ocorrer, nem em que ano. Na maior parte dos casos, quem aparece como guru que “previu a crise” é alguém que falava todos os anos que ela viria até que uma hora ela veio. Para isso só é necessário o acaso, não há conhecimento real por trás.</p>
<p>Por fim, há teorias causais e conhecimento de causa e efeito. Considere por exemplo uma afirmação causal simples: “um aumento ou melhora da educação causa um aumento da renda”. De modo geral temos fortíssimas evidências de que isso é verdadeiro. Ainda assim, muitas vezes saber disso não será útil para prever a renda de nenhuma pessoa individualmente, nem será muito útil para explicar por que uma pessoa tem a renda que tem. Nesse caso a dificuldade de prever e de explicar decorre do fato de que a renda final é resultado não apenas do nível educacional, mas de um conjunto grande e relevante de vários fatores. Onde estudou, que região vive, com o que trabalha, como foi criado, o bairro que mora, o talento… dentre muitos outros. Incluindo, nesses vários outros, a sorte ou o puro acaso de ter achado uma ótima oportunidade de trabalho ou de criar uma empresa, ou de ter azar de nunca ter achado uma oportunidade média. Em geral, quanto mais causas diferentes e relevantes um evento têm, menos o conhecimento de uma dessas causas permitirá que possamos prever o resultado final.</p>
<p>E é por isso que não temos muito conhecimento causal sobre crises. Sabemos que elas têm muitas causas diferentes e sobrepostas. Algumas causas são de longo prazo, outras são uma sequências de eventos que podem se desencadear em semanas, dias, horas. A relação de cada causa com a outra é difícil de se estudar porque as crises nunca e repetem exatamente da mesma forma. Talvez um dia ocorra uma nova guerra mundial, mas ela será muito diferente da Segunda Guerra. São eventos praticamente únicos. Por fim, além da realidade de ter muitas causas, é razoável supor que o puro acaso desempenhe um papel relevante em explicar por que uma crise ocorreu quando ocorreu.</p>
<p>São esses os problemas de fundo que fazem com que a maior parte do conhecimento que temos sobre crises não ser do tipo preditivo ou causal. Sabemos muito sobre a crise de 2008, sobre a crise de 1929 e várias outras crises, mas as teorias que temos buscam descrever o que ocorreu e tentam fornecer a melhor explicação para algumas sequências importantes de eventos, ante explicações alternativas. Não é claro se faz sentido generalizar isso para outras crises, e mesmo caso se tente fazer isso a margem de erro continuaria tão grande que não seria muito diferente de um chute.</p>



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  <category>Ciência</category>
  <category>Direito e Economia</category>
  <category>Economia</category>
  <category>Filosofia</category>
  <category>História</category>
  <guid>https://thomasvconti.com.br/2020/nao-e-possivel-prever-uma-crise-economica-mas-por-que/</guid>
  <pubDate>Tue, 10 Mar 2020 03:00:00 GMT</pubDate>
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  <title>Sobre falsas promessas e falsas teorias</title>
  <link>https://thomasvconti.com.br/2020/sobre-falsas-promessas-e-falsas-teorias/</link>
  <description><![CDATA[ 




<p>Imaginem a seguinte situação: Um médico chamado Fulano é conhecido por querer atenção e fama. Fulano ganha destaque em toda parte afirmando que fumar cigarro cura o coronavírus, o que é um completo absurdo. Ainda assim, vários doentes acreditam e começam a fumar. Obviamente, a cura não vem. Tempos depois, vira manchete em um jornal: “A promessa do médico Fulano não vingou, a medicina está completamente errada!!”. Seria ridículo, não seria? Parece até impossível que alguém teria coragem de tirar uma conclusão dessas. Mas em economia isso não apenas é possível como acontece quase toda semana.</p>
<p>No caso, o médico falastrão são políticos e outras pessoas interessadas em chamar a atenção para si seja para ganhar apoio ou para ter outros tipos de ganho e influência. Essas pessoas são amplamente conhecidas por falar qualquer coisa que soe bem aos ouvidos do seu público. Elas não vão falar que fumar cura o coronavírus, mas vão falar sobre mudanças na lei que ocorrem em novembro de um ano mas fazem o PIB daquele ano crescer 1 ponto percentual a mais. Vão falar sobre aumento de gastos públicos ou cortes de gastos públicos pontuais que revertem completamente a trajetória da dívida pública, que vão levar a um crescimento mágico por efeito multiplicador ou que vão levar a um ganho imediato de confiança nas contas públicas também mágico. Vão falar sobre dois parágrafos de lei que mudam e de repente todos estão otimistas com o país e o câmbio vai cair a R$3,00, ou que mudaram dois parágrafos e agora estamos voltando à escravidão. Enfim, afirmações sem nenhum fundamento econômico, mas que chamam a atenção. E infelizmente a despeito de hoje política e mentira serem quase sinônimos, sempre vai ter quem acredite.</p>
<p>Mas quem vai escrever o artigo de jornal deduzindo que essas promessas mentirosas invalidam toda uma área do conhecimento? Um exemplo dramático aconteceu essa semana na Folha de São Paulo.[<a href="https://politica.estadao.com.br/blogs/gestao-politica-e-sociedade/economistas-liberais-precisam-ser-responsabilizados-pelo-baixo-crescimento/">1</a>] O professor de sociologia <a href="https://politica.estadao.com.br/blogs/gestao-politica-e-sociedade/economistas-liberais-precisam-ser-responsabilizados-pelo-baixo-crescimento/">Daniel Andrade da EAESP-FGV</a> inicia seu artigo descrevendo corretamente várias promessas que foram feitas por políticos e outros agentes interessados em um conjunto de “reformas liberais” descrevendo também que até agora em larga medida essas promessas não vingaram. No mínimo, prometeram muito mais crescimento e muito mais emprego do que vimos até agora. Até aí nenhuma novidade, vendedores de sonhos e especuladores vendendo sonhos e especulando.</p>
<p>O problema aparece quando o professor faz o mesmo pulo absurdo do exemplo que dei, onde um médico Fulano mentindo e alguém concluindo que por conta da mentira a medicina está errada. Da mesma forma, o professor Daniel Andrade identifica as promessas não cumpridas de candidatos e equipes econômicas e dessas promessas não cumpridas conclui que toda a teoria econômica ortodoxa está errada. De promessas não cumpridas ele conclui que a ideia de que existe um equilíbrio de mercado está errada. Também conclui que mercados não conseguem produzir resultados eficientes. Promessas políticas não se materializaram! Todos os modelos teóricos usados pelos acadêmicos estão errados!</p>
<p>Há um médico mentindo no youtube, logo é preciso mudar todos os livro-texto de medicina! Estão errados!</p>
<p>Esse tipo de erro não é só dele. Há uma intuição por trás que pode levar muita gente ao mesmo tipo de conclusão absurda e frequentemente leva, especialmente quando as conclusões estão alinhadas com aquilo que já se queria acreditar. A pergunta que o professor deveria ter se feito antes de pular em conclusões é: “Existe algum modelo teórico que permitiria dar credibilidade para as promessas que foram feitas? Ou ainda, quem prometeu esses números estava baseado em alguma teoria, alguma evidência, ou fabricou números sem pé nem cabeça?” Tivesse ele feito essa simples pergunta a bons pesquisadores (não a políticos), não teria concluído tamanho absurdo.</p>
<p>Durante o governo Temer lembro de figurões falando que a reforma trabalhista geraria 2 milhões de empregos. Sabe qual modelo teórico eles usaram para chegar nesse número? O modelo de uma reunião com o departamento de relações públicas deles. Talvez alguma pesquisa de opinião, mas provavelmente nem isso. Era um número fabricado, não existe modelo teórico na literatura para chegar em um número como esse.</p>
<p>Gente do governo atual ou alinhada/interessada afirmou que vencendo a eleição ou fazendo essa ou aquela reforma o câmbio chegaria a R$3,00 ou algo assim. Sabe qual modelo teórico permite prever câmbio futuro? Ele mesmo, modelo teórico nenhum. Sabemos de algumas coisas que afetam o câmbio e qual é o sentido desse impacto, mas também sabemos que na prática o câmbio é afetado por tudo que acontece no mundo inteiro e acaba que as variações cambiais reais que acontecem são basicamente movimentos aleatórios. Se alguém prometer câmbio ou prever câmbio podem ter certeza absoluta que é um palpite e que esse palpite não tem como ter desempenho muito melhor que um chute. Se existisse um modelo confiável desses para o câmbio ele renderia tanto dinheiro e tanta gente o usaria que ele deixaria de funcionar em pouco tempo por levar a posições de mercado similares.</p>
<p>Enfim, há muito mais que poderia ser dito aqui e o texto já ficou absurdamente longo. O resumo da ópera é que políticos podem prometer qualquer coisa e mentiras costumam ser mais atrativas que verdades. Logo, antes de tentar concluir que uma falsa promessa política demanda que se reescrevam os livros de uma área do conhecimento, cabe ao menos tentar se informar se o melhor conhecimento da área daria suporte àquelas promessas em primeiro lugar.</p>
<p>Nos casos citados por Daniel Andrade no artigo e nesses outros que eu citei aqui, a boa teoria não só não seria refutada pelas promessas não cumpridas, mas teria ajudado ele e várias outras pessoas a não acreditar nos números prometidos em primeiro lugar.</p>



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  <category>Ciência</category>
  <category>Economia</category>
  <category>Política</category>
  <guid>https://thomasvconti.com.br/2020/sobre-falsas-promessas-e-falsas-teorias/</guid>
  <pubDate>Thu, 05 Mar 2020 03:00:00 GMT</pubDate>
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  <title>Por que os anos 2010 foram a melhor década da humanidade (até agora)</title>
  <link>https://thomasvconti.com.br/2020/por-que-os-anos-2010-foram-a-melhor-decada-da-humanidade-ate-agora/</link>
  <description><![CDATA[ 




