Capitalismo, Socialismo, Maniqueísmo

Ensaios
Filosofia
História
Crítica das visões simplistas dos problemas colocados pelas ideias de Capitalismo e de Socialismo. Crítica de ilustrações dos livros de Mário Schmidt e de Hans-Hermann Hoppe.
Data de Publicação

20 de maio de 2013

Palavras-chave

Capitalismo, Filosofia da Economia, História do Pensamento, História Econômica, Socialismo

O artigo desta semana objetiva debater um dos problemas apresentados na imagem abaixo (reconheço que existem vários). Minha motivação para tanto é um longo debate sobre a imagem em um grupo do Facebook, no qual fui apenas observador.

Ilustração presente em livro didático da coleção do ensino fundamental e médio “Nova História Crítica”, de Mário Schmidt. Clique na imagem para ampliá-la.

Por onde começar? Primeiro, é importante iluminarmos as principais críticas que podem ser feitas a um conteúdo como esse:

Os três pontos dariam muito o que discutir; este artigo será voltado apenas para a crítica do último deles, o ponto 3. A visão de maniqueísta é um problema muito maior do que se pensa, e é um recurso leviano comumente utilizado em debates para fazer argumentos rasos parecerem convincentes. Em geral, o maniqueísta parte do pressuposto de que seu público alvo terá preconceitos ideológicos que corroborarão com o que está expondo, dando sentido a uma linha de raciocínio que na verdade é bem pouco inteligente.

Para evitar que esse artigo incorra no próprio mal que almeja criticar, devo de início mostrar como a exposição maniqueísta e ideológica de problemas complexos não é um problema do caráter de esquerda da imagem que inaugura o artigo, mas sim um problema geral presente nos dois lados do debate contemporâneo. Chamo a atenção para esta capa de livro:[2]

Expressões do Maniqueísmo: o livro de Hans-Hermann Hoppe traça uma classificação maniqueísta e arbitrária que esconde a complexidade dos problemas que visa abordar. O resultado não poderia ser outro: uma evidente apologia ao capitalismo, sendo a definição de “capitalismo” fruto do arbítrio do autor conforme suas simpatias pessoais. Nesse sentido, o maniqueísmo também é uma forma de desonestidade intelectual.

Percebe-se claramente que enquanto a primeira imagem busca colocar todas as luzes na “bondade” do socialismo, a segunda busca iluminar a “bondade” do capitalismo. Contudo, estamos tratando aqui de sistemas econômicos e sociais que abrangem quase a totalidade das relações humanas. A menos que se tenha uma visão muito restrita da natureza do homem, é evidente que qualquer coisa que compete a conjuntos de milhões de seres humanos não é facilmente colocada de um lado ou de outro desses pólos.

Questões preliminares necessárias para uma distinção mais verdadeira entre Capitalismo e Socialismo

A origem da palavra “capitalismo” foi buscada na história pelo renomado historiador francês Fernand Braudel. Seu uso com significado próximo ao que conhecemos hoje data de 1902,[3] isto é, estamos lidando com um conceito extremamente recente. Segundo o autor, seu uso se popularizou no século XX a partir da emergência de um sistema enxergado como seu antônimo, o socialismo representado pela Revolução Russa. Socialismo e Capitalismo são, portanto, indissociáveis entre si. O conceito de socialismo, por sua vez, é anterior ao de capitalismo e vem dos escritos de Saint-Simon (1760-1825).

A organização econômica sob bases capitalistas, contudo, é um fenômeno muito anterior à sua conceitualização teórica. Na extensa historiografia econômica sobre esse problema, há relativo consenso de que as bases para o capitalismo emergiram por volta dos séculos XV-XVII, a partir da crise do Feudalismo (sécs. XIII-XIV) na Europa. Mesmo historiadores liberais como Michael Mann são categóricos ao afirmar que o novo sistema não foi fruto da ação individual ou premeditada de nenhum agente ou classe, mas um resultado fundamentalmente imprevisível de diversas tendências e contra-tendências presente nesse período, ou especificidades presentes na estrutura europeia de sociedade[4]. Na historiografia desse estudo, é em geral aceito que apenas no século XIX, quando a indústria passa a ser a forma dominante de organizar a produção, que o capitalismo está realmente consolidado enquanto forma de organização social.

