Dar presentes de Natal destrói ou cria valor econômico?

Economia
No ato de dar um presente, outra pessoa está usando recursos para escolher por você. Quais são as consequências econômicas?
Data de Publicação

24 de dezembro de 2018

Palavras-chave

consequencias economicas, eficiencia alocativa, natal, presente

O debate sobre as consequências econômicas do ato de dar presentes começou com o artigo de “A Perda de Peso Morto do Natal”, publicado por Joel Waldfogel em 1993 na American Economic Review.[1] Na linha oposta dos economistas que costumavam elogiar os efeitos benéficos do aumento do consumo na época de Natal, Waldfogel destacou o potencial de má-alocação de recursos e destruição de valor envolvido no ato de dar presentes.

Basicamente, todo o problema é que no ato de dar um presente, outra pessoa está usando recursos para escolher por você. Há uma chance dela “acertar” no presente e escolher tão bem quanto você escolheria, mas dado que ela tem menos informações que você e é impossível que ela conheça suas preferências a contento, o mais provável é que você valore o presente menos do que o custo que o presente teve para quem o comprou.

No teste empírico de Waldfogel, de cada R$100 gasto para dar presentes, quem os recebe os valorou em média em torno de R$87. Ou seja, dar presentes poderia causar uma perda de valor econômico da ordem de 13% do valor gasto. Para que isso não ocorresse, uma alternativa seria presentear as pessoas com dinheiro ao invés de objetos. Assim, quem recebe o presente gastaria com o que considera melhor para si.

Mas claro, tratando-se de uma publicação acadêmica, o artigo não esgotou o tema. Houve críticas e se seguiu todo um debate sobre as consequências de dar presentes para a eficiência alocativa. Três anos após a publicação de Waldfogel foi publicada a crítica de Solnick & Hemenway.[2] Nela, os autores não apenas criticaram o teste empírico de Waldfogel, como fizeram um teste alternativo. Perguntaram para um conjunto maior de pessoas quanto elas receberiam em dinheiro para ter um bem-estar equivalente ao do presente recebido, excluindo-se o valor sentimental. O resultado foi que dar presentes não só não destruía valor, como ainda poderia criar valor na ordem de duplicar (+100%) o valor gasto por quem deu o presente.

Uma crítica aos dois resultados veio em 1998. List & Shogren apontaram problemas tanto no teste empírico de Waldfogel quanto no de Solnick & Hemenway. Mediante um teste experimental replicando as metodologias anteriores e um inédito usando leilões, os autores encontraram geração de valor econômico no ato de dar presentes. Mas a escala do ganho foi bem menor, em torno de 21%.[3] Aparentemente, não era tão certo assim que presentes causariam uma alocação ineficiente de recursos.

Esses resultados divergentes foram criticado por Waldfogel em 1998.[4] Ele aponta o problema de que há um estigma social generalizado contra o ato de dar presentes em dinheiro que explicaria por que os participantes do teste de Solnick & Hemenway pediam valores tanto acima dos custos para ter um benefício equivalente. Já o leilão de List & Shogren incorreu no problema de revelar o quanto os participantes valoravam os objetos na <venda> deles, e não na compra. E é reconhecido na literatura que os valores de disposição a vender das pessoas são em geral maiores que os de compra.

Para complicar mais o debate, Ruffle & Tykocinski mostraram que os experimentos realizados pelos pesquisadores para tentar captar o valor atribuído por quem recebia os presentes eram sensíveis à forma como era colocada a pergunta. Perguntar o quanto acreditavam que o presente custou antes de perguntar quanto valoravam o presente chegava a um resultado até 20% diferente de perguntar o valor antes do custo… dentre outros problemas.[5]

O resultado do debate empírico pode ter sido inconclusivo a respeito de se dar presentes gera alguma ineficiência alocativa ou não, porém gerou uma discussão metodológica[6] muito interessante que teve desdobramentos em outros tipos de problema, além de provocar diversos outros pesquisadores a investigar a economia do ato de dar presentes.

Referências:
[1] Waldfogel, J. (1993). The Deadweight Loss of Christmas. The American Economic Review, 83(5), 1328–1336.
[2] Solnick, S. J., & Hemenway, D. (1996). The deadweight loss of Christmas: comment. The American Economic Review, 86(5), 1299-1305.
[3] List, J. A., & Shogren, J. F. (1998). The deadweight loss of Christmas: comment. The American Economic Review, 88(5), 1350-1355.
[4] Waldfogel, J. (1998). The deadweight loss of Christmas: reply. The American Economic Review, 88(5), 1358-1360.
[5] Ruffle, B. J., & Tykocinski, O. (2000). The deadweight loss of Christmas: comment. American Economic Review, 90(1), 319-324.
[6] Solnick, S. J., & Hemenway, D. (2000). The deadweight loss of Christmas: Reply. American Economic Review, 90(1), 325.

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