<p>Embora a década de 2010-2019 que se encerra[*] tenha sido mais uma “década perdida” para o Brasil, para o restante do mundo foi o exato oposto. O mundo provavelmente viveu sua melhor década até o momento. Segue uma lista de conquistas importantes da humanidade nos dez anos entre 2010 e 2019:</p>
<p>1. A quantidade de pessoas vivendo na pobreza extrema caiu pela metade, de 16% da população mundial em 2010 para 8% em 2019 (estimado). São ~400 milhões de pessoas a menos vivendo na extrema pobreza.</p>
<p>2. A taxa de mortalidade infantil caiu em um terço. Isso significa que de cada 1000 nascidos vivos, 9 crianças a mais viverão em 2019 do que em 2010.</p>
<p>3. A expectativa de vida ao nascer mundial subiu de 69,5 anos para 72,6 anos.</p>
<p>4. A mortalidade da malária, uma das doenças que mais mata no mundo, caiu em 33% desde 2010. São 200 mil pessoas a menos morrendo por ano.</p>
<p>5. A mortalidade do HIV caiu em 33% (500 mil pessoas a menos por ano que em 2010), novas infecções caíram em 16% e novas transmissões do HIV para crianças caíram em 41%, de 280 mil para 160 mil.</p>
<p>6. A taxa de mortes associadas com a poluição do ar caiu em 19%. O número é relevante, estima-se que quase 1 em cada 10 mortes no mundo está associada com a poluição do ar.</p>
<p>7. Países com leis que protegem as mulheres subiram de 53% para 78%.</p>
<p>8. O percentual de pessoas que vivem em países que criminalizam a homossexualidade caiu de 40% para 27%.</p>
<p>9. O número de países autoritários ao ponto de serem classificados como “não-livres” caiu de 34% para 26%.</p>
<p>10. De 72 materiais básicos de produção, o consumo de 66 deles atingiu seu pico e seu uso está em declínio. Estamos produzindo mais com menos. A eficiência energética da economia mundial aumentou em 17%.</p>
<p>Há muito trabalho ainda para ser feito, há muito o que melhorar, mas há muito o que se comemorar também. Que venham os anos 20!</p>
<p>Fontes:</p>
<p>[*] Está rolando uma discussão se a nova década começa agora em 2020 ou ano que vem em 2021. Pelo calendário gregoriano é 2021. Pela norma internacional ISO 8601 sobre datas e horas é 2020. Conclusão: tanto faz. Mas como o tema é absolutamente irrelevante, o melhor é não bancar o chato corrigindo o que não precisa.</p>
<p>1. <a href="https://bit.ly/2ZAp6d6?fbclid=IwAR0CTLh9pn6gNpBKe4WqYrIUrOaw51pZxuP15GD-mO7ATPdEVskRDWZ_ODM">http://bit.ly/2ZAp6d6</a></p>
<p>2. <a href="https://l.facebook.com/l.php?u=https%3A%2F%2Fbit.ly%2F2u04peV%3Ffbclid%3DIwAR2tXOoPh583dxfrGICM1D8FvWYbR0VfUsSj2fhpCW64J1nMAa4lIhLZ2Ww&amp;h=AT0QJNq8yx81J9p3p7whLrmIZH0MQEUF3oqGPPmijwVqiB2NheNZzgxhxfjWQCHzN7jZvc2ULXAbX2N0Th3-FVnukGHzd8f-yV90vMlbbZoTkWcFryA913dU4dYYXVRwZnqPuPcaakALkaXuDuaFEadSSpXVvoo1-sDcvlWNrGyWoXxMVg">http://bit.ly/2u04peV</a><br>
3. <a href="https://bit.ly/2MHXwFB?fbclid=IwAR08TvdLbz0rUFCEQK2_WkT8TZtbekcH68Riw7HO1MJzTiPiNFOCWVK0bL8">http://bit.ly/2MHXwFB</a><br>
4. <a href="https://bit.ly/2SDGpsl?fbclid=IwAR1BRl2V9e47zBY9NQFTgAfstASh_oRo5Bl6Lw6ZtCafQXi4GLtByQQfyMk">http://bit.ly/2SDGpsl</a><br>
5. <a href="https://bit.ly/365Np5f?fbclid=IwAR3WFFJK4cTRMsLdtQwFFk0YLqFE0new3wGsENF_jj-aOEU7wDP-4vgPuPw">http://bit.ly/365Np5f</a><br>
6. <a href="https://l.facebook.com/l.php?u=https%3A%2F%2Fbit.ly%2F37o58oN%3Ffbclid%3DIwAR1lmCpXLbMkU2E-h4C2YZqcUTJcmphr_Fy_f4_ZwgBXimbMMH6R7xfbqSc&amp;h=AT1vfbJIB7wR3cuFKnCgfLL2t9O6-iLPV5dQs1P_dXddoK8Du7h5pLCai5MjqFZhneD4N0-YyAt5sapx4L_Tsv-Dokmz2BgdyPNf1EDLAY7s-lSUwtlwwIxmZFdKucUOQtSINTWcA0srZa9OhnEnr4GtHII9-Tkj6S2Y72fa5_JIg09c3Q">http://bit.ly/37o58oN</a><br>
7. <a href="https://l.facebook.com/l.php?u=https%3A%2F%2Fbit.ly%2F2tfx3Zc%3Ffbclid%3DIwAR0c7ifAJz2wt4sUxUH3wdZcVMNRN8GASHPoTt46MmCW_lM5x5TFE46I6AY&amp;h=AT39zfmi5BaSFBGtrF1gBHqH6AyfBuPxA9jVuQO8aWHufGoWqKygACOtrqwz279CKU-k1hE2pDVrucg6i5G7GjNeUEGdIA8NJJuSeXEa9WQqpanrWkYGwvntJiC1ugxI5tq7E4e2YjHL_5vT1yrBTtOe8WIIiQFHdMEqC1eDheAehi5L0w">http://bit.ly/2tfx3Zc</a><br>
8. <a href="https://l.facebook.com/l.php?u=https%3A%2F%2Fbit.ly%2F2MGzfQm%3Ffbclid%3DIwAR1sSb-jX02GyLoOGUtA12sHN8SUPmRULCsN3tOEtChLtx_t0M31si_93iU&amp;h=AT2ocxAtrmdu_cYaCeTp5Qu-1Lf9U75aZJ1gtJj18e-2HIbHfJMPFus0tzJQoID8hlhpS3umtQy9PJFH5FHAELfFsVuijoBkaVNDWCrmb-2ZjM5MTc-RuuHL70zFXJvAYoBFbllr7tXqrjdX-Q-b0N8Jboytrr4v940MhQFR5INv3dbd_Q">http://bit.ly/2MGzfQm</a><br>
9. <a href="https://l.facebook.com/l.php?u=https%3A%2F%2Fbit.ly%2F2MF3Hdu%3Ffbclid%3DIwAR0fP7OVF-u28XQ9gnkbCOvc0j22itEjSCyK9zCGl5yzbFdtautTt3cj8uw&amp;h=AT1pKtwDRTfOwEPJNOEq8zTb2L0D41flptj4a3pIcdzNBS_RDG0BLA22qF1_oaB7kJP1VhwB42HTF0PLOc8SrFnaQoXOT6EWsmbPEd-cd2RDheOXyvY-s611QrowmSjASaWzb4TrP7cfgWPRIlJoD5I0F5AKj4EZR6-MQmMqSV3bDXNGqJlVynXp2MdJVUw">http://bit.ly/2MF3Hdu</a><br>
10. <a href="https://l.facebook.com/l.php?u=https%3A%2F%2Fbit.ly%2F35a9vSS%3Ffbclid%3DIwAR3kJZu6E1OK4OOYP_QWBrPGlVdMiCG1-AtbUQ_5ZuMo7U5zHPn_yNdMDFI&amp;h=AT1z2Anf07fTDizrJ0qAZ-k0lOzk-YSpS6zSrJUvPIOadTblu5OGahuc73NWwcKatFpv383h_6ML4SV7p-Rlmeja6IZWya9u-bR0Q-AhmHnjE453dM0hmAmadL9dRdK6QdwmbJ6wzSGQ_bUHuezaCxda4retgvTCv3Vt_7nqM0gIdC5dew">http://bit.ly/35a9vSS</a> e <a href="https://bit.ly/37lXYBl?fbclid=IwAR2RUIQKAy19J6wzDrDl1929cfk4qDzi47ZDkw0IUUt0ICyJVJmG2hdpSVw">http://bit.ly/37lXYBl</a></p>



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  <category>Ciência</category>
  <category>Economia</category>
  <category>História</category>
  <category>Opinião</category>
  <guid>https://thomasvconti.com.br/2020/por-que-os-anos-2010-foram-a-melhor-decada-da-humanidade-ate-agora/</guid>
  <pubDate>Fri, 03 Jan 2020 03:00:00 GMT</pubDate>
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<item>
  <title>O guia da Nature para decisões informadas</title>
  <link>https://thomasvconti.com.br/2019/o-guia-da-nature-para-decisoes-informadas/</link>
  <description><![CDATA[ 




