Quando a epidemia estiver controlada, como saberemos?

Ciência
14 dias com novos casos caindo ou sob controle é o 1º critério da OMS para uma reabertura segura. Como saber se o cumprimos?
Data de Publicação

27 de abril de 2020

Palavras-chave

coronavirus, covid

O primeiro critério recomendado no guia estratégico da OMS para reabertura segura de quarentenas é o número de novos casos de coronavírus se mantiver estável ou em queda nos últimos 14 dias. Mas é muito difícil de acompanhar no Brasil. Seguem alguns problemas e minha tentativa de mostrar graficamente a posição aproximada de cada estado.

Primeiro problema é a subnotificação. Nossos 3 principais indicadores têm problemas grandes - testes positivos, internações por SRAG e declarações de óbito em cartório. Até termos dados melhores ou pesquisas com testes aleatórios na população, esse problema é insolúvel.

Precisamos então trabalhar com dados sub-ótimos. Internações por SRAG o dado é semanal e muito revisado. Declarações de óbito o registro online está muito estranho. Restam os testes positivos de novos casos e novos óbitos.

Dois problemas com esses números: todo fim de semana e feriado diminui o pessoal que atualiza os números e os casos caem, o atraso é tirado 2 dias depois. Além disso, há uma fila de testes e muitos lugares parecem despejar casos “de baciada” no dia que a fila diminui.

Como acompanhar a tendência de casos dia-a-dia em uma situação dessas? Apliquei dois tratamentos na série de tempo:

A combinação desses dois ajustes deve servir para que erros pontuais de mensuração não tenham peso tão grande, ficando a tendência geral dos casos. Abaixo os resultados com dados até este domingo para cada estado e região brasileira. Nesses gráficos o critério da OMS apareceria como 14 barras azuis consecutivas no cenário mais seguro, ou 14 barras muito pequenas, próximas do zero, em sequência.

Tendência Centro-Oeste

Tendência Nordeste

Tendência Norte

Tendência Sudeste

Tendência Sul

Vemos que talvez com exceção do Mato Grosso e Paraná, nenhum estado está próximo dessa situação. Mas é preciso algum cuidado para interpretar esses números. Não temos informações públicas claras sobre a capacidade de teste de cada estado, quantos estão aplicando e quantos % dos testes dão positivo. Número de óbitos confirmados também com dados instável para a conta acima.

Mas, como o que importa aqui é menos a precisão exata do número e mais a tendência geral, se assumirmos que os testes positivos variam aproximadamente como os casos reais variam, a interpretação da tendência é razoável. Esse mesmo indicador e forma de apresentação poderia ser usado com interpretação muito mais robusta se existisse uma série de dados de mortes totais por dia no Brasil. Assim, deixaríamos de depender de testes de coronavírus. Em países desenvolvidos o impacto do vírus têm sido grande suficiente para mudar abruptamente o comportamento das mortes totais.

Um dado que governos estaduais e municipais podem conseguir disponibilizar de forma mais fácil e combinar com uma tendência como a calculada acima é o dado de variações na disponibilidade de leitos em UTI. Com os dois em mãos, seria possível calibrar uma avaliação de qual cenário que estamos, tendência de alta, baixa, ou estável.

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