Já o socialismo parte da ideia de não ser um resultado inconsciente de diversas interações, mas uma tentativa de superação pela razão, ponto enfatizado nas críticas feitas por Marx, pois a proposta socialista seria não a de um sistema construído pelo devir através de séculos, mas um sistema colocado em prática conscientemente através de uma organização deliberada da sociedade. Isso só seria possível através dos novos avanços intelectuais e tecnológicos desenvolvidos pelo sistema capitalista. Daí para frente, o objetivo almejado pelo novo sistema seria manter a eficiência tecnológica da sociedade que o antecede, porém generalizá-las e redirecionar seus fins para reduzir ou eliminar as mazelas criadas pela organização capitalista da produção.

A tensa relação entre Teoria e Prática

Existem diversas perspectivas distintas sobre o capitalismo, contudo não houve em seu processo de constituição uma “Teoria do Capitalismo”, que continua não existindo em ampla aceitação. Podemos esboçar alguns princípios sejam comuns a todas as visões, como a centralidade da propriedade privada e do mecanismo de ajuste de preços via mercado para orientar os indivíduos. Como mostra a figura abaixo, interpretações mais abrangentes acabam sendo incompatíveis uma com as outras, gerando diversas perspectivas diferentes sobre o problema.

Apenas algumas das diferentes visões que emanam do mesmo problema real: tentar entender o que é o capitalismo. Perspectivas como a de Weber, Marx e Veblen influenciaram muito não apenas a economia como também a história, a sociologia e a antropologia. Outras visões, como a da escola austríaca, restringem-se à economia e a filosofia. Em geral, conciliar essas visões é praticamente impossível sem desvirtuar suas bases e propósitos originais.

Em 1919 o jovem pensador e então comunista Karl Popper veria-se angustiado para com os princípios do socialismo. Ao ver operários sendo mortos pela polícia em um protesto pacífico, e sendo ele uma das cabeças organizadoras do protesto, sentiu-se moralmente responsável por defender uma teoria que acabou levando algumas daquelas pessoas para uma demonstração em que acabaram morrendo.

Acontecimento trágico, porém o problema teórico encontrado por Popper não seria evidente para alguém que estivesse na posição do delegado responsável pela ação policial naquele caso, ou até mesmo de um observador neutro no protesto. Enquanto, segundo ele, os comunistas acreditavam seguir certa base teórica, devemos ponderar que o sistema contra o qual lutavam era nada menos do que o regime já constituído, que não foi nem é resultado pensado de qualquer teoria. No século XX e XXI, a base capitalista já está operando, de forma que para que esta se reproduza basta o comportamento habitual e não questionar muito as ideias vigentes. Assim como a maior parte dos capitalistas do algodão durante a revolução industrial britânica não tinha contato algum com a elite do país nem a erudição para conhecer Adam Smith ou os princípios da economia política clássica[5], os governantes, empresários e, no caso de Popper, os policiais não estão seguindo uma “teoria capitalista”. Estão apenas defendendo violentamente o padrão habitual contra potenciais tentativas de mudança. De forma análoga, para ser um empresário não é estritamente necessário estudar economia, muito menos ser simpático ao que disse Ludwig Von Mises, basta saber algo de administração. Ou nem isso: um sujeito pragmático sem qualquer estudo formal em vários casos também pode dar conta da gestão de uma unidade produtiva privada.

Mas esses são apenas alguns dos problemas inerentes que enfrentamos ao tentarmos entender o próprio sistema em que estamos inseridos, ou tentar encaixá-lo em alguma definição teórica.