<section id="conceitos-chave-para-tomar-decisões-informadas" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="conceitos-chave-para-tomar-decisões-informadas"><strong>Conceitos-chave para tomar decisões informadas</strong></h2>
<section id="usando-esses-conceitos-ensine-as-pessoas-a-pensar-criticamente-sobre-alegações-e-comparações.-por-aronson-jeffrey-et.-al." class="level3">
<h3 class="anchored" data-anchor-id="usando-esses-conceitos-ensine-as-pessoas-a-pensar-criticamente-sobre-alegações-e-comparações.-por-aronson-jeffrey-et.-al.">Usando esses conceitos, ensine as pessoas a pensar criticamente sobre alegações e comparações. Por Aronson, Jeffrey <em>et. al.</em></h3>
<hr>
<p><strong>Tradução do artigo:</strong></p>
<p>Aronson, J. K., Barends, E., Boruch, R., Brennan, M., Chalmers, I., Chislett, J., … Vale, L. (2019). <a href="https://doi.org/10.1038/d41586-019-02407-9">Key concepts for making informed choices</a>. <em>Nature</em>, <em>572</em>(7769), 303–306.</p>
<p><em>(Alguns hyperlinks no texto foram adicionados por mim para facilitar o encontro das obras citadas.)</em></p>
<p><a href="O-guia-da-Nature-para-decisoes-informadas.-2019.pdf"><strong>Baixar este texto</strong> <strong>em PDF.</strong></a></p>
<hr>
<p>Todo mundo faz afirmações sobre o que funciona. Políticos afirmam que o policiamento de “parar e procurar” (<a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Terry_stop"><em>stop and frisk</em></a>) reduzirá os crimes violentos; amigos podem afirmar que as vacinas causam autismo; os anunciantes declaram que a comida natural é saudável. Um grupo de cientistas descreve que, em algumas áreas, dar a todas as crianças em idade escolar pílulas vermífugas foi uma das mais potentes intervenções antipobreza do nosso tempo. Outro grupo considera que isso não melhorou a saúde ou o desempenho das crianças na escola.</p>
<p>Infelizmente, muitas vezes as pessoas não conseguem pensar criticamente sobre a confiabilidade das alegações, incluindo os formuladores de políticas que ponderam sobre o que os cientistas pensaram. <a href="http://bit.ly/2zl2G3s">As escolas não fazem o suficiente para preparar os jovens para pensar criticamente</a>. Tantas pessoas lutam para avaliar evidências. Como conseqüência, eles podem fazer escolhas ruins.</p>
<p>Para resolver esse déficit, apresentamos aqui um conjunto de princípios para avaliar a confiabilidade das alegações sobre o que funciona e para fazer escolhas informadas (consulte “Conceitos-chave para escolhas informadas”). Esperamos que cientistas e profissionais de todos os campos avaliem, usem e comentem. Os recursos foram adaptados aproveitando a <a href="http://dx.doi.org/10.1136/ebmed-2017-110829">experiência de duas dúzias de pesquisadores a partir de uma estrutura desenvolvida para os cuidados de saúde</a> (ver “Experimento randomizado”).</p>
<p>Idealmente, esses conceitos devem ser incorporados na educação para cidadãos de todas as idades. Isso deve ser feito usando recursos de aprendizado e estratégias de ensino que foram avaliados e demonstraram ser eficazes.</p>
</section>
<section id="principais-conceitos-para-escolhas-informadas" class="level3">
<h3 class="anchored" data-anchor-id="principais-conceitos-para-escolhas-informadas">PRINCIPAIS CONCEITOS PARA ESCOLHAS INFORMADAS</h3>
<p><strong>ALEGAÇÕES</strong><br>
Alegações sobre efeitos devem ser apoiadas por evidências de comparações justas. Outras reivindicações não são necessariamente erradas, mas há uma base insuficiente para acreditar nelas.</p>
<p><strong>As alegações não devem pressupor que as intervenções sejam seguras, efetivas ou certas.</strong><br>
• As intervenções podem causar danos assim como benefícios.</p>
<p>• Efeitos grandes e dramáticos são raros.</p>
<p>• Raramente, ou nunca, podemos ter certeza sobre os efeitos das intervenções.</p>
<p><strong>Pressupostos aparentemente lógicos não são uma base suficiente para reivindicações.</strong><br>
• Crenças, sozinhas, sobre como as intervenções funcionam não são preditores confiáveis ​​da presença ou tamanho dos efeitos.</p>
<p>• Um resultado pode estar associado a uma intervenção, mas não causado por ela.</p>
<p>• Mais dados não significa necessariamente dados melhores.</p>
<p>• Os resultados de um estudo considerado isoladamente podem ser enganosos.</p>
<p>• Intervenções amplamente utilizadas ou aquelas que foram usadas por décadas não são necessariamente benéficas ou seguras.</p>
<p>• Intervenções novas ou tecnologicamente impressionantes podem não ser melhores que as alternativas disponíveis.</p>
<p>• Aumentar o tamanho de uma intervenção não aumenta necessariamente seus benefícios e pode causar danos.</p>
<p><strong>Confiança em uma fonte sozinha não é uma base suficiente para acreditar em uma alegação.</strong><br>
• Interesses concorrentes podem resultar em alegações enganosas.</p>
<p>• Experiências pessoais ou anedotas por si só são uma base não confiável para a maioria das reivindicações.</p>
<p>• Opiniões de especialistas, autoridades, celebridades ou outros indivíduos respeitados sozinhas não são uma base confiável para alegações.</p>
<p>• A revisão por pares e a publicação por um periódico não garantem que as comparações tenham sido justas.</p>
<p><strong>COMPARAÇÕES</strong><br>
Os estudos devem fazer comparações justas, projetadas para minimizar o risco de erros sistemáticos (vieses) e erros aleatórios (o jogo do acaso).</p>
<p><strong>Comparações de intervenções devem ser justas.</strong><br>
• Os grupos e condições de comparação devem ser tão semelhantes quanto possível.</p>
<p>• Comparações indiretas de intervenções em diferentes estudos podem ser enganosas.</p>
<p>• As pessoas, grupos ou condições que estão sendo comparados devem ser tratados de forma semelhante, além das intervenções em estudo.</p>
<p>• Os resultados devem ser avaliados da mesma forma nos grupos ou condições comparados.</p>
<p>• Os resultados devem ser avaliados usando métodos que se mostraram confiáveis.</p>
<p>• É importante avaliar os resultados em todas (ou quase todas) as pessoas ou participantes de um estudo.</p>
<p>• Quando a alocação aleatória é usada, os resultados das pessoas ou dos participantes devem ser contados no grupo ao qual foram alocados.</p>
<p><strong>Sínteses de estudos devem ser confiáveis.</strong><br>
• Revisões de estudos comparando intervenções devem usar métodos sistemáticos.</p>
<p>• Não considerar resultados não publicados de comparações justas pode influenciar as estimativas de efeitos.</p>
<p>• Comparações de intervenções podem ser sensíveis a pressupostos subjacentes.</p>
<p><strong>As descrições devem refletir o tamanho dos efeitos e o risco de serem enganados por acaso.</strong><br>
• Descrições verbais do tamanho dos efeitos por si só podem ser enganosas.</p>
<p>• Pequenos estudos podem ser enganosos.</p>
<p>• Intervalos de confiança devem ser relatados para estimativas de efeitos.</p>
<p>• A obtenção de resultados como “estatisticamente significativos” ou “não significativos” pode ser enganosa.</p>
<p>• A falta de evidência de uma diferença não é o mesmo que a evidência de nenhuma diferença.</p>
<p><strong>ESCOLHAS</strong><br>
O que fazer depende de julgamentos sobre o problema, a relevância (aplicabilidade ou transferibilidade) das evidências disponíveis e o equilíbrio dos benefícios, danos e custos esperados.</p>
<p><strong>Problemas, objetivos e opções devem ser definidos.</strong><br>
• O problema deve ser diagnosticado ou descrito corretamente.</p>
<p>• Os objetivos e opções devem ser aceitáveis ​​e viáveis.</p>
<p><strong>A evidência disponível deve ser relevante.</strong><br>
• A atenção deve se concentrar nos resultados importantes, e não substitutos, das intervenções.</p>
<p>• Não deve haver diferenças importantes entre as pessoas nos estudos e aquelas a quem os resultados do estudo serão aplicados.</p>
<p>• As intervenções comparadas devem ser semelhantes às de interesse.</p>
<p>• As circunstâncias em que as intervenções foram comparadas devem ser semelhantes às de interesse.</p>
<p><strong>Benefícios esperados devem superar os contras.</strong><br>
• Pesar os benefícios e economias contra os danos e custos de agir ou não agir.</p>
<p>• Considere como estes são valorizados, sua certeza e como eles são distribuídos.</p>
<p>• Incertezas importantes sobre os efeitos das intervenções devem ser reduzidas por outras comparações justas.</p>
</section>
<section id="evidência-confiável" class="level3">
<h3 class="anchored" data-anchor-id="evidência-confiável"><strong>Evidência confiável</strong></h3>
<p>As pessoas estão inundadas de informações. Simplesmente dar-lhes mais é improvável que seja útil, a menos que seu valor seja compreendido. Uma pesquisa de 2016 no Reino Unido mostrou que <a href="http://bit.ly/2HsW8UC">apenas cerca de um terço do público confia em evidências de pesquisas médicas; cerca de dois terços confiam nas experiências de amigos e familiares</a>.</p>
<p>Nem todas as evidências são criadas iguais. No entanto, as pessoas geralmente não apreciam quais reivindicações são mais confiáveis ​​do que outras; que tipo de comparações são necessárias para avaliar propostas diferentes de forma justa; ou que outras informações precisam ser consideradas para informar boas escolhas.</p>
<p>Por exemplo, muitas pessoas não entendem que duas coisas podem ser associadas sem que uma cause necessariamente a outra. A mídia às vezes perpetua esse problema usando uma linguagem que sugere que causa e efeito foram estabelecidos <a href="https://doi.org/10.1371/journal.pone.0196346">quando não o foram</a> - por exemplo, declarações como “o café pode matar você” ou “beber um copo de cerveja por dia pode fazer você viver mais”. Pior ainda, <a href="https://doi.org/10.1371/journal.pone.0168217">alegações causais exageradas muitas vezes apimentam comunicados de imprensa de universidades e periódicos</a>.</p>
<p><strong>EXPERIMENTO ALEATÓRIO</strong></p>
<p>O Projeto de Escolhas de Saúde Informadas (IHC) foi inicialmente desenvolvido entre 2012 e 2017 por uma colaboração que incluiu alguns dos co-autores deste artigo (A.D.O., A.D., I.C. e M.O.). O projeto inclui <a href="http://bit.ly/2HsW8UC">seu próprio conjunto de conceitos-chave</a>, recursos para aprendizado e um banco de dados de <a href="https://www.informedhealthchoices.org/claim-evaluation-tools/">perguntas de múltipla escolha para avaliar quão bem os usuários conseguem aplicar os conceitos</a>.</p>
<p>Em 2016, um ensaio randomizado envolvendo 120 escolas e mais de 10.000 crianças em idade escolar em Uganda mostrou que esses recursos <a href="https://doi.org/10.1016/S0140-6736(17)31226-6">melhoraram a capacidade de crianças de 10 a 12 anos de idade de aplicar 12 dos conceitos-chave</a>. Esses conceitos incluem, por exemplo, reconhecer que apenas experiências pessoais são uma base insuficiente para alegações sobre efeitos, e que pequenos estudos podem ser enganosos.</p>
<p>Neste estudo, 69% das crianças que aprenderam os conceitos-chave passaram por um teste de múltipla escolha sobre sua capacidade de pensar criticamente sobre alegações de saúde. Em comparação, apenas 27% das crianças que não foram informadas sobre os conceitos passaram no mesmo teste.</p>
<p>Estudos que fazem comparações justas são cruciais, mas as pessoas muitas vezes não sabem avaliar a validade da pesquisa. Revisões sistemáticas que sintetizam estudos bem desenhados e relevantes para questões claramente definidas são mais confiáveis ​​do que observações aleatórias. Isso ocorre porque eles são menos suscetíveis a vieses (distorções sistemáticas) e ao jogo do acaso (erros aleatórios). No entanto, os resultados de estudos individuais são freqüentemente relatados isoladamente, como fatos. Daí os familiares vai-e-vens de manchetes como “chocolate é bom para você”, seguido na próxima semana por “chocolate é ruim para você”.</p>