No caso do socialismo, o problema é de outra ordem: não a justificação ou definição do que é a organização social atual, mas sobre o que gostaríamos que ela se tornasse, e como. Evitando controvérsias, objetivos consensuais socialistas seriam reduzir ou eliminar a desigualdade social, eliminar a pobreza, e usar ganhos de produtividade para reduzir o tempo de trabalho das pessoas, aumentando o tempo livre. Contudo, logo vemos o problema: as visões sobre o socialismo divergem não apenas sobre possíveis objetivos finais mais amplos da nova sociedade (opinião sujeita a todo tipo de variação conforme o gosto do pensador), mas também e principalmente sobre os meios pelos quais seria mais justo ou possível atingir essa nova organização social.

Enquanto para entendermos o capitalismo em tese estamos olhando para o mesmo objeto, a sociedade atual e presente - ainda que sob diferentes perspectivas, algumas mais alienantes do que outras -, no caso do socialismo continuamos com a possibilidade de diversas perspectivas diferentes, agora de crítica à sociedade atual, mas soma-se o problema de que o objeto final desejável para o qual olhamos nem sempre é o mesmo, pois está no futuro, não no presente. Mais espaço para divergências e controvérsias. Não por menos, é conhecido que na maior parte das vezes os maiores inimigos críticos da esquerda política são da própria esquerda, que se divide em uma enorme variedade de partidos e movimentos, cada um com suas particularidades. Ao longo da história, esse problema resultou mais de uma vez em graves rupturas.

Na hora de passar os problemas teóricos do socialismo para a prática, todo tipo de empecilho pode surgir. A proposta socialista de reorganização social pode chegar em escalas enormes que colocam grandes desafios para todos. O comportamento habitual é incapaz de resolver esses problemas.

No caso do capitalismo, na prática a amistosa relação entre riqueza e poder em uma sociedade profundidamente desigual gestou ao longo da história as mais variadas formas de injustiças, guerras e miséria. A indagação feita por John Stuart Mill também permanece tão atual quanto o era em 1848: “Destarte é questionável se todas as invenções mecânicas já feitas aliviaram a labuta diária de qualquer ser humano” (John Stuart Mill, “Princípios de Economia Política”, 1848. Livro IV, Capítulo IV).

O despropósito maniqueísta

As poucas questões que coloquei já são suficientes para sempre turvar qualquer debate que busque uma saída positiva para o conflito capitalismo versus socialismo. Contudo, se aceitarmos a natureza tensa dessa oposição, de imediato desabam os esforços de apresentar uma visão demasiada romântica dos problemas inerentes a cada um dos sistemas e das barreiras que verdadeiros defensores de um ou de outro lado devem se propor a resolver.

Mário Schmidt, ao já expor o Socialismo como tudo do melhor, peca contra a própria causa socialista ao não trazer nenhuma posição crítica que um socialista deveria ter; no lugar dessa visão, oferece apenas uma dicotomia romântica.

Hans-Hermann Hoppe faz o mesmo para com o Capitalismo. Ao definir como inerentemente capitalista elementos como a paz, a ética, a liberdade e o progresso, está potencialmente impelindo leitores que queiram uma sociedade assim para um julgamento apologético da realidade que o cerca, quando na verdade esta é permeada de controvérsias e problemas. Se o autor busca angariar defensores do “Capitalismo”, esse conceito geral e impreciso, ele conseguirá. Se, por outro lado, seu objetivo for caminhar para uma sociedade com as características que ele retrata (justa, pacífica, ética, livre, progressista), então de certo ele também está agindo contra sua própria causa.

Concluindo, minha opinião é a de que não há caminho rápido e muito menos indolor para resolver os problemas da organização econômica e social da humanidade. Tirar os pés da realidade, fazer apologias, esvaziar o pensamento crítico, “maniqueisar” problemas complexos, escolher antecipadamente quais os problemas que não se quer ver, sempre resultará em mais um passo para trás na tarefa de realizar uma sociedade mais justa.

Notas:

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