<p>Para fazer boas escolhas, outros tipos de informação também são necessárias - por exemplo, sobre custos e viabilidade. Julgamentos também devem ser feitos sobre a relevância da informação da pesquisa (como aplicável ou transferível) e sobre o equilíbrio entre os prováveis ​​efeitos desejáveis ​​e indesejáveis ​​de um medicamento, terapia ou regulação.</p>
<p>Quando se trata de impostos sobre carbono, por exemplo, os formuladores de políticas precisam considerar evidências sobre os efeitos ambientais e econômicos de tais impostos, julgar quão comparável é seu contexto com o dos estudos e avaliar quão onerosas são as dificuldades administrativas. Eles também precisam modelar como as cargas tributárias serão distribuídas entre os grupos socioeconômicos e pensar se os impostos serão aceitos em suas jurisdições.</p>
</section>
<section id="pensamento-crítico" class="level3">
<h3 class="anchored" data-anchor-id="pensamento-crítico"><strong>Pensamento crítico</strong></h3>
<p>Indivíduos e organizações em muitos campos estão trabalhando para permitir que as pessoas tomem decisões informadas. Esses esforços incluem sintetizar a melhor evidência disponível em revisões sistemáticas; tornar essas informações mais acessíveis, como por meio de resumos em linguagem simples ou acesso aberto; e ensinar as pessoas a usarem esses recursos. Exemplos de tais organizações de revisão são <a href="https://brazil.cochrane.org/">Cochrane</a> (anteriormente chamado de <a href="https://www.cochranelibrary.com/">Cochrane Collaboration</a>), que se concentra em cuidados de saúde; a <a href="https://campbellcollaboration.org/">Campbell Collaboration</a>, que analisa os efeitos das políticas sociais; a <a href="https://www.environmentalevidence.org/">Colaboração para Evidências Ambientais</a>; e a <a href="https://www.isehc.net/">Sociedade Internacional para Cuidados de Saúde Baseados em Evidências</a>. Outros incluem o <a href="https://www.cebma.org/">Centro de Gerenciamento Baseado em Evidências</a>, o <a href="https://africacentreforevidence.org/">Centro Africano pelas Evidências</a>, a <a href="https://www.3ieimpact.org/">Iniciativa Internacional para Avaliação de Impacto</a> (conhecida como 3ie) e o britânico <a href="https://www.gov.uk/government/publications/the-what-works-network-five-years-on">What Works Network</a>.</p>
<p>Infelizmente, os acadêmicos tendem a trabalhar em silos e podem perder oportunidades de aprender com os outros. A perícia dos autores deste artigo abrange 14 campos: agricultura, economia, educação, gestão ambiental, desenvolvimento internacional, saúde, aprendizagem informal, gestão, nutrição, saúde planetária, policiamento, fonoaudiologia, bem-estar social e medicina veterinária. .</p>
<p>Identificamos muitos conceitos que se aplicam a esses campos (consulte “Conceitos-chave para escolhas informadas” e “Conceitos-chave em ação”). Alguns outros conceitos são mais relevantes em alguns campos do que em outros. Por exemplo, muitas vezes é importante considerar possíveis efeitos de placebo ao avaliar alegações sobre tratamentos médicos e nutrição; raramente são relevantes para intervenções no meio ambiente.</p>
<p><strong>PRINCIPAIS CONCEITOS EM AÇÃO</strong></p>
<p><strong>Alegações</strong></p>
<p><strong>Só as crenças sobre como as intervenções funcionam não são preditores confiáveis ​​da presença ou tamanho dos efeitos.</strong></p>
<p>A maioria das pessoas acha que é difícil influenciar o envolvimento dos pais na educação dos filhos. A suposição é, portanto, que intervenções mais intensivas (e mais caras) seriam mais prováveis ​​de serem efetivas. No entanto, estudos de intervenções intensivas muitas vezes <a href="https://educationendowmentfoundation.org.uk/evidence-summaries/teaching-learning-toolkit/parental-engagement">não conseguiram mostrar efeitos sobre a realização dos alunos, conforme medido usando testes padrão</a>.</p>
<p>Enquanto isso, uma avaliação recente dos efeitos de simplesmente <a href="https://educationendowmentfoundation.org.uk/projects-and-evaluation/projects/texting-parents">enviar mensagens de texto aos pais semanalmente</a> com atualizações sobre a escolaridade de seus filhos teve efeitos positivos sobre a frequência das crianças, a submissão dos trabalhos de casa e o aproveitamento da matemática. Estes efeitos foram pequenos, mas o custo foi muito baixo. Isso ilustra que - ao contrário de nossos palpites - intervenções baratas podem ser úteis, e as caras podem falhar.</p>
</section>
<section id="comparações" class="level3">
<h3 class="anchored" data-anchor-id="comparações"><strong>Comparações</strong></h3>
<p><strong>As condições devem ser tão semelhantes quanto possível.</strong></p>
<p>Programas “Scared Straight” levam os jovens infratores a visitas às prisões, partindo do pressuposto de que essa experiência e ouvir as descrições da vida dentro dos internos tem efeito dissuasório sobre a delinquência juvenil. Alguns estudos descobriram que tais visitas às prisões foram seguidas por grandes reduções no comportamento delinquente. Mas muita coisa pode mudar em um grupo de jovens ao longo do tempo, incluindo o fato de se tornarem mais velhos e mais maduros. Como alguém pode saber que as visitas à prisão causaram a redução?</p>
<p>Experiências mais justas foram feitas, nas quais os jovens foram aleatoriamente designados para visitar a prisão ou não, criando grupos que eram mais comparáveis. As comparações entre esses grupos mostraram <a href="https://doi.org/10.1177/0011128700046003006">mais delinquência nos jovens expostos às prisões do que naqueles que não tinham</a>.</p>
</section>
<section id="escolhas" class="level3">
<h3 class="anchored" data-anchor-id="escolhas"><strong>Escolhas</strong></h3>
<p><strong>Quando há incertezas importantes sobre os efeitos das intervenções, elas devem ser reduzidas por comparações justas.</strong></p>
<p>No setor da saúde, os arranjos de financiamento nos quais os fundos são liberados somente se uma ação específica for tomada ou se a meta de desempenho for atingida se tornaram populares. Bilhões de dólares foram investidos na promoção desses arranjos em países de renda média e baixa <a href="https://doi.org/10.1093/heapol/czw045">com o objetivo de atingir metas internacionais de desenvolvimento</a>. Por exemplo, os profissionais de saúde receberam recompensas em dinheiro por aumentar a porcentagem de nascimentos em clínicas (em vez de em casa), com a intenção de melhorar a saúde e a sobrevivência materna e neonatal.</p>
<p>Mas os arranjos de financiamento baseados no desempenho podem ter efeitos adversos não intencionais, como encorajar os profissionais de saúde a falsificar registros ou negligenciar outras atividades. Na Tanzânia, algumas unidades de saúde <a href="https://doi.org/10.1093/heapol/czw045">ameaçaram novas mães com multas ou negação de vacinas para seus filhos</a>. Para intervenções em que há muita incerteza sobre os prós e contras, outras comparações justas devem ser feitas antes ou durante a implantação de tais esquemas.</p>
<p>Nossa colaboração já estimulou muitos de nós a desenvolver estruturas para campos específicos e sugerir melhorias para a estrutura original das <a href="http://10.12688/f1000research.16771.2">Escolhas de Saúde Informadas</a>. Há poder na identificação de um problema que ressoa em diferentes domínios; fornece impulso para alinhar os esforços.</p>
<p>Os principais conceitos para opções informadas não são uma lista de chegada. É um ponto de partida. Embora tenhamos organizado as ideias em três grupos (alegações, comparações e escolhas), elas podem ser usadas para desenvolver recursos de aprendizagem que incluam qualquer combinação desses, apresentados em qualquer ordem. Esperamos que os conceitos sejam úteis para pessoas que ajudam os outros a pensar criticamente sobre quais evidências devem confiar e o que fazer, incluindo aquelas que ensinam o pensamento crítico e as responsáveis ​​pela comunicação dos resultados da pesquisa.</p>
<p><strong>Próximos passos</strong></p>
<p>A prática informada por evidências é agora ensinada a profissionais em muitos campos diferentes, e esses esforços devem crescer. É também crucial que as crianças aprendam esses conceitos-chave, em vez de atrasar a aquisição dessas habilidades até a idade adulta. Os j<a href="https://doi.org/10.3102/0034654314551063">ovens que foram explicitamente ensinados a pensar criticamente fazem melhores julgamentos do que aqueles que não o foram</a>. Educar as pessoas sobre tais conceitos em uma idade jovem estabelece uma base importante para o aprendizado futuro.</p>
<p>Uma parte importante do trabalho de incentivar o pensamento crítico é aprender e compartilhar estratégias que promovam o ceticismo saudável, mas que evitem conseqüências adversas não intencionais. Estes incluem induzir o niilismo (extremo ceticismo); permitir alegações capciosas de que a incerteza é um argumento defensável contra a ação (sobre a mudança climática, por exemplo); ou encorajar falsas crenças - como a de que toda pesquisa não é confiável por causa de interesses conflitantes entre aqueles que promovem intervenções específicas.</p>
<p>Os interesses conflitantes assumem várias formas em diferentes campos, mas os desafios e soluções são semelhantes: reconhecimento de conflitos potenciais, transparência e avaliações independentes. Conseguir isso depende de uma melhor compreensão do público sobre a necessidade de avaliação independente e da demanda pública por investimento, assim como a comunicação imparcial dos resultados.</p>
<p>É necessário um maior desenvolvimento e especialização dos Conceitos Chave para as Escolhas Informadas e estamos abertos para receber sugestões. Por exemplo, é preciso dar mais atenção a como esses conceitos podem ser aplicados a ações para abordar mudanças em todo o sistema, levando em consideração interações complexas e dinâmicas e ciclos de feedback, como na mitigação da mudança climática ou nas estratégias de adaptação.</p>
</section>
<section id="referências" class="level3">
<h3 class="anchored" data-anchor-id="referências"><strong>Referências:</strong></h3>
<ol type="1">
<li>Bouygues, H. L. The State of Critical Thinking: A New Look at Reasoning at Home, School, and Work (Reboot Foundation, 2018).</li>
<li>Oxman, A. D., Chalmers, I., Austvoll-Dahlgren, A. &amp; Informed Health Choices group. F1000Research 7, 1784 (2018).</li>
<li>Academy of Medical Sciences. Enhancing the Use of Scientific Evidence to Judge the Potential Benefits and Harms of Medicines (Academy of Medical Sciences, 2017).</li>
<li>Haber, N. et al.&nbsp;PLoS ONE 13, e0196346 (2018).</li>
<li>Sumner, P. et al.&nbsp;PLoS ONE 11, e0168217 (2016).</li>
<li>Abrami, P. C. et al.&nbsp;Rev.&nbsp;Educ. Res. 85, 275–314 (2015).</li>
<li>Nsangi, A. et al.&nbsp;Lancet 390, 374–388 (2017).</li>
<li>Petrosino, A., Turpin-Petrosino, C. &amp; Finckenauer, J. O. Crime Delinq. 46, 354–379 (2000).</li>
<li>Petrosino, A., Turpin-Petrosino, C., Hollis-Peel, M. E. &amp; Lavenberg J. G. Cochrane Database Syst. Rev.&nbsp;CD002796 (2013).</li>
<li>Renmans, D., Holvoet, N., Orach, C. G. &amp; Criel, B. Health Pol. Plan. 31, 1297–1309 (2016)</li>
</ol>
<p><strong>Agradecimentos:</strong></p>
<p>Agradeço o <a href="http://revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2019/08/23/nature-publica-guia-sobre-pensamento-critico">Instituto Questão de Ciência</a> por divulgar sobre a publicação deste artigo na Nature. Aproveito para recomendar o leitor para conhecer o instituto, que faz um importante trabalho de divulgação e defesa do uso de evidências em políticas públicas no Brasil.</p>


</section>
</section>

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  <category>Ciência</category>
  <category>Tradução</category>
  <guid>https://thomasvconti.com.br/2019/o-guia-da-nature-para-decisoes-informadas/</guid>
  <pubDate>Tue, 27 Aug 2019 03:00:00 GMT</pubDate>
  <media:content url="https://thomasvconti.com.br/2019/o-guia-da-nature-para-decisoes-informadas/guia-nature-decisoes-informadas-politicas-publicas-b-5f402e.jpg" medium="image" type="image/jpeg"/>
</item>
<item>
  <title>A Política como ataque à Razão</title>
  <link>https://thomasvconti.com.br/2019/a-politica-como-ataque-a-razao/</link>
  <description><![CDATA[ 




<p><em>Texto publicado originalmente pelo autor no <a href="http://bit.ly/2Vc2UTF">Estado da Arte</a>, do Estadão, no dia 29 de março de 2019.</em></p>
<hr>
<p>Um dos fenômenos mais curiosos dos tempos que vivemos é a chamada “polarização factual”. Polarização factual é o que ocorre quando fatos plenamente passíveis de serem entendidos pela análise científica passam a ser disputados seguindo as linhas divisórias de grupos políticos. Não se trata apenas de pessoas que não foram expostas à informação e evidências. Essa polarização costuma ser intensa, radical e persistente a novas informações. O mais comum é que cada grupo tenha <em>certeza</em> que está do lado correto das evidências, seja qual for o tema em debate.</p>
<p>Um exemplo emblemático de polarização factual ocorre no tema do aquecimento global nos Estados Unidos. Hoje, nos EUA há maior discordância entre democratas e republicanos sobre a afirmação factual “o aquecimento global está ocorrendo e possui causas humanas” (<a href="https://www.nbcnews.com/politics/meet-the-press/consensus-emerges-climate-change-debate-n950646">71% dos democratas concordam, contra 15% dos republicanos</a>) do que sobre temas inerentemente políticos, como “deveríamos tributar mais os super-ricos” (<a href="https://www.washingtonpost.com/us-policy/2019/01/31/republicans-support-higher-taxes-super-rich-according-fox-news-survey">85% dos democratas dizem que sim e 54% dos republicanos concordam</a>).</p>
<p>Em abstrato, partidos políticos serviriam justamente para separar diferentes posições políticas existentes na sociedade, propor diferentes ações, com base em valores diferentes, etc. É surpreendente portanto que temas estritamente valorativos, como o que fazer com respeito a impostos, possam dividir menos a sociedade do que temas empíricos, como o aquecimento global ou tantos outros.</p>
<p>Neste texto apresento um pouco do que algumas pesquisas empíricas sobre o tema da polarização factual têm mostrado sobre suas causas e consequências. Em meu próximo texto, tratarei de algumas formas de se evitar a polarização factual, também com base em resultados de pesquisas sobre o tema.</p>
<p>O aspecto psicológico decisivo por trás da polarização factual é a forma peculiar com que nossa mente lida com o comportamento em grupos e, em especial, com <em>identidades</em> de grupo. Temos um viés cognitivo generalizado que nos leva a favorecer pessoas que entendemos como <a href="http://dx.doi.org/10.1037/0033-2909.86.2.307">“do nosso grupo”, ante pessoas “de outro grupo”</a>. O critério definidor de quem está “dentro” e “fora” pouco importa. Experimentos controlados desde o início da década de 1980 têm mostrado que o critério pode ser <a href="https://books.google.com.br/books?hl=en&amp;lr=&amp;id=l2R7DwAAQBAJ&amp;oi=fnd&amp;pg=PA56&amp;dq=An+integrative+theory+of+intergroup+conflict&amp;ots=Az2v5MdYNJ&amp;sig=PYCFWOt5sHBH_9VtO0PUQj5BYJ8&amp;redir_esc=y#v=onepage&amp;q=An%20integrative%20theory%20of%20intergroup%20conflict&amp;f=false">completamente arbitrário</a>, como preferências por pintores ou rótulos de palavras inventadas, que ainda assim é possível identificar algum viés de favorecimento de grupo.</p>
<p>Esse favorecimento ante quem é “do grupo” por sua vez constitui um incentivo material decisivo para aqueles que fazem parte do grupo quererem demonstrar sua afiliação. Diferenciar-se dos demais grupos sociais passa a ser um comportamento recompensador.</p>
<p>Sob quais bases serão criadas essas diferenciações, no entanto, fica sujeito às caóticas interações sociais. Algumas pessoas desenvolvem uma identidade de grupo mais forte com rótulos partidários (e.g., Democratas versus Republicanos), outros com rótulos de pensamento político (e.g., Liberais versus Conservadores), outros com etiquetas de coletivos (e.g., pequenas correntes religiosas). Em qualquer caso, a identidade de grupo ocorre em graus variados de intensidade e fazer parte de um grupo não é suficiente para sabermos quão forte é esse vínculo identitário. Todos os grupos criam alguma identidade e algum incentivo ao favorecimento interno, mas nem todos os grupos têm um conteúdo político forte. Na interação entre diferentes grupos, pode acontecer um alinhamento dessas identidades em torno de identidades mais fortes, como as político-partidárias.</p>
<p>Fatores cognitivos, sociais, emocionais e de personalidade também atuam diante dessas identidades. Identidades mais fortes fornecem maior certeza cognitiva (não há dúvida, insegurança ou ansiedade a respeito do que acreditar ou quais as razões para isso) e coerência (a interação entre diversas crenças é simplificada pela heurística de simplesmente seguir as crenças predominantes no grupo). Grupos pequenos e identidades a grupos pequenos – como um pequeno partido político sem chance de vitória eleitoral – são mais capazes de fornecer esses benefícios na medida em que é mais fácil e direto diferenciar seus membros, por serem poucos, do que em um grupo grande.</p>
<p>O que é decisivo em cada um desses pontos – tratamento diferenciado interno ao grupo, certeza cognitiva e coerência cognitiva – é que todos eles têm como referência elementos do próprio grupo: qual é o tamanho do grupo, como estou posicionado nele, quais são as possibilidades de ascensão, quem são “os outros”, o que diferencia o grupo dos demais, o que o grupo pensa, qual é a coerência entre o que o grupo pensa e o que diferencia dos demais, etc. O critério de raciocínio é <a href="https://doi.org/10.1002/9781118900772.etrds0417">convergente em relação aos padrões do grupo</a> e não convergente em relação a um mundo exterior.</p>
<p>Isto é, uma vez que estamos dentro da lógica de raciocínio das identidades de grupo, o fato de que alguns problemas, como o aquecimento global, possam ser totalmente externos ao grupo e impossíveis de serem resolvidos pela lógica do posicionamento político é tanto menos importante quanto mais forte for a identidade da pessoa em relação ao grupo.</p>
<p>Quanto maior for a identidade de grupo que uma pessoa carregue, mais ela tenderá a empregar a convergência de grupo para balizar as crenças sobre qualquer assunto. Assim, uma evidência que aponte no sentido de que o aquecimento global tem causas humanas pode deixar de ser apenas uma evidência a mais em todo um debate sobre um problema de investigação do mundo exterior e se torna ela mesma uma ameaça. Ameaça a o que? Ameaça a uma identidade de grupo.</p>
<p>Aceitar a evidência e atualizar as crenças a respeito do tema deixa de ser uma reação racional diante de novas informações e se torna um processo doloroso, motivo de ansiedade ou raiva. Pois coloca em jogo não a avaliação do problema em questão, mas sim os diversos sinais sociais indesejados que a atualização de crenças causaria, tais como a reação de pessoas importantes do meu grupo aos meus sinais sociais, a diluição das fronteiras claras entre o “meu” grupo e “os outros”, a perda do conforto fornecido pela certeza cognitiva e a ansiedade quanto à coerência com todas as demais crenças minhas e do grupo que a atualização pode causar.</p>
<p>É por essas linhas que diversas pesquisas da psicologia social sobre o comportamento político têm mostrado que emerge a “polarização factual”. Fatos são avaliados por parcelas expressivas da população não pelo critério de pertinência diante de um problema empírico, mas pela pertinência diante de sinalizações sociais, prestígio, desejos de conforto, certeza e coerência. Na verdade, o fenômeno tem um potencial invasivo tão grande que um pequeno corpo de pesquisas recentes sugere que até mesmo nossa capacidade de usar e identificar um <a href="http://dx.doi.org/10.31234/osf.io/hspjz">raciocínio lógico válido</a>, como uma simples dedução, pode ser desvirtuada seguindo linhas divisórias partidárias se a avaliação do uso da lógica estiver tratando de algum tema com forte peso para a minha identidade de grupo.</p>
<p>Essas inclinações psicológicas não surgiram agora, mas as redes sociais podem ter ampliado a escala de manifestação desse problema. Afinal, nas redes sociais todo texto é acessível a toda a nossa rede de contatos, todo texto pode ser balizado pelos critérios de demonstrar pertencimento ao grupo, estabelecer fronteiras políticas, diferenciar-se dos demais, fornecer clareza cognitiva e segurança de todo um sistema de crenças, etc. Elas também facilitaram o movimento inverso, de pessoas com determinadas crenças que buscam um grupo para usufruírem desses benefícios. Diversos nichos de pequenos grupos, muitas vezes radicais, acabam reforçando as crenças uns dos outros à revelia de outros critérios de avaliação de evidências.</p>
<p>À luz da teoria e evidências encontradas por essas pesquisas, deveríamos então abrir mão de tentar analisar friamente os problemas? Abraçar de vez a realidade conflitiva das narrativas sobrepostas e identidades de grupo tentando se diferenciar uma das outras?</p>
<p>Não, isso não é necessário. Primeiro que, como apontei aqui, fazer parte de um grupo não implica necessariamente que se irá adotá-lo como parte da sua identidade – embora o risco exista. Segundo, mesmo adotando-o como parte da sua identidade, a identidade de grupo vem em diferentes graus de intensidade e todos os efeitos aqui discutidos são tanto menores quanto menos intensa for essa identidade de grupo para a pessoa. E terceiro, há uma literatura científica crescente sobre formas de tentar diminuir a polarização factual que aponta caminhos para isso. Continuaremos essa discussão em meu próximo texto aqui para o Estado da Arte.</p>
<p><strong>Referências:</strong></p>
<ol type="1">
<li>Bail, C. A., Argyle, L. P., Brown, T. W., Bumpus, J. P., Chen, H., Hunzaker, M. B. F., … Volfovsky, A. (2018). <a href="https://doi.org/10.1073/pnas.1804840115">Exposure to opposing views on social media can increase political polarization</a>. <em>Proceedings of the National Academy of Sciences</em>, 201804840.</li>
<li>Bolsen, T., Druckman, J. N., &amp; Cook, F. L. (2014). <a href="https://doi.org/10.1007/s11109-013-9238-0">The Influence of Partisan Motivated Reasoning on Public Opinion</a>. <em>Political Behavior</em>, <em>36</em>(2), 235–262.</li>
<li>Brewer, M. B. (1979). <a href="https://doi.org/10.1037/0033-2909.86.2.307">In-group bias in the minimal intergroup situation: A cognitive-motivational analysis</a>. <em>Psychological Bulletin</em>, <em>86</em>(2), 307–324.</li>
<li>Flynn, D. J., Nyhan, B., &amp; Reifler, J. (2017). <a href="https://doi.org/10.1111/pops.12394">The Nature and Origins of Misperceptions: Understanding False and Unsupported Beliefs About Politics</a>. <em>Political Psychology</em>, <em>38</em>(S1), 127–150.</li>
<li>Gampa, A., Wojcik, S., Motyl, M., Nosek, B. A., &amp; Ditto, P. (n.d.). <a href="https://doi.org/10.31234/osf.io/hspjz"><em>(Ideo)Logical Reasoning: Ideology Impairs Sound Reasoning</em></a>.</li>
<li>Golman, R., Loewenstein, G., Moene, K. O., &amp; Zarri, L. (2016). <a href="https://doi.org/10.1257/jep.30.3.165">The Preference for Belief Consonance</a>. <em>Journal of Economic Perspectives</em>, <em>30</em>(3), 165–188.</li>
<li>Huddy, L. (2015). <a href="https://doi.org/10.1002/9781118900772.etrds0155">Group Identity and Political Cohesion</a>. In <em>Emerging Trends in the Social and Behavioral Sciences</em> (pp.&nbsp;1–14).</li>
<li>Jost, J. T., Hennes, E. P., &amp; Lavine, H. (2013). <a href="https://doi.org/10.1093/oxfordhb/9780199730018.013.0041">“Hot” Political Cognition: Its Self-, Group-, and System-Serving Purposes</a>. <em>The Oxford Handbook of Social Cognition</em>.</li>
<li>Kahan, D. M. (2016). <a href="https://doi.org/10.1002/9781118900772.etrds0417">The Politically Motivated Reasoning Paradigm, Part 1: What Politically Motivated Reasoning Is and How to Measure It</a>. In <em>Emerging Trends in the Social and Behavioral Sciences</em> (pp.&nbsp;1–16).</li>
<li>Petersen, M. B., Skov, M., Serritzlew, S., &amp; Ramsøy, T. (2013). <a href="https://doi.org/10.1007/s11109-012-9213-1">Motivated Reasoning and Political Parties: Evidence for Increased Processing in the Face of Party Cues</a>. <em>Political Behavior</em>, <em>35</em>(4), 831–854.</li>
<li>Tajfel, H., &amp; Turner, J. C. (1979). <a href="https://www.annualreviews.org/doi/abs/10.1146/annurev.ps.33.020182.000245?journalCode=psych">An integrative theory of intergroup conflict</a>. In W. G. Austin &amp; S. Worchel (Eds.), <em>The social psychology of intergroup relations</em> (pp.&nbsp;33–47). Monterey, CA: Brooks/Cole.</li>
<li>Toner, K., Leary, M. R., Asher, M. W., &amp; Jongman-Sereno, K. P. (2013). <a href="https://doi.org/10.1177/0956797613494848">Feeling Superior Is a Bipartisan Issue: Extremity (Not Direction) of Political Views Predicts Perceived Belief Superiority</a>. <em>Psychological Science</em>, <em>24</em>(12), 2454–2462.</li>
</ol>



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  <category>Ciência</category>
  <category>Filosofia</category>
  <category>Política</category>
  <guid>https://thomasvconti.com.br/2019/a-politica-como-ataque-a-razao/</guid>
  <pubDate>Tue, 02 Apr 2019 03:00:00 GMT</pubDate>
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</item>
<item>
  <title>Dissuadindo atiradores em massa</title>
  <link>https://thomasvconti.com.br/2019/dissuadindo-atiradores-em-massa/</link>
  <description><![CDATA[ 




<p><strong>O texto abaixo foi publicado originalmente na Revista VEJA de 27 de março de 2019, <a href="https://veja.abril.com.br/edicoes-veja/2627/">edição nº 2627</a>, sob o título “Como Deter os Monstros” (escolha da revista).</strong></p>
<hr>
<p>Foi aterrador e trágico o tiroteio na escola de Suzano. Todos sofremos muito lendo as notícias e continuamos sofrendo com os relatos e atualizações, com a dor indescritível das famílias. No dia seguinte, fomos surpreendidos novamente com o tiroteio em massa em mesquitas na Nova Zelândia, com número ainda maior de mortos. Dói também constatar a extrema politização em torno desses casos, transformados em palco para militantes de todo tipo de causa.</p>
<p>Ao longo dos últimos dias, muitos me marcaram e citaram em debates nas redes sociais, tendo como referência a organização de mais de sessenta pesquisas nacionais e internacionais sobre o tema “armas e crimes” que <a href="../../2017/dossie-armas-violencia-e-crimes-o-que-nos-dizem-61-pesquisas-recentes/index.html">disponibilizo em meu blog</a>. É claro que fiquei feliz de ver que cada vez mais pessoas estão preocupadas em basear seu apoio a políticas públicas em pesquisas empíricas de qualidade e que, de alguma forma, posso estar ajudando nisso. Todavia, pesquisar a relação entre armas e crimes em geral é uma coisa, e analisar o problema dos tiroteios em massa em específico é outra. Nenhum dos artigos citados no mapeamento da literatura que publiquei trata de <em>mass shootings</em> (assim são chamados, na literatura especializada em inglês, eventos como o de Suzano). Existem alguns estudos sobre a relação entre <a href="https://doi.org/10.1080/13504851.2014.939367">disponibilidade de armas e tiroteios em massa</a>, mas os dados <a href="https://doi.org/10.1080/00036846.2016.1164821">ainda são limitados</a>. E temos evidências e razões teóricas para acreditar que tiroteios em massa e crimes em geral são problemas que merecem tratamento e pesquisa distintos.</p>
<p>A primeira dificuldade é que os chamados tiroteios em massa são muito raros. Recorrentes apenas nos Estados Unidos, mesmo lá representam uma parcela muito pequena do total de homicídios cometidos no país anualmente. Nos últimos cinquenta anos ocorreram, nos EUA, por volta de <a href="https://www.washingtonpost.com/graphics/2018/national/mass-shootings-in-america">150 casos com quatro vítimas ou mais cada um</a>. Se um dos obstáculos para a análise das razões de homicídios está justamente na relativa raridade do crime, estudar uma modalidade raríssima de homicídio dificulta ainda mais os esforços de pesquisa. Há o risco de um estudo sobre o tema estar observando ruídos estatísticos, e não identificando relações causais de fato.</p>
<p>Ademais, em parcela expressiva dos tiroteios em massa de maior escala, quem executa o crime encerra seu ato cometendo suicídio. Isso dificulta ou impossibilita entendermos esse crime como o fazemos com praticamente todos os outros, levando em conta que quem o planeja quer evitar ter custos pessoais — não quer ser identificado pela Justiça nem ser malvisto por seus conhecidos, ser preso etc. Muitos dos que efetuam tiroteios em massa já aceitaram de partida aplicar a si mesmos a punição máxima. Por sua vez, o suicídio também é um fenômeno difícil de ser estudado, e são raríssimos os episódios de suicídio precedidos por tamanha violência. Assim, um tiroteio em massa seguido de suicídio, como aconteceu em Suzano, é um caso extremo, de canto, tanto das pesquisas sobre violência e crime quanto dos estudos sobre suicídio.</p>
<p>Tudo isso para dizer que infelizmente ainda não sabemos muito sobre o que realmente leva a esses atos. Há muitas hipóteses, alguns estudos de caso, e <a href="https://doi.org/10.1007/s12103-014-9239-5">relativamente poucos trabalhos empíricos replicados</a>. Mas já existem, sim, algumas pesquisas sobre o tema, e nos últimos anos parte delas tem convergido para pelo menos um ponto comum: temos evidências significativas de que a divulgação pela mídia dos autores desses massacres — de seu nome, fotos e motivações — aumenta a probabilidade de que novos crimes similares ocorram. <a href="https://doi.org/10.1371/journal.pone.0117259">Diferentes especialistas</a> têm mostrado que, quando há uma divulgação ampla dos autores de atentados com grande número de mortos, nas semanas seguintes o número de tentativas de tiroteio em massa aumenta substancialmente. Pesquisadores estimam que <a href="https://onlinelibrary.wiley.com/doi/book/10.1002/9781119048015">esse efeito possa explicar</a> um de cada quatro casos, ou um de cada dois, dependendo do estudo e do método empregado. Cada ataque com autores amplamente divulgados significaria na prática mais de um caso efetivamente ocorrendo depois. O nome desse fenômeno é “efeito contágio” ou, sendo mais preciso, “imitação generalizada”.</p>
<p>A explicação de fundo para esse fenômeno é psicológica. Além das teorizações amplas sobre a imitação generalizada, psicólogos têm mostrado que muitos autores desses crimes podem apresentar um <a href="https://doi.org/10.1177/0002764217739660">perfil narcisista</a>. Quando se pesquisa a história de atiradores, é comum identificar comportamentos de competição com atiradores do passado. Por isso, a divulgação da identidade desses criminosos carrega o risco de criar um incentivo à disputa entre atiradores potenciais, que buscariam superar o número de pessoas assassinadas em ataques anteriores. Há evidências de que a fama seja um dos estímulos importantes que levam os atiradores potenciais a implementar seus planos — seja a fama junto à população em geral, seja junto a algum grupo de ódio de que muitos fazem parte. Assim, a mera ocorrência do crime somada à notoriedade do atirador bem-sucedido incita outros que estariam cogitando algo similar a tomar a trágica decisão de copiá-lo ou, pior, de tentar superá-lo.</p>
<p>Reduzir o efeito contágio, portanto, pode diminuir o número de ocorrências desse tipo e também o de vítimas a cada ataque. Por isso, seria razoável que os veículos de mídia adaptassem sua cobertura desses eventos, para não originar incentivos a novos atiradores. Não é algo impossível de fazer. A imprensa já tem a prática de não divulgar o nome de torcedores que invadem jogos de futebol, justamente para não criar o incentivo da fama. Também já tem a prática de não divulgar a forma como as pessoas cometeram suicídio — a Organização Mundial da Saúde (OMS), aliás, publica um guia sobre como realizar a comunicação de ocorrências de suicídio, e pesquisadores <a href="https://ajph.aphapublications.org/doi/10.2105/AJPH.2016.303611">propuseram guias éticos similares</a> para notícias de tiroteios em massa. Não veicular o rosto, o nome e a história de quem executa esse tipo de crime covarde não seria algo inédito para nossos divulgadores de informação. Basta aplicar o mesmo cuidado que já se tem em outras situações. Com as evidências que temos no momento, essa seria a decisão imediata mais ética e bem informada.</p>
<p>Há alguns anos, a imprensa de países como Canadá e Noruega modificou suas práticas para fazer parte da solução, e não do problema. Espero que no Brasil nossa imprensa mude e passe a ser igualmente responsável. Não agiu assim no caso de Suzano. No domingo 17, o <em>Fantástico</em>, por exemplo, fez o exato oposto, com uma matéria sobre os atiradores e ataques anteriores, mencionando até quem “se inspirou” em quem. VEJA publicou uma reportagem em linhas similares. Mesmo com a melhor das intenções na elaboração dessas matérias, os jornalistas, ao ignorar as evidências a respeito do tema, podem estar inadvertidamente colaborando não para conter o problema, mas para aumentá-lo.</p>
<hr>
<p>Abaixo as referências para os artigos citados em hyperlinks ao longo do texto. Elas constavam no meu texto original, mas não saíram no texto da revista.</p>
<p><strong>Referências:</strong></p>
<p>Agnich, L. E. (2015). <a href="https://doi.org/10.1007/s12103-014-9239-5">A Comparative Analysis of Attempted and Completed School-Based Mass Murder Attacks</a>. <em>American Journal of Criminal Justice</em>, <em>40</em>(1), 1–22.</p>
<p>Blau, B. M., Gorry, D. H., &amp; Wade, C. (2016). <a href="https://doi.org/10.1080/00036846.2016.1164821">Guns, laws and public shootings in the United States</a>. <em>Applied Economics</em>, <em>48</em>(49), 4732–4746.</p>
<p>Bonanno, C. M., &amp; Levenson, R. L. (2014). <a href="https://doi.org/10.1177/2158244014525425">School Shooters: History, Current Theoretical and Empirical Findings, and Strategies for Prevention</a>. <em>SAGE Open</em>, <em>4</em>(1).</p>
<p>Bushman, B. J. (2018). <a href="https://doi.org/10.1177/0002764217739660">Narcissism, Fame Seeking, and Mass Shootings</a>. <em>American Behavioral Scientist</em>, <em>62</em>(2), 229–241.</p>
<p>Gius, M. (2015). <a href="https://doi.org/10.1080/13504851.2014.939367">The impact of state and federal assault weapons bans on public mass shootings</a>. <em>Applied Economics Letters</em>, <em>22</em>(4), 281–284.</p>
<p>Lankford, A., &amp; Madfis, E. (2018). <a href="https://doi.org/10.1177/0002764217730854">Don’t Name Them, Don’t Show Them, But Report Everything Else: A Pragmatic Proposal for Denying Mass Killers the Attention They Seek and Deterring Future Offenders</a>. <em>American Behavioral Scientist</em>, <em>62</em>(2), 260–279.</p>
<p>Meindl, J. N., &amp; Ivy, J. W. (2017). <a href="https://doi.org/10.2105/AJPH.2016.303611">Mass Shootings: The Role of the Media in Promoting Generalized Imitation</a>. <em>American Journal of Public Health</em>, <em>107</em>(3), 368–370.</p>
<p>Towers, S., Gomez-Lievano, A., Khan, M., Mubayi, A., &amp; Castillo-Chavez, C. (2015). <a href="https://doi.org/10.1371/journal.pone.0117259">Contagion in Mass Killings and School Shootings</a>. <em>PLOS ONE</em>, <em>10</em>(7), e0117259.</p>



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  <category>Ciência</category>
  <category>Violência</category>
  <guid>https://thomasvconti.com.br/2019/dissuadindo-atiradores-em-massa/</guid>
  <pubDate>Wed, 27 Mar 2019 03:00:00 GMT</pubDate>
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</item>
<item>
  <title>Dar presentes de Natal destrói ou cria valor econômico?</title>
  <link>https://thomasvconti.com.br/2018/dar-presentes-de-natal-destroi-ou-cria-valor-economico/</link>
  <description><![CDATA[ 




<p>O debate sobre as consequências econômicas do ato de dar presentes começou com o artigo de “A Perda de Peso Morto do Natal”, publicado por Joel Waldfogel em 1993 na American Economic Review.[1] Na linha oposta dos economistas que costumavam elogiar os efeitos benéficos do aumento do consumo na época de Natal, Waldfogel destacou o potencial de má-alocação de recursos e destruição de valor envolvido no ato de dar presentes.</p>
<p>Basicamente, todo o problema é que no ato de dar um presente, outra pessoa está usando recursos para escolher por você. Há uma chance dela “acertar” no presente e escolher tão bem quanto você escolheria, mas dado que ela tem menos informações que você e é impossível que ela conheça suas preferências a contento, o mais provável é que você valore o presente menos do que o custo que o presente teve para quem o comprou.</p>
<p>No teste empírico de Waldfogel, de cada R$100 gasto para dar presentes, quem os recebe os valorou em média em torno de R$87. Ou seja, dar presentes poderia causar uma perda de valor econômico da ordem de 13% do valor gasto. Para que isso não ocorresse, uma alternativa seria presentear as pessoas com dinheiro ao invés de objetos. Assim, quem recebe o presente gastaria com o que considera melhor para si.</p>
<p>Mas claro, tratando-se de uma publicação acadêmica, o artigo não esgotou o tema. Houve críticas e se seguiu todo um debate sobre as consequências de dar presentes para a eficiência alocativa. Três anos após a publicação de Waldfogel foi publicada a crítica de Solnick &amp; Hemenway.[2] Nela, os autores não apenas criticaram o teste empírico de Waldfogel, como fizeram um teste alternativo. Perguntaram para um conjunto maior de pessoas quanto elas receberiam em dinheiro para ter um bem-estar equivalente ao do presente recebido, excluindo-se o valor sentimental. O resultado foi que dar presentes não só não destruía valor, como ainda poderia criar valor na ordem de duplicar (+100%) o valor gasto por quem deu o presente.</p>
<p>Uma crítica aos dois resultados veio em 1998. List &amp; Shogren apontaram problemas tanto no teste empírico de Waldfogel quanto no de Solnick &amp; Hemenway. Mediante um teste experimental replicando as metodologias anteriores e um inédito usando leilões, os autores encontraram geração de valor econômico no ato de dar presentes. Mas a escala do ganho foi bem menor, em torno de 21%.[3] Aparentemente, não era tão certo assim que presentes causariam uma alocação ineficiente de recursos.</p>
<p>Esses resultados divergentes foram criticado por Waldfogel em 1998.[4] Ele aponta o problema de que há um estigma social generalizado contra o ato de dar presentes em dinheiro que explicaria por que os participantes do teste de Solnick &amp; Hemenway pediam valores tanto acima dos custos para ter um benefício equivalente. Já o leilão de List &amp; Shogren incorreu no problema de revelar o quanto os participantes valoravam os objetos na &lt;venda&gt; deles, e não na compra. E é reconhecido na literatura que os valores de disposição a vender das pessoas são em geral maiores que os de compra.</p>
<p>Para complicar mais o debate, Ruffle &amp; Tykocinski mostraram que os experimentos realizados pelos pesquisadores para tentar captar o valor atribuído por quem recebia os presentes eram sensíveis à forma como era colocada a pergunta. Perguntar o quanto acreditavam que o presente custou antes de perguntar quanto valoravam o presente chegava a um resultado até 20% diferente de perguntar o valor antes do custo… dentre outros problemas.[5]</p>
<p>O resultado do debate empírico pode ter sido inconclusivo a respeito de se dar presentes gera alguma ineficiência alocativa ou não, porém gerou uma discussão metodológica[6] muito interessante que teve desdobramentos em outros tipos de problema, além de provocar diversos outros pesquisadores a investigar a economia do ato de dar presentes.</p>
<p>Referências:<br>
[1] Waldfogel, J. (1993). <a href="http://bit.ly/2Rab6Fm">The Deadweight Loss of Christmas</a>. The American Economic Review, 83(5), 1328–1336.<br>
[2] Solnick, S. J., &amp; Hemenway, D. (1996). <a href="http://bit.ly/2rPm9FC">The deadweight loss of Christmas: comment</a>. The American Economic Review, 86(5), 1299-1305.<br>
[3] List, J. A., &amp; Shogren, J. F. (1998). <a href="http://bit.ly/2rT3Hfu">The deadweight loss of Christmas: comment</a>. The American Economic Review, 88(5), 1350-1355.<br>
[4] Waldfogel, J. (1998). <a href="http://bit.ly/2PZIyd9">The deadweight loss of Christmas: reply</a>. The American Economic Review, 88(5), 1358-1360.<br>
[5] Ruffle, B. J., &amp; Tykocinski, O. (2000). <a href="http://bit.ly/2Rf26Pc">The deadweight loss of Christmas: comment</a>. American Economic Review, 90(1), 319-324.<br>
[6] Solnick, S. J., &amp; Hemenway, D. (2000). <a href="http://bit.ly/2CvUhwl">The deadweight loss of Christmas: Reply</a>. American Economic Review, 90(1), 325.</p>



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  <category>Economia</category>
  <guid>https://thomasvconti.com.br/2018/dar-presentes-de-natal-destroi-ou-cria-valor-economico/</guid>
  <pubDate>Mon, 24 Dec 2018 02:00:00 GMT</pubDate>
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</item>
<item>
  <title>Defasagem Temporal - Conceitos de Economia</title>
  <link>https://thomasvconti.com.br/2018/defasagem-temporal-conceitos-de-economia/</link>
  <description><![CDATA[ 




<p>Especialmente em tempos de eleições, o conceito de defasagem temporal é um dos conceitos básicos com maior potencial de alterar o diagnóstico que se tem de diferentes governos e resultados de políticas públicas. Resumidamente, a defasagem temporal é a separação no tempo entre o momento em que uma ação é feita e quando seus efeitos serão sentidos. Para entender com maior detalhe o fenômeno e por que ele ocorre, vamos dividi-lo em cinco partes.</p>
<section id="atraso-de-dados" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="atraso-de-dados"><strong>1. Atraso de dados:</strong></h2>
<p>Em geral, é quase impossível visualizar o que está acontecendo com a economia de forma simultânea. A maior parte dos dados agregados que temos da economia, como o próprio PIB - que mede o tamanho da economia - só está disponível com um atraso considerável. Obter informações sobre a situação atual da economia é difícil, o mais comum é só termos informações de qualidade alguns meses depois que os fatos aconteceram.</p>
<p>Inclusive, um dos principais usos da modelagem macroeconômica preditiva não é enxergar 2, 3, 4 anos no futuro, mas sim conseguir prever o que está acontecendo agora em setembro de 2018, por exemplo. Sim, saber o que está acontecendo com a economia em setembro de 2018 é um problema de previsão, porque os dados que estão disponíveis devem ir até julho no melhor dos casos. As primeiras divulgações de números de cada mês costumam ser revisadas, por se basearem em inferências e previsões que serão revistas depois quando dados mais atuais chegarem.</p>
</section>
<section id="atraso-de-reconhecimento" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="atraso-de-reconhecimento"><strong>2. Atraso de reconhecimento:</strong></h2>
<p>Ok, passaram alguns meses e agora temos dados sobre o que está acontecendo com a economia. Agora nós sabemos o que está acontecendo, certo? Calma. Nós temos os dados, mas extrair a informação real mais importante deles não é uma tarefa simples. Leva tempo para descobrir o que os dados estão dizendo.</p>
<p>Vamos supor por exemplo que houve aumento do desemprego no último mês. Será que esse aumento foi temporário, localizado apenas naquele mês, ou será que ele está sinalizando uma inversão da tendência de longo prazo e podemos esperar aumento do desemprego nos próximos meses?</p>
<p>Esse tipo de pergunta é decisiva para os tomadores de decisão no setor público e privado. Se for um fenômeno temporário, talvez não sejam necessárias ações maiores. Porém se sinalizar uma inversão de tendência e o desemprego for aumentar daqui em diante, pode ser necessária alguma ação.</p>
<p>De um jeito ou de outro, o tomador de decisão só saberá disso com atraso. O dado vai demorar para sair. Quando sair, levará um tempo até os economistas analisarem as séries de tempo para averiguar qual a melhor interpretação desses dados.</p>
</section>
<section id="atraso-na-tomada-de-decisão" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="atraso-na-tomada-de-decisão"><strong>3. Atraso na tomada de decisão:</strong></h2>
<p>Pois bem, agora que os dados saíram e foram corretamente analisados, é só agir, certo? Errado. Mesmo com os dados em mãos e uma boa análise do que eles significam, principalmente no caso do setor público o processo político (executivo ou legislativo) de tomada de decisão não é um processo linear e rápido.</p>
<p>Há ações que dependem apenas do executivo, há ações que dependem apenas do legislativo, há ações que dependem de ambos. Dependendo da ação que se pretenda tomar e do tamanho dela, pode levar meses até que se desenhe um projeto ou plano de ação. Depois de desenhado, eles ainda terão que ser aprovados, o que no legislativo pode tomar ainda mais tempo.</p>
</section>
<section id="atraso-na-implementação" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="atraso-na-implementação"><strong>4. Atraso na implementação:</strong></h2>
<p>Certo, agora temos os dados, temos uma boa interpretação e temos um plano traçado e aprovado. Agora a política é realizada, correto? Errado. Depois que uma política é aprovada, leva tempo para colocá-la em prática. Ela poderá ser uma política nacional, estadual ou municipal. Em qualquer um dos casos, será necessário mobilizar recursos, acionar diversas pessoas e agências diferentes, organizar contratos, fiscalização, enfim.</p>
<p>Da aprovação do plano até ele começar a ser implementado de fato, pode ser mais ou menos rápido, porém sempre levará tempo. No Brasil não é incomum o fenômeno de planos aprovados que nunca são implementados, ou que passam por uma troca de administração no meio do percurso e são abandonados. Pode levar meses ou até mais de um ano para o plano começar a ser implementado.</p>
</section>
<section id="atraso-na-eficácia" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="atraso-na-eficácia"><strong>5. Atraso na eficácia:</strong></h2>
<p>Depois de tudo isso, quando a política é finalmente implementada, leva tempo para a política entrar em vigor e atingir a economia. Por exemplo, para a política monetária, pode ser de um ano a um ano e meio antes que o efeito máximo da política seja sentido (embora o tempo de implementação seja mais curto, dado os prazos e a independência do Banco Central do processo legislativo/executivo usual). O atraso na eficácia da política fiscal é um pouco menor, mas ainda considerável, pelo menos seis meses.</p>
<p>Resumidamente, o que temos é o seguinte quadro e ciclo de acontecimentos até o efeito de uma decisão:</p>
<p><a href="defasagem-temporal-lag-temporal-conceitos-economia-t-c3a839.png" class="lightbox" data-gallery="quarto-lightbox-gallery-1"><img src="https://thomasvconti.com.br/2018/defasagem-temporal-conceitos-de-economia/defasagem-temporal-lag-temporal-conceitos-economia-t-c3a839.png" class="img-fluid" width="660"></a></p>
</section>
<section id="aplicando-o-conceito-de-defasagem-temporal" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="aplicando-o-conceito-de-defasagem-temporal"><strong>Aplicando o conceito de defasagem temporal</strong></h2>
<p>Aplicar o conceito de defasagem temporal tal como ele é aplicado em análises empíricas de economia ou avaliação de políticas públicas não é simples. Nessas aplicações, o mais comum é <em>não sabermos</em> qual é o tempo entre um impacto e outro. Como não sabemos, precisamos adotar uma combinação de teoria e testes estatísticos para testar hipóteses a esse respeito. Mas é possível se apropriar desse conceito sem passar por toda essa sofisticação.</p>
<p>Ao invés de pensar <em>“foi alterada a política de juros, logo eu sei que daqui seis meses é esperado…”</em>, é possível pensar pela negativa: <em>“foi tomada uma decisão de política pública qualquer, logo eu sei que seu efeito <strong>não</strong> ocorrerá nesse mês ou no próximo.”</em> No primeiro caso, seria necessário acompanhar a literatura sobre o tema e ainda assim há percalços no caminho. No segundo caso, embora não saibamos quando começarão os efeitos, podemos afirmar que os efeitos não ocorrerão no mesmo mês em que a decisão foi tomada. Nem no próximo.</p>
<p>Isso já é suficiente para não cair em uma série de notícias sensacionalistas, que afirmam todo tipo de coisa quando muitas vezes nem os dados sobre o tema estão disponíveis ainda. Se nem dados temos, muito menos alguma compreensão sobre os efeitos da decisão ou mudança em análise.</p>


</section>

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  <category>Direito e Economia</category>
  <category>Economia</category>
  <category>História</category>
  <category>Política</category>
  <guid>https://thomasvconti.com.br/2018/defasagem-temporal-conceitos-de-economia/</guid>
  <pubDate>Sun, 30 Sep 2018 03:00:00 GMT</pubDate>
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</item>
<item>
  <title>Hobbit, Hooligan ou Vulcano - as três espécies de eleitor</title>
  <link>https://thomasvconti.com.br/2018/hobbit-hooligan-vulcano/</link>
  <description><![CDATA[ 




<p>Como você encara a política? Quais são as consequências de se engajar mais ativamente na política? Os breves trechos abaixo foram retirados e traduzidos do polêmico livro de Jason Brannan, <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Against_Democracy">Against Democracy (2016)</a>, para refletir sobre esse tema.</p>
<section id="hobbits" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="hobbits">Hobbits</h2>
<p>Hobbits são na maior parte apáticos e ignorantes sobre política. Eles não têm opiniões fortes e fixas sobre a maioria das questões políticas. Muitas vezes eles não têm opiniões. Eles têm pouco ou nenhum conhecimento científico das ciências sociais; eles são ignorantes não apenas dos eventos atuais, mas também das teorias científicas sociais e dos dados necessários para avaliar e entender esses eventos. Os hobbits têm apenas um conhecimento superficial da história mundial ou nacional relevante. Eles preferem continuar com suas vidas diárias sem pensar muito na política. Nos Estados Unidos, o típico não-votante é um hobbit.</p>
</section>
<section id="hooligans" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="hooligans">Hooligans</h2>
<p>Hooligans são os fãs fanáticos por esportes da política. Eles têm visões de mundo fortes e quase todas fixas. Eles podem apresentar argumentos para suas crenças, mas não podem explicar pontos de vista alternativos de uma maneira que as pessoas com outras visões possam achar satisfatórias. Hooligans consomem informação política, embora de uma forma tendenciosa. Eles tendem a buscar informações que confirmem suas opiniões políticas preexistentes, mas ignoram, evitam e rejeitam a evidência imediata que contradiz ou desconfirma suas opiniões preexistentes. Eles podem ter alguma confiança nas ciências sociais, mas escolhem dados e tendem apenas a aprender sobre pesquisas que apoiam suas próprias opiniões. Eles são excessivamente confiantes em si mesmos e o que sabem. Suas opiniões políticas fazem parte de sua identidade e têm orgulho de ser um membro de sua equipe política. Para eles, pertencer aos democratas ou republicanos, trabalhistas ou conservadores, ou social-democratas ou democratas-cristãos, importa para a sua auto-imagem, da mesma forma que é um assunto cristão ou muçulmano para a auto-imagem das pessoas religiosas. Eles tendem a desprezar as pessoas que discordam deles, sustentando que as pessoas com visões de mundo alternativas são estúpidas, más, egoístas ou, na melhor das hipóteses, profundamente equivocadas. A maioria dos eleitores regulares, participantes políticos ativos, ativistas, membros do partido registrados e políticos são hooligans.</p>
</section>
<section id="vulcanos" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="vulcanos">Vulcanos</h2>
<p>Os vulcanos pensam cientificamente e racionalmente sobre política. Suas opiniões são fortemente fundamentadas em ciência social e filosofia. Eles são autoconscientes e tão confiantes quanto as evidências permitem. Os vulcanos podem explicar pontos de vista contrários de uma maneira que as pessoas que sustentam essas opiniões considerem satisfatórias. Eles estão interessados ​​em política, mas, ao mesmo tempo, desapaixonados, em parte porque tentam ativamente evitar ser parcial e irracional. Eles não acham que todo mundo que discorda deles é estúpido, mau ou egoísta.</p>
</section>
<section id="consequências" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="consequências">Consequências</h2>
<p>Observe que esses tipos não são definidos em termos de quão extremas ou moderadas são suas opiniões.</p>
<p>Hooligans não são, por definição, extremistas, e vulcanos não são, por definição, moderados. Talvez alguns radicais marxistas ou anarquistas libertários sejam vulcanos, enquanto a maioria dos moderados são hobbits ou hooligans. De maneira mais geral, não defini esses tipos em termos da ideologia que eles defendem. Considere, por exemplo, todas as pessoas com simpatia libertária. Alguns deles são hobbits. Esses hobbits tendem a ser libertários - eles são predispostos a conclusões libertárias -, mas eles não pensam ou se importam muito com a política, e a maioria não se identifica como libertária. Muitos, talvez a maioria, dos libertários sejam hooligans. Para eles, ser libertário é uma parte importante de sua auto-imagem. Seus avatares no Facebook são bandeiras anarquistas negras e amarelas, eles só saem com outros libertários, e eles só leem o economista cult heterodoxo <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Murray_Rothbard">Murray Rothbard</a> ou a romancista <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Ayn_Rand">Ayn Rand</a>. Finalmente, alguns libertários são vulcanos.</p>
<p><a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/John_Stuart_Mill">John Stuart Mill</a> supôs que envolver os cidadãos na política os iluminaria. Uma maneira de colocar a perspectiva de Mill é que ele esperava que a deliberação política e a participação no governo representativo transformassem os hobbits em vulcanos. <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Joseph_Schumpeter">Joseph Schumpeter</a>, em contraste, achava que a participação política torna as pessoas mais limitadas - isto é, tende a transformar os hobbits em hooligans.</p>
<p>Segundo o sempre polêmico <a href="https://en.wikipedia.org/wiki/Jason_Brennan">Jason Brennan</a>, para a maioria de nós, envolvimento político e participação são em geral mais prejudiciais do que benéficas. A maioria de nós ou é um hobbit ou um hooligan, e a maioria dos hobbits são hooligans em potencial. Estaríamos melhor - e outros também - se ficássemos fora da política.</p>
<p>O que você pensa sobre isso?</p>


</section>

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  <category>Filosofia</category>
  <category>Política</category>
  <category>Tradução</category>
  <guid>https://thomasvconti.com.br/2018/hobbit-hooligan-vulcano/</guid>
  <pubDate>Tue, 07 Aug 2018 03:00:00 GMT</pubDate>
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</item>
<item>
  <title>Ignorância Racional, Irracionalidade Racional e as Apostas</title>
  <link>https://thomasvconti.com.br/2018/ignorancia-racional-irracionalidade-racional-apostas/</link>
  <description><![CDATA[ 




<blockquote class="blockquote">
<p><strong><em>“Apostas são uma forma prática de impor custos ao hábito gratuito de acreditar em bobagens.”</em></strong></p>
</blockquote>
<p>Embora possa parecer só uma frase de efeito, na verdade a ideia básica por trás dela vem de um instigante trabalho do economista Bryan Caplan. No artigo <a href="https://goo.gl/AMf7GU">“Ignorância Racional versus Irracionalidade Racional”</a>, Caplan demonstra como aquilo que acreditamos está intimamente relacionado com os custos e benefícios que essas crenças podem nos trazer caso estejam equivocadas. Segue uma breve explicação e alguns exemplos.</p>
<section id="ignorância-racional" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="ignorância-racional"><strong>Ignorância Racional</strong></h2>
<p><em>Ignorância Racional</em> é o conceito que descreve o comportamento de quando você prefere se manter acreditando em algo que já acreditava do que arcar com os custos de se informar melhor. Isso acontece muito, por exemplo, na política. Do lado dos custos, obter boas informações sobre política toma tempo e é de lento aprendizado. Do lado dos benefícios, exceto se você quiser se envolver profissionalmente com a política, serão raríssimas as ocasiões que ser bem informado politicamente valerá os gastos e o tempo que você dedicou a isso.</p>
<p>Como consequência, a maioria das pessoas p<em>referirem se manter ignorantes</em> sobre a política é uma <em>preferência racional</em>. Qual a relação disso com a frase inicial sobre apostas? Quando você coloca um benefício real diante de alguém - por exemplo, ganhar R$10 para cada R$1 apostado, passa a ser atrativo arcar com os custos de se informar melhor sobre o tema em que se aposta. Arrisquei, inclusive, uma prova conceitual.</p>
<p>Em maio de 2017 havia um boato conspiratório muito generalizado correndo pelas redes de que não haveria eleições em 2018, com muita gente bem educada acreditando nisso. Como eu já havia arcado com os custos de me informar devidamente e já sabia que as notícias sobre não haver eleições em 2018 eram falsas, lancei publicamente uma aposta: <a href="https://goo.gl/h4Cfw8">ofereci pagar R$11 para cada R$1 na posição de que haverá eleições em 2018 normalmente</a>. Mesmo os muito crentes na hipótese de que não haveria eleições, uma vez diante da aposta, caso quisessem apostar contra mim passariam a ter um incentivo para fazer a lição de casa e verificar os fatos antes de bater o martelo de vez e apostar.</p>
<p>Como consequência, mesmo com muitas pessoas à época convictos nisso, pouquíssimas tiveram interesse em apostar algo - e as que apostaram, apostaram pouco dinheiro. Porém, se você estivesse de fato convicto e tivesse certeza que está certo, você apostaria muito mais, não? Isso levaria a discutirmos outro ponto passivo na literatura econômica: <em>acredite no que as pessoas de fato fazem, não no que elas dizem</em>. Mas a exposição dos motivos para isso terá que ficar para outro momento.</p>
<p>A ignorância racional acontece não só em política, mas em várias outras situações, como por exemplo a relação das pessoas com a fronteira da ciência. Acompanhar a fronteira científica é custoso e trabalhoso tanto em tempo ou até em dinheiro. Isso gera uma reação racional de preferir manter-se ignorantes sobre o tema. Contudo, quando o desconhecimento pode custar caro, as pessoas procuram se informar melhor - por exemplo, buscando informação de especialistas renomados.</p>
</section>
<section id="irracionalidade-racional" class="level2">
<h2 class="anchored" data-anchor-id="irracionalidade-racional"><strong>Irracionalidade Racional</strong></h2>
<p>A <em>Irracionalidade Racional</em> opera da seguinte forma. Há todo tipo de crenças irracionais, de acreditar em OVNIs, Papai Noel (ou que não haverá eleições em 2018, rs). Para além da verdade por trás dessas crenças, acreditar nelas pode ainda assim fornecer algum tipo de sensação de conforto, ou fazer com que você se sinta parte de uma comunidade coesa.</p>
<p>Esses são <em>benefícios reais de crenças irracionais</em>.</p>
<p>Se os custos ou consequências ruins de manter essas crenças forem baixos, talvez você as mantenha indefinidamente. Porém, se os custos de manter essas crenças forem altos, a chance de você abandoná-las é grande. Uma área onde podemos encontrar muitos exemplos disso é a medicina.</p>
<p>No Brasil e no mundo muitas pessoas acreditam em signos, homeopatia ou acupuntura. O que essas coisas tem em comum? Ora, é tão simples: os custos de acreditar nelas são baixos! Exceto se você abandonar a medicina real em favor delas, essas práticas em si mesmas não trazem grande efeito colateral e acreditar nelas pode fazer com que você se sinta bem. Não por menos, todo homeopata ou charlatões em geral passarão toda a confiança do mundo de que não há efeitos colaterais. Intuitivamente, eles sabem que do contrário ficará difícil convencer as pessoas de algo extraordinário, como comprar potinhos de água curará doenças difíceis.</p>
<p>Por outro lado, muito menos pessoas defenderão o uso de medicina alternativa para curar pessoas que quebraram a perna, para curar uma infecção de fato grave ou abandonar a sua própria vacinação. Por que? Porque nesse caso os custos de manter crenças irracionais passa a ser muito substancial e o benefício trazido pelo conforto da crença irracional deixa de compensar.</p>
<p>Voltando para a afirmação que fiz sobre a aposta, apostas também atacam esse problema diretamente. Uma vez que a pessoa se coloca na situação de apostar, ela terá que avaliar se ela &lt;realmente&gt; acredita na racionalidade daquilo à despeito dos custos que essa crença pode trazer, ou se a crença era só algo que ela mantinha porque - apesar de irracional - trazia conforto ou era conveniente para outros interesses, como se sentir parte de uma comunidade com crenças similares.</p>
<p>Logo, é devido a esses dois fatores (ignorância racional e irracionalidade racional) que podemos afirmar que <em>“Apostas são uma forma prática de impor custos ao hábito gratuito de acreditar em bobagens.”</em></p>
<section id="referência" class="level3">
<h3 class="anchored" data-anchor-id="referência"><strong>Referência:</strong></h3>
<p>Caplan, B. (2001). Rational Ignorance versus Rational Irrationality. <em>Kyklos</em>, <em>54</em>(1), 3–26. <a href="https://goo.gl/AMf7GU">https://doi.org/10.1111/1467-6435.00138</a></p>


</section>
</section>

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  <category>Ciência</category>
  <category>Economia</category>
  <category>Filosofia</category>
  <guid>https://thomasvconti.com.br/2018/ignorancia-racional-irracionalidade-racional-apostas/</guid>
  <pubDate>Fri, 30 Mar 2018 03:00:00 GMT</pubDate>
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</item>
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